Prognósticos e apostas em torno do
Nobel de Literatura
As várias listas de favoritos à conquista do Prêmio Nobel de
Literatura, divulgadas, anualmente, pela imprensa internacional, antes de
anúncio oficial do premiado, não passam de especulações. São meros palpites, ou
seja, são o que dizemos, em linguagem popular, simples “chutes”. Por isso,
muito raramente, algum jornal, revista, site ou blog da internet acertam o nome
do premiado. É como prever, com acerto, os números da mega-sena ou da loteria
federal. Baseado no que faço essa afirmação? Na lógica! Lembro, como informei
em texto anterior, que todos os anos, em setembro, a Academia Sueca envia
centenas de cartas a pessoas e instituições qualificadas para indicarem
candidatos ao prêmio do ano seguinte.
Entre os que podem postular candidaturas estão os membros da
própria entidade responsável por premiar os que seus jurados entendem como o
mais qualificado dos indicados, os integrantes de outras organizações
similares, além de professores de literatura e linguística de universidades,
antigos vencedores e presidentes de sociedades de autores em seus países. Até
aí, tudo bem. Ocorre que em maio do ano da premiação, a Academia Sueca faz rigorosa
triagem dos postulantes e reduz seu número original – geralmente de em torno de
duas centenas – para apenas CINCO. E o nome de cada componente desse
seletíssimo quinteto é mantido no mais estrito sigilo, como se fosse máximo
segredo de Estado.
A identidade das quase duas centenas de indicados até maio
do ano da escolha “podem” (embora não devam) ser conhecida pela imprensa. Os
próprios indicadores, até com o objetivo de pressionar os jurados, volta e meia
divulgam quem são. Recentemente, o secretário da Academia Sueca, Peter Englund,
divulgou, em seu blog, comunicado condenando essa divulgação. Enfatizou que ela
contraria as regras da entidade, que exigem sigilo absoluto em todas as fases
do lançamento de candidaturas. A mim ficou claro que muitos (a totalidade?
Talvez!) violam esse regulamento. Englund enfatizou em sua nota: "Na
verdade, temos a possibilidade de anular a indicação em questão, e não é
impossível que ocorra com alguma no futuro". Entendo que deveria já ter
ocorrido no passado, ou então no presente, porquanto regra é regra.
Qualquer candidato que a violar, caso seja, afinal,
premiado, o estará sendo de maneira irregular, fraudulenta e, portanto, ilícita.
É mister não se esquecer que o Prêmio Nobel não se restringe, somente, ao
prestígio que confere, embora seja extraordinário. Atribui, também, ao escolhido,
alguns milhões de dólares em sua conta bancária. E quando entra dinheiro na
parada... os preteridos têm todos os motivos, de fato e de direito, para
questionar a premiação (caso, óbvio, tenham cumprido rigidamente todas as
regras da Academia Sueca). Apesar dessa violação, duvido que alguém conheça de
antemão pelo menos um dos CINCO selecionados finais. Daí os supostos “favoritos”,
tão apregoados pela imprensa, não serem favoritos coisíssima nenhuma!
E as apostas sobre quem ganhará o Nobel de Literatura, que
nesta época do ano se multiplicam nas várias casas especializadas em “jogos de
azar”, se baseiam no que? Caso eu queira apostar, na esperança de ganhar algum
dinheirinho extra mesmo que não se trate de nenhuma fortuna, como saberei se
meu preferido é sequer candidato? Se não for, óbvio, não terei a mínima chance
de êxito. Estarei, literalmente, jogando dinheiro fora. Suponho
que a “base” dos apostadores seja a divulgação (que, reitero, é irregular) das
candidaturas registradas até maio por parte das pessoas e entidades que as
patrocinaram. Não saberão, contudo, quais são os CINCO finalistas, os que
realmente permanecem na disputa. Quem lucra com isso, claro, são as casas de
apostas, que não precisam pagar nada para ninguém, pelo fato de ninguém ter
acertado o ganhador (caso ninguém acerte mesmo, claro).
Como em todo jogo de azar, no entanto, às vezes, alguém
acerta. Se o nome em que apostou for o dos que classificamos como “zebra”, poderá,
até mesmo, ganhar fortuna. Caso contrário... Quem apostou, por exemplo, na canadense
Alice Munro, em 2013, ganhou alguma coisa, mas não muito. Afinal, a escritora
foi a segunda mais apostada. Quem optou por ela, portanto, ganhou pouco mais do
que investiu ou, talvez, tenha recuperado, apenas, o investimento. Já em 2014,
quem depositou suas esperanças em Patrick
Modiano (talvez algum francês tenha apostado nesse escritor) certamente engordou
bastante sua conta bancária. Nas casas de apostas, ele era a “zebra das zebras”.
A imprensa não divulgou se houve ganhador e, em caso positivo, quem foi. Mas se
alguém acertou, mesmo que nunca tenha lido nenhum reles livro em toda sua vida,
jamais esquecerá o nome desse escritor cuja matéria-prima é a memória e as
tentativas de resgatá-la e/ou de conservá-la. Melhor seria se esse sujeito,
além do dinheiro que ganhou (caso tenha ganhado), “devorasse” com sofreguidão a
magnífica obra do ganhador do Nobel de Literatura de 2014. Mas...
Boa leitura.
O Editor.
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