Ra-tim-bum
* Por
Marcelo Sguassábia
- Não acredito que
você me acordou uma hora dessas pra falar sobre "Parabéns a você"...
- Pois você vai me dar
os parabéns depois que ouvir minha ideia. Ah, se vai!
- Ih, lá vem.
- Aqui no Brasil, o
"Parabéns a você" tem registro no ECAD e dizem que é a segunda música
mais executada no país. Sabe lá o que é isso, cara? A original é obra de duas
irmãs americanas e a versão brasileira foi escolhida por concurso, em 1942. A
vencedora foi uma mulher de Pindamonhangaba, Bertha Celeste Homem de Mello. Ela
morreu em 1999 e apagou a velinha 97 vezes, quase todas ao som da própria
música! Hoje, os direitos autorais estão nas mãos dos herdeiros. Mas o que me
interessa mesmo é a segunda parte, aquela que diz assim:
"E pro(a) (nome
da pessoa), nada?
Tudo!
Então como é que é? É!
É pique, é pique, é
pique é pique, é pique,
É hora, é hora, é hora
é hora é hora
Ra-tim-bum (nome da
pessoa, nome da pessoa, nome da pessoa)"
- Nossa, que
interessante. Eu não acredito que eu estou escutando essa merda toda às duas da
manhã.
- Me escuta, caramba,
me escuta. Quase me matei de pesquisar na internet, nos registros de direitos
autorais e em tudo quanto é lugar pra descobrir quem cometeu essa baboseira do
"pique pique". As origens são as mais absurdas possíveis. Misturam
onomatopoéias de bandinha de circo, os estudantes de Direito do Largo de São
Francisco e até um rajá indiano que teria visitado a faculdade em mil
novecentos e bolinha. Já outras fontes afirmam que o termo
"Ra-Tim-Bum" é uma maldição. Imagina só. Numa dessa, todo mundo na
festa roga praga no aniversariante...
- Ok, amanhã você
continua, tá bom?
- Resumindo, o fato é
que essa parte do "Parabéns" não tem dono. Minha ideia é fazer o
registro desse complemento e requerer os royalties de execução, radiodifusão e
teledifusão, compreende?
- Só dessa segunda
parte?
- Sim, a primeira é
dos herdeiros da Dona Bertha.
- Dona Bertha? Que
dona Bertha?
- Aquela, que eu
acabei de falar, a velhinha de Pindamonhangaba. Depois dessa parte que eu quero
registrar vem o manjado "Com quem será?" - que acabou se
incorporando, sabe-se lá porque, ao maldito corinho natalício. Tentei descobrir
o autor, pra propor uma ação conjunta de registro, mas não encontrei de jeito
nenhum. Pesquisando, vi que a música desse "Com quem" dos infernos é
baseada na Marcha Nupcial de Wagner. Pegaram a melodia de um gênio e enfiaram
uma letra de retardado.
- E aquele trecho que
parece coisa de beata velha, que fala "Com imensa alegria, suplicamos aos
céus", quem foi que compôs?
- Sei lá, pelo jeito é
uma segunda parte da letra que a Bertha fez, mas também não tenho certeza.
- Bom, posso voltar
pra cama agora?
- Imagina a grana que
dá pra ganhar só em buffet infantil. Esquece televisão e rádio, vamos focar só
nas festinhas de criança. Eu espalho um exército de gente que está aí à toa,
procurando emprego, e faço um acordo por comissionamento. Eles dão um jeito de
entrar nas festas e, na hora de apagar as velinhas, gravam com celular a
cantoria. Ninguém vai desconfiar de nada, porque quase todo mundo fica com o
celular gravando nessa hora - a mais insuportavelmente previsível da
comemoração. Com o flagrante na mão, é só mandar a cobrança dos direitos para
os pais do fedelho. Tiro 10% de comissão para o fotógrafo e o resto vem limpo
pra mim.
- Parabéns a você.
Genial. Supimpa. Estonteante. Formidável.
Bem.......bo....la.............do............................zzzzzzzzzzzz......................zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz.......
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
A segunda e terceira partes são acréscimos mais recentes. Não sei datando de quando, mas deve ter sido de 1990 para cá. Acaba que fiquei curiosa para saber qual é a primeira, a música mais cantada no país.
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