Ilha
* Por
Flora Figueiredo
Não sei por que tanto mar em minha vida.
Ele que fala sempre em despedida,
que canta distância e solidão.
Por vezes parece até que ele vaza,
derruba minha porta,
invade minha casa,
ocupa minha cama,
lava meu chão.
Ele é que faz do leva-e-traz de cada onda
o mensageiro dos afetos separados
e que conserva segredos bem guardados
lá no horizonte, onde a terra se arredonda.
São tantos anos de tamanha intimidade,
que carrego a forte sensação
de que o mar alterou-me a identidade:
metade água, metade coração.
Do livro “Chão de Vento”.
*
Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a
noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto”
e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia.
Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade
e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro
de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são
como um mergulho profundo nas águas da vida.
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