Há
mal em legislar em causa própria?
* Por
Mara Narciso
Depois que cuidei do
meu pai em cadeira-de-rodas por cinco anos, ficou difícil ver alguém sendo
empurrado por um cuidador. Tudo volta a minha mente, e todas as dores que
passamos juntos me fazem sofrer. Desculpem, mas eu choro.
É tão fácil ser
indiferente ao sofrimento do outro. Hoje eu tive a oportunidade de ver um idoso
sendo maltratado por uma cuidadora. Foi na TV e ambos eram atores. O objetivo
era medir o grau de indignação das pessoas que passavam e viam a cena. Quando a
atriz falava com voz firme, mas de forma socialmente aceitável, que forçaria o
idoso a beber água goela abaixo, ninguém se tocou. Apenas quando ela falou mais
alto, fingindo que tomaria uma atitude mais forte, as pessoas olhavam e
paravam. Várias pessoas choraram, e boa parte falou duro com ela, ameaçando
chamar a polícia. Apenas uma mulher de Moçambique contemporizou, e, falando
baixo, tentou fazê-la mudar o comportamento.
Era apenas uma
encenação, mas alertou a audiência de que agora mesmo estão acontecendo
maus-tratos semelhantes. Dentro de casa, velhos são torturados, humilhados, e
ao mesmo tempo, quem os maltrata usufrui as suas aposentadorias. Os filhos se
exasperam com a lentidão e as dificuldades dos idosos. Perdem a paciência,
gritam, e até os agridem fisicamente, esquecendo quem está a sua frente.
Quanto mais avançado é
um país, mais seus idosos são reverenciados, porque trazem dentro de si o
conhecimento, a experiência e a tradição. Construíram o mundo que aí está, e a
juventude sustenta-se sobre o que antes foi criado. Aqui no país do futuro, boa
parte do saber está na juventude, que domina a tecnologia, e não mais na
maturidade. Também por isso desprezam quem não sabe o que eles sabem e não faz
o que eles fazem. Isso torna os jovens senhores de si, ou até mais do que isso,
fazendo-os lidar com as pessoas mais velhas de forma preconceituosa,
tratando-as com pouco caso, debochando das suas falhas.
Assunto chato. Quem
quer ler sobre isso? Um jovem não vai ler. Mas é coisa que está à frente de
todos. Hoje fui atravessar uma rua de bairro, que dá acesso da Unimontes ao
centro, tendo velocidade de avenida. Estacionei, desci, e fiquei esperando meu
momento de atravessar. Não há faixa e nem sinal, mas, com paciência, logo
chegaria a minha vez. Um senhor, de mais de 80 anos, próximo a mim, decidiu
atravessar calmamente, já que os carros se distanciaram um pouquinho. Fiquei
olhando-o cortar a rua. Eu não fui, e observei o motorista do carro que chegou
e teve de parar. Balançando a cabeça de forma a sugerir que o senhor era um
pobre coitado, ele, impaciente, esperou o homem atravessar, mas deixava claro
que o tempo dele era urgente.
Quem chega aos 60 anos
no Brasil, é por lei, alguém que não pode esperar e nem andar um pouco mais,
precisa estacionar mais perto do local de destino, necessita ser vacinado
contra gripe, tem preferência em filas e paga meia-entrada em eventos (ainda
que a lei sancionada hoje reduza a 40% o meio ingresso). Para ter esse direito,
aqui em Montes Claros é preciso ir à MCTrans levando RG e comprovante de
residência. Receberá a carteira e poderá usufruir desses direitos.
Num país que tem
preconceito contra quem completou seis décadas, não há interesse em alardear
que se chegou a essa etapa. Parece ser melhor evitar tal rótulo, mas há
controvérsias. Se por um lado a pessoa procura mostrar jovialidade, por outro
quer usar as regalias que lhe são facultadas. Parece estranho, mas é assim.
Já li um dia que
“pintar os cabelos não é nada; atitude de verdade é não pintá-los”. Concordo.
Preconceituosamente, e em parte por imposição social (nem sei até que ponto é
uma escolha minha), vejo a mulher de cabelos brancos como uma pessoa de
aparência frágil, que, em última análise parece que “entregou os pontos”. Por sua vez, quem optou por não pintar os
cabelos a cada 15 a 20 dias, pois eles crescem na razão de um cm por mês, sendo
o crescimento maior no verão, sentem-se libertados pela coragem, e entendem que
seguir a determinação social é uma escravidão.
Finalizando, escrevo o
óbvio, direcionado ao rapaz ao volante, que, de biquinho, e sacudindo a cabeça
desaprovou o passo lento do senhor: mantenha a sua pressa e antecipe a sua
morte, porque senão ficará velho, atravessará a rua de forma arrastada, e
encontrará um jovem que desaprovará a sua ousadia. Ou não?
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Arrasou no final, Mara. Muito bom.
ResponderExcluirHá quem prefira não envelhecer nunca. Nesses casos sugiro que faça como James Dean e Marilyn Monroe: morram jovens e tenham a seu favor a eterna juventude. Obrigada, Marcelo.
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