A complexa criação de personagens
A criação de personagens é uma das
tarefas essenciais, posto que das mais complexas, do escritor que lida com
ficção. É até desnecessário enfatizar a importância dessa atividade, por ser
rigorosamente óbvia. Considero-a primordial nesse tipo de literatura. Requer, todavia, equilíbrio e ponderação do
ficcionista. Tanto pode valorizar um enredo fraco, tornando-o magnífico, como
arruinar por completo histórias potencialmente excepcionais, mas que, dado o
exagero nos seus protagonistas, se tornar fantasiosa em demasia, a tal ponto de
ás vezes beirar o ridículo, se não descambar literalmente para ele, dada sua inverossimilhança.
Personagens para serem parecidos com
pessoas reais, “de carne e osso”, dessas com as quais convivemos, ou com que
cruzamos em nosso cotidiano, não podem (salvo raríssimas exceções) descambar
para extremos. Ou seja, não convencerão nenhum leitor se forem tão bondosas e
corretas a ponto de causarem inveja aos santos dos santos e também não se forem
poços de maldade, do tipo das quais não daria para esperar ínfima, reles
atitude ou pensamento corretos, éticos, construtivos e generosos. O mesmo vale no que diz respeito
à aparência, à riqueza (ou miserabilidade) e vai por aí afora. Equilíbrio é
essencial.
Conheço livros (e tenho alguns deles em
minha biblioteca) que tinham tudo para serem marcantes, mas... foram arruinados
por falta de cuidado, pela tendência ao exagero, pela ausência de moderação dos
autores, entre outras tantas ações desastradas e omissões inconcebíveis, na
criação de personagens. Duvido que fizeram revisão do que escreveram. E não me
refiro, apenas, àquela meramente vocabular, obrigatória para qualquer redator
que se preze, que tem o dever de lidar com absoluta correção com a “ferramenta”
da sua atividade. Refiro-me à que é a essencial, posto que nem sempre lembrada.
E ela consiste em cortar o excedente (a ação mais comum e necessária para
enxugar o texto e dar-lhe coerência e naturalidade), refazer parágrafos (e às
vezes capítulos inteiros) e vai por aí afora, Enfim, “arredondar” o livro antes
de dá-lo por terminado. Por não terem
feito essa revisão (que aliás não pode ser só uma, mas várias, talvez dezenas),
não “emplacaram”. Não citarei nenhum desses livros “estragados” e muito menos
seus autores, já que me recuso a linchar quem sonhou produzir uma obra-prima e
só conseguiu escrever ridícula caricatura literária. Mas que eles existem, não
tenham dúvidas.
Estão neste caso os que se fiam,
apenas, na tal da “inspiração”, quando Literatura depende muito mais (não digo
que exclusivamente, mas quase) de “transpiração”. Ou seja, de trabalho árduo,
de estudo constante e aplicado, de meticulosa pesquisa, de rigorosa observação
e, sobretudo, de aguçada e implacável autocrítica. Para prevenir o fracasso (e
às vezes até o ridículo) o escritor precisa antecipar-se aos críticos e,
sobretudo, aos mais exigentes leitores. Tem que buscar detectar o que
provavelmente soará a incoerente ou duvidoso no que escreveu e não teimar com a
própria intuição. Ou seja, suprimir o que pode não cair bem ou causar dúvida
nos potenciais consumidores do produto que criou. Mesmo assim, não terá certeza
alguma de que seu livro irá agradar e se tornar sucesso de vendas (nunca se
tem). Imagine se agir com descuido, arrogância ou teimosia!
Cada escritor tem método próprio para
criar personagens. Alguns (não sei se a maioria, mas presumo que sim), criam-nos
ao sabor dos enredos. Outros tantos, antes mesmo de pensarem uma história para
narrar, inventam os protagonistas que a irão “viver”. Nesses casos, as
peripécias e circunstâncias que urdirão na sequência vão girar em torno desses
heróis e vilões. Minha maneira é mais ou menos esta, só que mais trabalhosa. Um
dia, talvez, ainda trate deste meu método (ou talvez não).
