Renascimento excluiu as mulheres
O chamado Renascimento, que pode, sem exagero algum, ser
considerado como época de “descoberta do mundo e do homem”, conforme caracterização
feita pelo historiador suíço Jacob Burkhardt, foi decisivo para o
desenvolvimento da civilização, tal como a conhecemos hoje. Óbvio que isso que aí
está não é perfeito, com todo o avanço ocorrido nos últimos 500 anos. Porém,
caso a humanidade permanecesse mergulhada na ignorância e no obscurantismo,
como ocorreu pelos longuíssimos mil anos da Idade Média, as coisas seriam
muitíssimo piores em todos os aspectos. Não discorrerei sobre esse despertar
artístico, cultural e comportamental da humanidade, que implicou em mudanças em
todos os setores de atividade, porquanto há milhares e milhares de livros a
propósito. Não tenho, portanto, nada de novo a informar a respeito.
Lembro, entretanto, que o processo de profundas mudanças não
se deu da noite para o dia, num piscar de olhos e nem abrangeu já não digo o
mundo todo, mas os principais países da Europa. Foi lento, gradual, levou mais
de um século para se consolidar. Seu início foi restrito à região italiana da
Toscana, mais especificamente às cidades de Florença e Siena. Daí, irradiou-se
para a França, Alemanha, Inglaterra etc.etc.etc. Essa redescoberta e
revalorização das referências culturais da Antiguidade Clássica ficou mais
nítida nas artes em geral, especificamente na Literatura e, igualmente, na
Filosofia, embora influenciasse, reitero, todas as atividades, como política,
economia etc. e até mesmo a religião.
Era de se supor que esse período, que pode e deve ser considerado
como culturalmente “revolucionário”, ensejasse a existência de um número
razoável de filósofas. Não foi, todavia, o que aconteceu. As mulheres, pode-se
dizer, foram excluídas do Renascimento. Continuaram rigorosamente restringidas
ao seu secular papel, encaradas como intelectualmente inferiores e, por isso,
na concepção vigente, carentes de permanente tutela masculina. Esse período,
demarcado pelos historiadores como tendo se iniciado no século XV e terminado
no XVIII, é classificado, para efeito de estudo, de Idade Moderna. Como em etapas
anteriores da História, teve, sim, dezenas, centenas, milhares e provavelmente
muito mais de filósofas, Porém, raríssimas foram as que tiveram o privilégio de
terem suas obras salvas da destruição, mesmo que fosse um ou outro fragmento
delas. E a imensa maioria foi completamente esquecida, a ponto de não haver sequer
registro de seus nomes.
A enciclopédia eletrônica Wikipédia – que adotei como fonte
para esta série de comentários – traz breves e escassas referências sobre oito
mulheres que se dedicaram, de alguma forma, à Filosofia messe período. A
primeira delas, a exemplo das filósofas medievais, esteve diretamente vinculada
à religião. É Teresa de Jesus, ou Santa Teresa de Ávila, que viveu entre 1515 e
1582. A partir de 1562, essa monja mística iniciou a tarefa de fundação de
vários monastérios das carmelitas descalças na Espanha. Dela restaram alguns
livros, dos quais quatro são os mais conhecidos: “Caminho da perfeição”, “Livro
de sua vida” (autobiografia), “Castelo Interior” e “As moradas”.
Outra mulher que se dedicou à Filosofia foi a francesa Louise
Labé, que viveu entre 1524 e 1566. Foi uma pensadora erudita, escritora,
filósofa e música. Dela, conhecem-se duas obras, sendo uma poética, “Sonetos” e
outra filosófica, “Debate entre a loucura e o amor”. Na dedicatória deste
último livro, Louise redigiu uma espécie de manifesto das reivindicações
femininas, entre as quais o direito de acesso ao conhecimento científico e a
tantos outros saberes. Como se vê, o “Renascimento” não havia chegado, ainda,
às mulheres, que se mantinham na mesmíssima situação que sempre tiveram desde a
remotíssima Antiguidade perdida no tempo.
Da espanhola Oliva Sabuco desconhece-se praticamente tudo:
quando nasceu, como viveu e quando morreu. E olhem que ela legou relevantes idéias
à sociedade de seu país, quer como filósofa, quer como médica. Foi a pioneira
no ramo da Medicina Psicossomática. Tinha uma visão holística do ser humano.
