Há uma substância primordial?
O capítulo 4 do livro de Jostein Gaarder, “O mundo de
Sofia”, é dos que requerem maior atenção dos leitores (não que os demais não
requeiram). Trata do surgimento dos primeiros filósofos “cujas idéias chegaram
até nós”. Essa observação, que coloquei entre aspas, é muito importante. Por
que? Porque o fato de enfatizar a atuação desses pensadores especificamente não
quer dizer que não houve outros, muito anteriores a eles, longe disso. Todavia,
se eles existiram (e presumo que sim), nem mesmo seus nomes são conhecidos
neste século XXI, quanto mais a época em que viveram, o contexto em que atuaram
e sua contribuição para a construção e evolução do pensamento racional da
humanidade, pelo menos para nós, do Ocidente.
Esse capítulo 4 foi intitulado por Gaarder de “Os filósofos
da natureza”. Traz, como subtítulo, o que Sofia já havia concluído das lições
preliminares que recebeu de seu mentor, ao especular sobre a origem do
universo. Ou seja, que “nada pode surgir do nada”. A narrativa começa com a
adolescente, às vésperas de completar quinze anos de idade, recebendo outra
estranha e misteriosa correspondência, até então anônima. No envelope, deixado
em sua caixa de correio, havia mais uma ficha, com indagações que podiam ser interpretadas
como filosóficas, além de outro cartão postal enviado do Líbano por certo major
das forças de paz da ONU, chamado Albert Knag. Era endereçado não propriamente
a ela (posto que aos seus cuidados), mas a uma certa Hilde Moller Knag. O
curioso é que Sofia Amudsen não tinha a menor noção de quem tal garota se
tratava. Ficou sabendo que tinha exatamente sua idade e que, como ela, faria,
também, aniversário no dia seguinte.
Nessa nova ficha, em forma de bilhete, que a garota recebeu,
havia apenas três perguntas, cujas tentativas de resposta ensejariam a lição do
dia dessa pitoresca aula de Filosofia, que eram as seguintes:
“Existiria alguma substância primordial, da qual são feitas
todas as outras?”
“A água pode se transformar em vinho?”
“Como da terra e da água pode surgir uma rã viva?”
Jostein Gaarder relata, assim, a reação da adolescente
diante dessas questões: “Sofia achou as perguntas meio amalucadas, mas elas
continuaram a reverberar em sua cabeça a noite inteira. E também na manhã
seguinte, na escola, ela se pegou pensando sobre cada uma delas.
Haveria, mesmo, uma ‘substância primordial’ da qual todas as
outras eram feitas? Mas se houvesse mesmo essa ‘substância’ presente em todas
as coisas do mundo, como é que ela poderia, de repente, se transformar numa
margarida ou então num elefante?
O mesmo raciocínio valeria para a pergunta sobre a água e o
vinho. Sofia conhecia a parábola em que Jesus transformou água em vinho, mas
jamais a levara ao pé da letra. Se Jesus realmente transformou água em vinho,
isso foi obra de um milagre e portanto não era o caso ali. Sofia sabia muito
bem que vinho contém água, a qual está presente também em quase todas as
substâncias da natureza. Mas apesar de um pepino, por exemplo, ser constituído
de noventa e cinco por cento de água, ele é algo diferente. Um pepino é um pepino e não apenas água.
E ainda havia a pergunta sobre a rã. Aquele professor de
filosofia devia gostar muito de rãs. Sofia poderia até ser convencida de que
uma rã é feita de água e areia, mas nesse caso a terra não poderia ser
constituída de uma única substância. Se a terra fosse de diferentes
substâncias, claro que era possível imaginar que água e areia juntas poderiam
se transformar numa rã. É bom notar que essa mistura de água e areia teria antes
que evoluir para a forma de ovos e depois se transformar em girinos. Porque uma
rã mesmo não iria brotar de um vasinho da cozinha, por mais que se insistisse
em regá-lo.
Quando voltou da escola naquela tarde, Sofia encontrou na
caixa do correio um grosso envelope para ela. Como fez nos outros dias, foi
direto para o esconderijo”.
O leitor perspicaz, mesmo sem ler o livro, já adivinhou o
conteúdo dessa nova correspondência. O misterioso e até então anônimo mentor
filosófico de Sofia respondeu-lhe, com as respectivas justificativas, as
“amalucadas” perguntas da véspera. Você seria capaz de respondê-las,
minimamente com lógica, antes que eu trate delas na sequência? Está aí
excelente exercício para fortalecer, não seus músculos, como é moda atualmente,
mas algo muito mais nobre importante do que eles: sua massa cinzenta. Este
capítulo do livro de Jostein Gaarder é tão essencial, que tratarei dele em
novos comentários, enfatizando, naturalmente, o surgimento da filosofia, como a
conhecemos, na remota Grécia Clássica, há pelo menos três milênios.
Boa leitura.
O Editor.
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Meus pobres neurônios não têm essa capacidade.
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