Estações
Musicais na Unimontes – Noite Espanhola
* Por
Mara Narciso
A magnitude daquela
Noite Espanhola nem de longe poderá ser definida em palavras. Não por minhas
palavras, frágeis, imprecisas, titubeantes, fazendo oposição à segurança e
exatidão dos artistas em cena. Para entrar no Espaço OAB e ver esse concerto,
tire os sapatos, concentre-se e tenha a certeza de encontrar a felicidade. Diante
do que acontece no palco, os sons, o figurino, a imagem, o movimento,
apresentação que todo brasileiro deveria ver pelo menos uma vez na vida, é
preciso segurar a emoção. A platéia de 650 pessoas, entre muda e extasiada
concentrava-se em cada nota musical, seja dos instrumentos, seja das vozes,
atenta a cada gesto dos que tocavam, cantavam ou do casal que dançava.
No dia 17 de setembro
aconteceu o Concerto Noite Espanhola, protagonizado por Talitha Peres ao piano
e Elisa Pires na dança. A mestra pianista Talitha Peres, idealizadora e
diretora artística e musical, foi exata como em apresentações anteriores.
Dedicou o concerto a Pedro Arnaldo Peres e Marília Peres, ambos falecidos, e
que, certamente estariam ali para prestigiá-los na primeira fila. Casa lotada e
pequena para todos que precisavam ver, o programa constou de formidável elenco
musical, instrumental, vocal, baile, iluminação e coreografia.
Foram doze momentos de
deleite. Para alguém como eu, que creio no poder da arte para domar e civilizar
pessoas, procurei não perder os detalhes. Aquilo que se deu em cena hipnotizou
e transformou o público. Poucos filmavam ou tiravam fotos esparsas. Nenhum
celular tocou. Estamos nos educando. O espanhol Diego Zarcon cantou, bailou e coreografou
divinamente. Ganhou seu espaço e conquistou o público numa cena em que dois
ícones montes-clarenses estavam no palco. Fácil não é, mas o dançarino fez um
papel bonito arrancando exclamações da platéia com a virilidade e força da sua
dança.
Juliana Peres parece
ter descido do céu para o palco. Sem escalas. Bonita num belo vestido, a
soprano não parecia acompanhada pelo piano da sua mãe, mas de harpas
celestiais, pela forma em que se deu a empatia com o público. É talento
inteiro. A música atinge o cérebro e modifica quem ouve. O som daquela hora
produziu um efeito de quase levitação. Coisa de anjos. Atingir esse estado de
prazer com arte dispensa qualquer droga, lícita ou ilícita. Naturalmente o
sorriso brota. Estando ao alcance de tal qualidade de música, quem precisa de
drogas?
Daniel Novais teve seu
momento solo ao violão e Fábio Nin empunhou com charme a sua guitarra flamenca.
As vozes de Patrícia Peres, Daniel Marcelo, Simone Santana, Juliana Peres,
Daniele Dourado e Thalita Gomes, em solo ou em conjunto, ecoaram pelo
auditório. Mas quem ocupou o centro do palco de forma brilhante foi a talentosa
e resistente bailarina Elisa Pires. Bonita, habilidosa, meiga, atenta à
técnica, mostrou uma agilidade que impressiona. Trocou de figurino diversas
vezes, e a cada troca, mais crescia sobre o palco, que usava de ponta a ponta,
mostrando veia dramática, força e rapidez numa coreografia impetuosa, que
calava a platéia, levando a empolgação a cada final.
Elisa Pires tem estilo
para dançar e coreografar. Pele alva, destacada pelos refletores, corpo fino de
puro equilíbrio, graciosa em cores vivas e muitos babados, cabelos num coque,
sapateava em velocidade de vertigem. Matraqueando com os dedos, cujo som era
ouvido em todo o território, empunhando castanholas num movimento de ritmo e
delicadeza, batendo os pés no chão com invejável graça, gritando olé, batendo
palmas ritmadas, girando o corpo, dançando com o xale, com o leque, ou com
Diego Zarcon, Elisa Pires é rainha, mesmo analisada sob vários parâmetros.
A crescente vibração
dos artistas foi acontecendo música a música, dança a dança, passo a passo,
traje a traje, e na apresentação final, Elisa Pires entrou de cabelos soltos,
como se aquela nova aparência fosse o anteclímax. Pela visão das pessoas
aplaudindo de pé, cheias de energia, podia-se medir a transformação acontecida.
A euforia da platéia dá a dimensão do que vocês fizeram aqui, disse à Elisa
Pires, quando fui levar-lhe meu abraço. Emocionada, ela falou que o público
montes-clarense era carinhoso. Diego Zarcon afirmou que se sentia gratificado
pela reação do povo de Montes Claros, que fez toda a diferença. Então, as
Estações Musicais respeitam você e sua sensibilidade. E que continuem
reaparecendo e alterando nossos sentimento e comportamento, para deixarmos de
lado o nosso instinto de feras. É festa, é festa! Precisamos disso para ser
bons.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Palmas com castanholas, Mara.
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