Para ela, era necessária a união entre filosofia e medicina, para a promoção da
sanidade completa das pessoas, envolvendo corpo, alma e mente. Levantou a tese
de que influências externas à Terra afetavam a saúde humana (como os raios
cósmicos e raios ultravioleta e infravermelhos etc.etc.etc.). Oliva Sabuco
publicou sua tese em 1587, em sete alentados tratados, cujas idéias são atuais,
inclusive, nos dias de hoje.
A inglesa Mary Astell, que nasceu em 12 de novembro de 1666
e morreu em 11 de maio de 1731, unificou suas convicções filosóficas e religiosas
numa visão essencialmente feminista. Deu importante contribuição nas áreas
pedagógica e moral da sua época. Defendeu com coragem e vigor a igualdade de
oportunidades educacionais para homens e mulheres, sendo, não raro,
ridicularizada por isso. São dela os livros “A serious proposal to the ladies
for the advancement of their true and greater interests” e “By a lover of her
sex”. Passou para a história com o título de “a primeira feminista inglesa”.
A italiana Maria Gaetana Agnesi, que viveu entre 1718 e
1799, fez cair em ridículo a preconceituosa tese de que a matemática não é
assunto para mulheres. Alias, muito pelo contrário. Essa fundamental disciplina
deve muito ao raciocínio feminino. Desde a Grécia antiga, elas foram pioneiras
no que se refere a cálculos. Basta lembrar que Pitágoras teve, como grande
mestra, a genial Temistocléia. Maria Gaetana, além de inovadora na ciência dos
números, foi, também, lingüista e filósofa. Mas foi na matemática que se
consagrou como autora do primeiro livro que tratou, simultaneamente, do cálculo
diferencial e integral. Escreveu “Instituzioni Analitiche”, o mais profundo,
claro e exato compêndio de análise algébrica e infinitesimal, traduzido para o
inglês e o francês. Escreveu, em latim, o livro “Propositiones philosophicae”,
publicado em Milão em 1738.
Mary Wollstonecraft, que viveu entre 1739 e 1797, foi outra
famosa feminista inglesa. O curioso é que escreveu seu primeiro livro, “Pensamentos
sobre a educação das filhas”, apenas em 1787, dez anos antes da sua morte.
Nele, percebe-se nítida influência dos filósofos John Locke e Jean-Jacques
Rousseau. Em 1790, publicou “Reivindicação dos Direitos dos Homens” e, dois
anos depois, em 1792, sua obra mais importante, o tratado político-filosófico “A
Reivindicação dos Direitos das Mulheres”.
A francesa Marie Gouze, que escreveu seus livros com o
pseudônimo de Olympe de Gouges, foi mulher das mais ativas e corajosas, que
pagou duro preço por sua ousadia. Foi presa, por exemplo, por questionar a
escravidão dos negros, que era tida como coisa “muito normal” na sua época.
Essa intelectual, que viveu entre 1748 e 1793, foi uma escritora e
revolucionária prolífica. De sua obra restaram mais de quatro mil páginas entre
peças de teatro, panfletos, novelas, sátiras, utopias e... Filosofia. Assumiu
posições firmes em relação aos direitos da mulher, defendendo o divórcio, a
proteção à maternidade, o acesso livre à educação e a liberdade religiosa.
Olympe de Gouges, ou Marie Gouza, foi mártir na luta pelos direitos dos
humilhados e ofendidos, pagando sua ousadia com a condenação à morte, na
guilhotina, em 1793. Isso a despeito do
tal Renascimento.
Finalmente, a última filósofa da Idade Moderna, das
relacionadas pela Wikipédia, é a inglesa Harriet Taylor, que viveu ente 1807 e
1858. Como a maior parte das suas antecessoras, defendeu, também, o direito das
mulheres. Manteve estreita relação com o filósofo John Stuart Mill, em parceria
do qual produziu sua obra mais conhecida, “The subjection of womem”. Não é
incrível que, com as profundas mudanças promovidas em todos os campos de
atividade pelo Renascimento, a situação das mulheres tenha permanecido a mesma
por milênios, sem a menor justificativa para tal, a não ser um irremovível
preconceito de gênero?! O que você acha, esclarecido leitor?
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Dá para ter orgulho dessas loucas, porque a loucura tinha de existir para serem elas o que foram e fazerem o que fizeram.
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