Inteligência fotografada
A inteligência é passiva de ser fotografada? Ou seja, é
possível obter uma “imagem” (portanto, concreta), de algo que é abstrato? O escritor
sérvio Milorad Pavitch entendia que sim. Como? Ele mesmo responde: “Os livros
são inteligência fotografada”. Portanto, a tal fotografia dessa humana
capacidade de entendimento seria a Literatura. Eu nunca havia pensado nisso.
Claro que concordo com a afirmação do ilustre sérvio. E considero-a literal e
não mera metáfora, como pode parecer. Mesmo havendo lido somente dois livros de
Milorad Pavitch (os dois únicos traduzidos para o português), tornei-me seu
admirador. Pena que sua obra tenha sido, toda ela, produzida no idioma sérvio,
que relativamente poucas pessoas dominam. Estima-se que seja falado, se tanto,
por doze milhões de pessoas. E a escrita nessa língua, para nós ocidentais, é
muito mais complicada ainda, porquanto nem mesmo adota o nosso alfabeto, o
latino. É grafado em cirílico, utilizado apenas pelos povos eslavos.
Milorad Pavitch nasceu em 15 de outubro de 1929, em uma
Sérvia diferente da atual. Esse hoje país independente dos Balcãs integrava a
então Iugoslávia, criada em 1918, que se desintegrou, oficialmente, em 2006,
depois de uma perversa guerra civil (mais propriamente um conflito étnico),
iniciada nos primeiros anos da década de 1990, entre os demais integrantes
dessa instável federação, com mais diferenças do que identidades. Sua terra
natal tinha, então, por parceiros (que não tardaram a se tornar seus inimigos):
a Croácia, a Eslovênia, a Bósnia-Herrzegovina, a Macedônia e o Montenegro, além
dos territórios autônomos do Kosovo e de Voivodina.
O escritor morreu em 30 de novembro de 2009, aos 80 anos de
idade. Testemunhou, portanto, a maior parte da turbulenta história da região,
tanto o período de monarquia, que durou até a Segunda Guerra Mundial, quanto a
fase comunista, sob a liderança do general Jozip Broz, conhecido como Tito.
Aliás, a federação desintegrou-se após a morte dessa carismática figura, herói de
guerra por sua atuação no comando dos guerrilheiros partisans, que era fiador
dessa improvável unidade. Milorad Pavitch foi um escritor tão bom, que pelo
menos teve livros traduzidos para outros idiomas (inclusive para o português,
como destaquei). Nesse aspecto, levou nítida vantagem sobre seus colegas de letras,
pouquíssimo conhecidos fora dos Bálcãs. Eu, pelo menos, não conheço nenhum
outro.
Uma pena. Perdemos, assim, a oportunidade de conhecer pontos
de vista diferentes dos nossos, de outras culturas e de outras tradições, além
de suas histórias, seu folclore e suas tantas outras manifestações culturais.
Pudera! São raríssimos os tradutores do sérvio para o inglês, francês, espanhol
ou português. Aliás, são relativamente pouquíssimas (não mais que doze milhões)
as pessoas dos próprios Bálcãs que falem essa língua ou leiam textos escritos
nela. Tive o privilégio de acesso aos dois únicos livros de Milorad Pavitch
lançados no Brasil. São eles: “O Dicionário Khazar”, datado de 1989, lançamento
da Editora Marco Zero, e “Paisagem pintada com chá”, publicação da Companhia
das Letras de 1990. Recomendo ambos e estou certo que o leitor não irá se
decepcionar, como eu não me decepcionei.
Pena que nos últimos vinte e cinco anos nenhuma outra de
suas obras foi traduzida sequer para o inglês. Pincei, a esmo, alguns trechos
dos dois livros citados desse escritor, que reproduzo, abaixo, a título de
exemplo do seu estilo e dos temas que aborda. Como este, referente ao que
pensamos: “Os pensamentos de duas pessoas diferentes são, com certeza, muito
mais semelhantes do que uma pessoa e os seus próprios pensamentos”. Ou este,
tratando da forma como os outros nos vêem: “Quando você chega, acaba sendo
avaliado em função dos trajes; quando você parte, em função da inteligência”. Ou
este outro, analisando comportamentos: “As atitudes humanas são como as cepas
da videira: de tempos em tempos, soltam brotos, sem saber se haverão de topar
fora, com a geada ou com o sol...” Ou mais este, sobre nossa meninice: “A
infância não se assemelha aos períodos restantes na vida. Tem algo secreto, que
a torna inacessível ao futuro. A certa altura, quando a abandonamos, a infância
torna-se tão distante, impenetrável e funesta quanto o próprio futuro. Ela
recobre uma das pontas de nossa trilha, exatamente assim como o futuro recobre
a outra extremidade...”
Claro que o melhor do seu pensamento só pode ser extraído mediante
a leitura dos seus únicos livros (“fotografias de sua inteligência”, nas suas
próprias palavras) a que nós, brasileiros, podemos ter acesso (a menos que
dominemos o idioma sérvio, o que, pela complexidade dessa língua, é
improvável). Mas a opinião mais polêmica
de Milorad Pavitch é sobre o relacionamento intergêneros. Escreveu, a esse
propósito:
“Existem mulheres que só amam os filhos; existem outras que
só amam os maridos. O problema reside no fato de que a mulher percebe
imediatamente aquele homem que a considera uma espécie de aparador de bigodes.
Todas as mulheres os evitam. É como aqueles lugares da terra em que os cães
jamais haverão de ladrar. Desse modo, alguns são amados três vezes: primeiro,
enquanto filhos; depois, como maridos; e, finalmente, como pais. Enquanto isso,
os que não amaram suas mães não poderão amar nem as mulheres nem as filhas.
Eles profanam e comem, simultaneamente, aos arrulhos. Há séculos, expressiva parcela
da América masculina perde a inocência com as negras, e parcela expressiva da
Europa, no sudeste, com as ciganas. Que elas sejam abençoadas, porque não
existe piedade maior do que oferecer um pedaço de pão feminino a esses jovens
desamados e desnutridos. É assim que vocês, que não são amados, nem serão
amados, perdem a inocência. Permanecerão fiéis às mulheres que vocês não amam,
e nem mesmo vocês gostam que elas durmam com vocês... É por isso que vocês
ficarão procurando, eternamente, uma virgem...”
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Racismo em cena. Fácil entendê-lo e difícil suportá-lo.
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