Criar personagens maldosos, no meu modo
de entender, não implica em grandes complicações. É só observar atentamente
alguns tipos e descrevê-los como os enxergamos, sem necessidade alguma de
exageros. Há, claro, os que erram a mão, não corrigem esses erros na revisão
(ou nem a fazem) e se dão mal. O mais complicado é criar heróis que não sejam,
digamos, “tão heróicos” assim. Que sejam humanos e, portanto, falíveis, com
erros e contradições que todos temos. É especialmente nesse ponto, conforme tenho
observado, que muitos falham. Aliás, o erro é algo comum a bons e maus. É a
isso que devemos estar atentos aos criarmos nossos personagens.
Paulo Setúbal afirma no
"Confiteor": "O homem, enquanto não enfreia os seus pendores
inatos, enquanto é vaidoso, é soberbo, é vingativo, é iroso, é dominador, é
odiento, é carnal; o homem, enquanto está apenas voltado para as coisas
terrenas, enquanto ama a glória vã, ama o louvor, ama a riqueza, ama o poder,
ama as honrarias; o homem assim...o homem que não tem os olhos virados para os
esplendores espirituais, esse homem é ainda o `homem velho', o das cavernas, o
que não se transformou, o que não se comoveu ante a palavra avassaladora do
Cristo, o que não sentiu a beleza imortal do sermão da montanha, o que não foi tocado
pelo anseio da perfeição. Até porque, como constatou o rei Salomão na velhice,
após conhecer o auge da riqueza, da glória e do poder: ‘Vaidade, vaidade...
Tudo no mundo é vaidade...’ Todos somos um pouco assim, variando, apenas, na intensidade.
Só não erra nunca quem não faz nada e
passa a vida como parasita, explorando o esforço de quem tenta melhorar o
mundo, sem contribuir em nada para o bem-estar próprio e da comunidade. A vida
não comporta expectadores, mas requer agentes, tanto para praticar os atos mais
simples, quanto para as obras mais complexas, que exigem preparo e esforço.
George Bernard Shaw escreveu, em uma de suas tantas peças teatrais: ”Uma vida
cometendo erros não é mais honrada, mas é mais útil do que uma vida gasta
fazendo nada”. Nada é mais condenável do que a preguiça e o comodismo. É
preferível errar uma, duas, dez, cem, mil vezes, do que nunca cometer erros,
por jamais tentar fazer o que quer que seja.
Por pior que um indivíduo seja, rufião,
assassino, ladrão, ou tenha o defeito que tiver, esse desajustado sabe o mal
que está praticando, embora tente se justificar diante de si e dos outros.
Quando tais pessoas são punidas, o que acontece com grande freqüência, afirmam
que foram injustiçadas. Culpam os pais, as más companhias, a sociedade etc.,
por sua estupidez. Mas no íntimo, no fundo da sua mente, sabem que são
sociopatas, quando não psicopatas. O desajustado está consciente do seu
desajuste. O que não tem é vontade, ou competência, ou ambos para se ajustar. É
um indivíduo que não cultivou a pequena consciência que tem e esta se atrofiou.
São aspectos como estes a que devemos
atentar, não só na criação de personagens, mas, sobretudo, em nossa vida, na
formação, ou na correção, da nossa personalidade. E ter em mente o que, há mais
de dois milênios, o poeta grego Teognis observou: “São os patifes que comandam,
os maus despojam os bons. Temo que o barco soçobre nas vagas”. Há diferença do
que ocorre hoje? Nenhuma! Apenas quantitativa. E assim, parodiando o título de
um célebre filme, “la nave va”. O mal, todavia, se multiplica, também, por
causa da omissão dos bons, que perdem essa condição ao se omitirem. O omisso é
um parasita e tem que ser considerado cúmplice de quem pratica o mal. Por
melhor que pareça, portanto, não pode ser um personagem “bom”. Se o criarmos
assim, não será verossímil. Portanto, soará falso ao leitor atento e arruinará
nosso enredo.
Observação: Texto escrito em 21 de outubro de 2014, republicado a pedidos.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Uma boa revisão é imprescindível para arrumar algum fio solto no enredo.
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