O amor dos romanos pelos livros
Os romanos – sobretudo um dos seus maiores vultos
intelectuais, o filósofo, orador, escritor e advogado Marcus Tullius Cícero –
deram grande impulso à Literatura, não apenas como escritores, mas, sobretudo,
como leitores.. A elite pensante de Roma desenvolveu e incentivou o hábito da
leitura – ao contrário da maioria dos outros povos, contemporâneos ou não, que
não deram maior importância (na verdade, nenhuma, salvo raras exceções) a essa
forma de obter conhecimento. Entre tantas contribuições nesse sentido, a alta
sociedade romana foi grande incentivadora, por exemplo, de bibliotecas
particulares. Tratava-se de um “luxo” sumamente dispendioso (se levarmos em
conta que na época o livro, pelas dificuldades de serem “materialmente”
produzidos, era um objeto bastante raro e, portanto, caro). Refiro-me especificamente
ao século I antes de Cristo, período considerado como sendo o “de ouro” da
Literatura romana.
Eram comuns, por exemplo, os salões de leitura, espalhados
por toda a Roma, e sempre lotados, com
pessoas ávidas por ouvirem a leitura, em voz alta, dos escritores mais
populares de então. Guardadas as devidas proporções, esse interesse equivalia
ao que tínhamos ainda bastante recentemente em relação ao cinema, antes que
novas mídias nos possibilitassem o acesso, sem sairmos de casa (inclusive pelo
computador), aos filmes mais badalados. Era bastante comum, também, a leitura
de livros nas termas, enquanto as pessoas se banhavam, ou nos banquetes, onde
eram recitados, principalmente, os poemas dos poetas mais notáveis de Roma.
Nessa época, a posse de uma biblioteca particular, que fosse
bem sortida, era símbolo de “status”, objeto de desejo dos que tinham posses
suficientes para tal. Como se vê, ao contrário do que a maioria pensa, os
romanos não se divertiam, somente, com os selvagens e brutais combates de
gladiadores. Não, pelo menos, os abastados, com acesso à educação e à cultura.
O amor e a veneração desse povo pelos livros era tão grande, a ponto de Cícero
haver declarado, em certa ocasião: “Se tens um jardim e uma biblioteca, tens
tudo”. Os estudiosos da História da Literatura tendem a considerar os
escritores gregos mais profundos e menos superficiais que os romanos. No que
diz respeito à Filosofia, até pode sem embora esse tipo de comparação sequer
caiba. Todavia, considero os poetas de Roma mais apaixonantes, completos e
sutis. Sobretudo no que diz respeito a elegias.
Um dos grandes vultos da poesia, em Roma, foi, sem dúvida,
Plauto. Popularíssimo não somente entre as elites, era conhecido como o “poeta
do povo”. Era especializado em sátiras e criticava, com argúcia e coragem, os
costumes de seu tempo. É tido, até os dias de hoje, como o maior cômico latino.
Aliás, os romanos tinham particular gosto pela sátira e pela comédia. Outro
escritor, bastante popular de então, foi Terêncio. Embora cartaginês, e
escravo, conquistou o patriciado romano com suas engraçadíssimas peças, como “O
eunuco”, “A sogra”, “Os dois irmãos” e “O atormentador de si mesmo”. Roma
produziu, na figura de Virgílio, um dos maiores poetas de todos os tempos,
comparável ao grego Homero, autor da epopéia “Eneida”, além de outros poemas,
sobretudo líricos.
Não se pode tratar de Literatura romana sem citar nomes como
Horácio, com suas “Odes” e suas “Sátiras”. Ou como Ovídio e seu clássico “A
arte de amar”. Ou como Tito Lívio e sua esclarecedora obra “Livros desde a fundação
da Cidade”, com episódios sobre a história de Roma. Há dezenas de outros nomes,
de escritores que nada ficam a dever para os atuais, como Petrônio (autor do “Satyricon”,
uma paródia do romance grego), ou Marcial, ou Juvenal (ambos escritores
satíricos). Ou, mais tarde, Plutarco (autor de “Vidas paralelas”), e Luciano
(chamado pelos historiadores de “O Voltaire da Antiguidade”, autor de “Diálogo
dos mortos” e “As seitas em hasta pública”).
Mas quando se fala em Literatura romana, e mais, em cultura
desse povo extraordinário, um intelectual, na verdade um gênio, se destaca.
Refiro-me a Cícero, tido e havido, com justiça como uma das mentes mais
versáteis da Roma antiga. Foi ele, afinal, quem apresentou aos romanos as
escolas da filosofia grega. Foi mais longe: criou um vocabulário filosófico em
Latim, distinguindo-se como linguista, tradutor, e filósofo. Além disso, foi
orador impressionante e advogado de sucesso. Cícero provavelmente pensava que
sua carreira política era sua maior façanha. Estava enganado. Hoje em dia, ele é apreciado principalmente
pelo seu humanismo e trabalhos filosóficos. Sua correspondência (parte da qual
é dirigida ao seu amigo Ático) é especialmente influente, introduzindo a arte
de cartas refinadas à cultura européia. Pena, na verdade, que se meteu em
política. Por causa dela, foi assassinado, em 7 de dezembro de 43 a.C., a mando
de Marco Antonio, seu desafeto. Não me
admiro dos romanos terem tamanho respeito pelo livro. Pudera, com tantos e bons
escritores, valia a pena o sacrifício que isso, então, representava,
considerando-se a raridade e o preço bastante salgado dessa preciosa fonte de
cultura e prazer.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Um passeio gostoso e não dispendioso, estou fazendo pela história do livro. Lendo coisas que nem imaginava.
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