Foto:
Clóvis Campêlo
A lua e eu
* Por
Clóvis Campêlo
Conta o poeta Marcus
Accioly que uma noite, parou embaixo de uma árvore desfolhada e ao olhar para
cima teve uma surpresa. Na noite estrelada, a árvore parecia acesa pelas
estrelas que brilhavam no firmamento. Inspirado pela bela visão, fez um poema
sobre o assunto. Ao fazer a fotografia acima, essa história me veio à
lembrança.
Accioly foi meu
professor no curso de letras da Universidade Federal de Pernambuco, e embora o
assunto sugira um poema de intenso romantismo, não acredito que tenha sido o
caso, já que o bardo se considerava e é considerado como um “poeta épico”, se
levarmos em conta aquela tradicional divisão entre épicos e românticos.
Voltando à fotografia,
embora ela não nos mostre estrelas, traz uma lua minguante no céu azul do final
da tarde, entre os galhos de uma árvore igualmente morta. Uma meia lua inteira
e que ainda não se mostrava como o sorriso do gato de Alice no País das
Maravilhas.
Tenho com a lua uma
instável relação de admiração e medo. Quando menino, escutava abismado as
conversas dos adultos sobre a influência lunar nas marés e sobre o seu poder
sobre os desequilibrados mental, que em noite de lua cheia, perdiam-se na
intranquilidade trazida pelo seu campo magnético. Tinha medo de enlouquecer e
me transformar em mais um “súdito da lua”.
Mas também tive com
ela a coincidência de vê-la conquistada pelos homens da Nasa, na mesma noite em
que eu conquistava a garota mais interessante do bairro. Se a relação lunar com
seus conquistadores não foi das mais agitadas e angustiantes, o mesmo eu não
poderia dizer do meu amor incompreendido.
Para os astronautas
americanos, talvez a lua fosse apenas o começo de uma grande escalada rumo a
destinos mais distantes e difíceis. Para mim, no entanto, aquela era uma
conquista intensamente desejada, e a necessidade de mantê-la a qualquer custo,
trazia-me angústias e ansiedades.
Assim como a lua,
supunha eu que havia uma face oculta nela, na minha amada, que eu, na minha
insegurança juvenil, não conseguia decifrar. Isso me causava transtornos
maiores do que os superados por Amstrong e companheiros para descer com o
módulo lunar na superfície do nosso satélite. Como era difícil aterrissar
naquele coração! A tarefa épica da conquista da lua, parecia mínima diante da
minha façanha romântica.
Mas, como diz o poeta,
tudo passou como tudo tem que passar. E hoje, vejo-me aqui a tentar justificar
os pixels da minha máquina fotográfica digital com um texto qualquer que fale
da lua e das suas impressões sobre mim.
E, se a conquista da
lua pelos intrépidos rapazes americanos continua a ser de grande importância
para a humanidade, como querem me fazer acreditar até hoje, aquele grande amor
que me dizimou as forças, transformou-se em quase nada, numa lembrança
longínqua e até mesmo inadequada. Como diz a massa ignara, nada como um dia
atrás do outro e uma noite (de lua cheia) no meio para atrapalhar.
Recife, setembro 2015
* Poeta, jornalista e radialista,
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