O Vieira político
Os sermões do padre Antonio Vieira,
além de luzirem pelas extraordinárias mensagens cristãs que contêm, são
versáteis manuais de redação e estilo da língua portuguesa, mesmo passados mais
de três séculos da sua produção. Alguns dos pronunciamentos do combativo,
piedoso e eclético sacerdote são antológicos, tanto pelos temas abordados,
quanto pela linguagem simples, mas elegante e até poética e musical, com que
foram escritos. Lendo-os em voz alta é que se consegue perceber toda a graça e
a beleza do nosso idioma, quando usado com bom senso, inteligência e absoluta
correção.
Todavia, poucas pessoas, críticos
literários ou historiadores, ressaltaram um outro ângulo, quase nunca lembrado,
das pregações desse inteligente e combativo sacerdote: o político. Vieira
ressalta, em seus sermões, por exemplo, a defesa intransigente e sistemática
dos direitos humanos dos indígenas brasileiros, numa época em que ninguém
cogitava desse tipo de assunto, quando os habitantes primitivos do Brasil eram
tidos como seres "menos do que gente". Eram considerados animais
"semi-racionais", pouco acima dos gorilas talvez, incapazes de gerir
seus próprios destinos.
Recorde-se que nesse período os reis da
maioria dos países da Europa detinham poder absoluto. Ostentavam o que se
entendia como "direito divino" de reinar e a maior parte agia como
déspotas cínicos e arrogantes, não raro dissolutos, senhores absolutos da vida
e da morte de seus súditos. Não se sentiam na obrigação de prestar contas dos
seus atos a quem quer que fosse, respaldados, é claro, por respeitáveis forças
militares, prontas a punir qualquer ato interpretado como de rebeldia.
Vieira, no entanto, não escapou impune
por suas idéias, liberais demais para a época e lugar. Pagou caro pela ousadia
de defender os "indefensáveis". Seus sermões de cunho político,
denunciando, corajosamente, violências e desmandos contra as populações
indígenas, incomodavam, e muito, os poderosos proprietários de terras do
Maranhão. Estes julgavam-se acima da lei e viam nos silvícolas nada mais do que
mera mão de obra farta e gratuita, da qual poderiam se apossar quando bem
entendessem.
As queixas contra o corajoso sacerdote
jesuíta avolumavam-se. Os poderosos latifundiários maranhenses, porém, não
ousavam hostilizar abertamente o padre. Temiam abrir guerra, senão com a
Igreja, pelo menos com a poderosa Companhia de Jesus. Por isso, encaminharam
suas reclamações à corte, em Lisboa, o que valeu, no final das contas, a
expulsão de Vieira do Brasil. Pobres tempos! Pobre gente! Indigência de
espírito!
Antonio Vieira, ressalte-se, era o
pregador predileto do rei Dom João IV, que apreciava a forma elegante e repleta
de imagens poéticas dos seus sermões, com que transmitia as sublimes mensagens
do Evangelho, envolvendo e comovendo os que tinham o privilégio de os ouvir.
Tanto isto é verdade, que a maior parte deles foi proferida não em alguma
igrejinha qualquer, dos arrabaldes da capital, ou de alguma distante e perdida
cidade do interior de Portugal, mas na própria capela real em Lisboa, que
congregava, além do monarca português, uma platéia ilustre e seleta, a elite do
poder secular e religioso do reino.
Uma das prédicas mais inspiradas do
padre Vieira, primor de lógica,
inteligência e verdade e uma aula de estilo, de ética e de lógica, ainda é
atualíssima nos dias de hoje (como, aliás, a maioria das mensagens que nos
legou). Aborda os interesses (raramente legítimos) que cercam a maioria das
amizades, quase sempre falsas, ocasionais e interesseiras. Felizmente, como em
tudo na vida, há exceções. Trata-se do "Sermão do Dia de São Roque".
Para ilustrar o que diz, Vieira cita a
experiência de Jó, relatada no Velho Testamento. Enquanto o patriarca dispunha
de grande riqueza e poder, e sua mesa era farta, e a bolsa generosa, não lhe
faltavam comensais. O círculo de amigos era imenso e crescente, com todos
jurando fidelidade irrestrita.
Contudo quando, para testar sua fé,
Deus permitiu que perdesse tudo o que tinha (fortuna, família, prestígio e até
a saúde), lhe restando apenas a vida, todos os que freqüentavam a sua casa, sem
nenhuma exceção, o abandonaram. Não contentes com o mero afastamento, fizeram
do seu infortúnio motivo de chacota. A paciência de Jó e sua inabalável fé,
porém, prevaleceram. E o patriarca foi fartamente abençoado, por em momento
algum perder a confiança em Deus.
Não tardou para que o patriarca
recuperasse os bens perdidos e os multiplicasse. Constituiu nova família, a
saúde foi restaurada e seu prestígio cresceu muito mais do que antes. E os "amigos"
infiéis, que o abandonaram na desdita, retornaram rapidinho, e em massa, cada
qual com uma desculpa na ponta da língua para justificar a infidelidade.
Vieira, aliás, experimentou coisa muito
parecida em sua vida. Seu prestígio oscilou como gangorra e os bajuladores e
detratores acompanharam essas subidas e descidas, aproximando-se ou
afastando-se dele, conforme as conveniências. Até parece, portanto, que ele
acabou de escrever há apenas algumas horas esse sermão maravilhoso, tamanha sua
atualidade. Essa é a arma dos competentes e dos gênios: a capacidade de
"radiografar", com sensibilidade e clareza, a alma humana.
Boa leitura.
O Editor.
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Tenho de andar muito para entender o Padre Vieira, no entanto, mesmo sem alcançá-lo, acredito nas suas palavras, Pedro.
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