Grandes epidemias e a Literatura
A grande “vedete” do noticiário nacional (e de uns dias para
cá, também internacional), rivalizando com as onipresentes notícias políticas –
que polarizam os veículos de comunicação
de todo o mundo – e com informações de caráter policial, referem-se ao célere
alastramento do zika vírus pelas Américas e que já está chegando à Europa,
ameaçando se transformar da epidemia que já é em uma pandemia, de conseqüências
imprevisíveis. Tanto isso é real, que a Organização Mundial de Saúde decretou,
ontem, dia 1º de fevereiro de 2016, em sua sede, em Genebra, na Suíça, estado
de emergência sanitária, por conta dessa ameaça. Destaque-se que providências
radicais, como esta, são adotadas, somente, em casos de extremo risco global,
como provavelmente, é mais este grave perigo à população não mais de áreas
restritas, mas de todo o Planeta.
Este, que é o maior nível de alerta mundial do organismo
vinculado à Organização das Nações Unidas, foi adotado principalmente por causa
da provável (embora ainda não confirmada) vinculação entre o zika vírus e a
microcefalia. Um leitor solicitou-me que comentasse mais esta ameaça à
humanidade e tentarei atendê-lo da melhor maneira possível. Todavia, lembro
que, embora tenha inegável fascínio pela Medicina, não sou médico. Meu enfoque,
portanto, não pode ser este, até para não escrever bobagens. Ademais, meus conhecimentos
de Biologia são, apenas, aqueles que me possibilitaram ser aprovado em
Vestibular, há quase meio século. Ou seja, é de leigo, não de especialista. Só
posso (e devo), pois, enfocar a questão sob o ponto de vista literário, pois
esta é, mesmo que com muitas lacunas, a minha praia.
Entendo que a melhor forma de tratar do tema, sem correr nenhum
risco de desinformar os leitores, é a de abordar como escritores de ficção trabalharam
o assunto referente a epidemias – reais e fictícias –, tanto em romances,
quanto em contos, peças de teatro e roteiros de cinema. Aliás, a literatura a
respeito nem mesmo é tão farta. Não me consta que algum ficcionista já tenha
tratado do zika vírus, até porque, este agente patogênico é ainda relativamente
recente. Mas se ninguém tratou dele, vários já trataram do seu agente
contaminador, o teimoso e resistente Aedes Aegypti, transmissor de outras
tantas doenças, como a dengue, o chicongunia e... a febre amarela.
Sobre as duas primeiras patologias citadas, não conheço
nenhum livro, se é que algum já tenha sido escrito, no que não acredito. Mas,
sobre a febre amarela, há vários, e bons, romances, cujo teor e cujos autores
abordarei oportunamente, na sequência desta série de comentários. Aliás, uma
epidemia dessa doença quase varreu a cidade em que resido, Campinas, do mapa,
em finais do século XIX. Reduziu sua população, que na época, se não me engano,
era maior do que a de São Paulo, de cerca de 100 mil pessoas, para algo em
torno de cinco mil. Quem não fugiu daqui, acabou morrendo de febre amarela, que
também grassou no Rio de Janeiro, onde igualmente fez muitas vítimas fatais.
Neste caso, cito dois grandes romances, ambos escritos por escritores meus
amigos. O primeiro é “A febre amorosa”, do saudoso Eustáquio Gomes (falecido em
2014). Trata-se de magnífico escritor (além de incomparável figura humana), que
não foi devidamente valorizado como merecia. Tive o privilégio e a honra de ser
não somente seu companheiro de trabalho, na redação do Correio Popular (era
jornalista exemplar, modelo para as novas gerações do jornalismo), mas,
sobretudo, seu amigo.
O segundo romance tendo por tema a epidemia de febre
amarela, que dizimou Campinas e cujo pico ocorreu em 1889, é “O ovo da serpente”.
Seu autor é o advogado e ex-procurador da Prefeitura de Campinas, Jorge Alves
de Lima, de 75 anos. Além de presidente do Instituto Histórico, Geográfico e
Genealógico de Campinas, ele é membro da Academia Campinense de Letras, que
tenho orgulho de também integrar e... principalmente (para mim) é meu amigo.
Esse mosquitinho terrível, originário do Egito, transmissor
da febre amarela, dengue, chicongunia e zika, bem que merece o nome científico
que os biólogos lhe deram. “Aedes”, em grego, significa “odioso”. Pudera! Amoroso
é que não poderia ser! Lembro o leitor, o que me sugeriu este assunto, que já
tratei dele aqui mesmo, neste espaço, em forma de editorial, intitulado “Epidemias
como temas de romances”, publicado em 15 de abril de 2015. O ilustre amigo
virtual certamente não leu o referido texto. Não faz mal. Espero que leia a série
de comentários que me proponho a escrever doravante, para atender sua
solicitação. Desta vez, todavia, proponho-me a estender a abordagem, trazendo
novas informações a propósito, o que, espero, virá a ampliar o conhecimento dos
que me derem a honra de sua leitura diária, e o meu também, (por que não?) que
serei forçado a pesquisar novas fontes, para não escrever bobagens.
Para deixar-lhes um “gostinho de quero mais”, tomo a
liberdade de reproduzir o primeiro parágrafo do referido editorial que citei,
que foi adaptado e publicado em vários outros espaços da internet ao meu dispor
com o mesmo título:
“A maior ameaça à vida humana – das tantas e tantas que
podem extinguir nossa frágil espécie – talvez não seja o choque de algum
cometa, ou de um meteorito de grande porte com o Planeta (possibilidade que não
é nada remota) e nem mesmo uma impensável, porém possível, guerra mundial, com
o uso maciço de armas nucleares, como prognosticam os “profetas do apocalipse”.
Convenhamos, esses perigos são concretos. São como uma roleta russa para a
humanidade. São catástrofes que podem ocorrer sem nenhum aviso, a qualquer
momento, e acabar com nossa arrogante espécie. Todavia, para muitos
especialistas, o risco maior á nossa sobrevivência talvez venha de seres vivos
minúsculos, microscópicos, tão diminutos que são invisíveis a olho nu.
Refiro-me a vírus e bactérias sumamente mortais, como os do ebola e de tantas
outras doenças letais, muitos sequer não identificados ainda, que podem causar
uma pandemia global incontrolável. Esse sempre foi meu temor”. Por enquanto...
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Tenho o mesmo sentimento, Pedro, e essa possibilidade paira sobre nós desde outras epidemias como a Gripe Espanhola, por exemplo. São os vírus, de fato, os nossos grandes inimigos. Vide a AIDS.
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