Uma
velha amizade internacional – Primeiras relações
* Por
Hélio Lobo
Precederam a quaisquer
outras as relações diplomáticas do Brasil com os Estados Unidos da América.
É sabido que, acossado
pela invasão napoleônica, teve que retirar-se D. João VI de Portugal, com
destino ao Brasil.
Sua permanência no Rio
de Janeiro foi a carta de alforria da colônia. Provado nos hábitos do governo
autônomo, não volveria o Reino à sujeição primitiva.
E a prova é que, tendo
permanecido no Brasil como Regente, logo que regressou seu pai à Europa,
publicou o príncipe D. Pedro, futuro Imperador do novo Império, um Manifesto
aos Governos e Nações Amigas, no qual escreveu: "Estarei pronto a receber
os seus ministros e agentes diplomáticos e a enviar-lhes os meus..." (6 de
agosto de 1822).
A 12 de agosto do
mesmo ano de 1822 foi assinado o decreto nomeando Encarregado de Negócios do
Brasil nos Estados Unidos da América a Luís Moutinho Lima Alves e Silva,
oficial da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros. Era ministro da
pasta José Bonifácio de Andrada e Silva.
Foi a nossa primeira
nomeação diplomática. Dois decretos posteriores, do mesmo dia, designaram o
marechal-de-campo, Felisberto Caldeira Brant Pontes, depois visconde de
Barbacena, e Manuel Rodrigues Gameiro Pessoa, mais tarde visconde de Itabaiana,
ministros do Brasil em Londres e Paris. Anterior a essas nomeações só houve a
designação, a 24 de maio de 1822, de M. A. Correia da Câmara para cônsul em
Buenos Aires.
Nossa representação na
América do Norte criava-se assim antes de qualquer outra, e antecipou-se de
quase um mês à declaração da Independência.
Esta realizou-se a 7
de setembro de 1822. A proclamação do Império foi a 12 de outubro seguinte.
Era sabido o cuidado
que aos homens do Norte inspirava a independência brasileira. Em 1787, em
França, Thomaz Jefferson discorrera dela com estudantes brasileiros, à frente
dos quais se achava José Joaquim da Maia.
A 15 de janeiro de
1822 foi nomeado cônsul do Império nos Estados Unidos da América, Antônio
Gonçalves da Cruz.
O Encarregado de
Negócios, Luís Moitinho, não pôde, porém, assumir seu posto, visto achar-se
retido em serviços extraordinários na Secretaria dos Negócios Estrangeiros. Por
decreto de 21 de janeiro de 1824 foi nomeado para substituí-lo José Silvestre
Rebello, de experiência e luzes, e assim conceituado por Porto-Alegre em nosso
Instituto Histórico: "Como enviado aos Estados Unidos, ele desempenhou a
sua missão de fazer reconhecer a independência de uma maneira rápida e
satisfatória; como homem de letras, possuía raros conhecimentos de história e
geografia; como membro do Instituto, era uma coluna firme, trabalhador, zeloso
e modesto; além destas especialidades tinha muitas idéias de arqueologia,
numismática e estética..." (Elogio dos sócios do Instituto pelo orador
Porto-Alegre em 1844).
Silvestre Rebello
chegou a 28 de março de 1824 a Baltimore, e a 3 de abril seguinte a Washington.
Presidia o país James
Monroe. Suas declarações de anticolonização e anticonquista, feitas em mensagem
de 2 de dezembro de 1823, tinham causado sensação. Era secretário de Estado
John Quincy Adams.
Escreveu logo a Adams
pedindo que fosse marcado dia para apresentação de suas credenciais. Começaram
as conferências entre ambos. Deixou o Encarregado de Negócios do Brasil nas
mãos do secretário de Estado uma memória justificativa, sob este título:
"Succint and true exposition of the facts that lead the Prince, now
Emperor, and Brazilian People, to declare Brazil a free and independent nation
(20 de abril de 1824).
Poucos dias depois, a
26 de maio, era Silvestre Rebello apresentado a James Monroe e acreditado no
caráter de Encarregado de Negócios do Império do Brasil. Frisou a ocorrência o
Daily National Intelligence, de Washington, n. 3.354, do dia imediato, 25. A 26
escrevia Silvestre Rebello para o Rio de Janeiro e concluía: "Foi, pois, o
Império do Brasil reconhecido por este Governo no dia 59º depois que
desembarquei em Baltimore... Dou a V. Exa. meus parabéns."
Eduardo Prado, na sua
Ilusão americana, de que se falará adiante, consignou: "Por ocasião da
independência do Brasil não recebemos prova alguma de boa vontade dos
americanos, e só depois de outros países reconhecerem a emancipação do Brasil
foi que os Estados Unidos reconheceram a nossa independência".
Bem se está a apurar
como a informação é menos verdadeira.
O autor clássico da
nossa lei internacional deixou dito (Pereira Pinto, Apontamentos para o direito
internacional, Rio de Janeiro, 1865, II, pág. 386): "Foi a União Americana
a primeira potência que reconheceu a independência do Brasil. Enquanto a
Grã-Bretanha, impelida de um lado a favor de nossa emancipação pelas suas
exigências comerciais, pelo sistema liberal de governo e pelas suas tenazes
aspirações a abolir o tráfego de escravos, oscilava, de outro lado, nesse empenho
pelas diferenças que era obrigada a guardar com a sua antiga e sempre fiel
aliada, a nação portuguesa; enquanto a Áustria, ligada por vínculos bem
estreitos ao fundador do Império, era ainda mais ligada aos compromissos da
Santa Aliança que encarava com olhos vesgos a independência dos países
americanos; os Estados Unidos, conseqüentes com a esclarecida política que
haviam adotado em referência a todos os povos que, na América, separando-se da
metrópole, se tinham constituído regularmente, estende-nos mão fraternal e
convida-nos a tomar assento no grande congresso das nações do Globo.
Consagremos, pois, neste momento, um voto de gratidão ao povo dessa, a mais
poderosa nação do Novo Mundo."
[...]
(Cousas diplomáticas,
1918.)
*
Diplomata, ensaísta, biógrafo e historiador, membro da Academia Brasileira de
Letras.
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