Vende-se ou aluga-se
* Por
Marcelo Sguassábia
Não vou negar: houve
tempo em que o dinheiro jorrava da minha conta, tinha fila de gerente de banco
na minha porta oferecendo linhas de crédito e aplicações mirabolantes. Parentes
até então desconhecidos apareciam para pedir dinheiro emprestado.
Do fundo do quintal do
Josias, onde tinha uma bancada velha, uma tela de silk e duas latas de tinta de
marca vagabunda, fui fazendo fortuna rápido.
Comecei vendendo as
placas e faixas de "Vende-se" e alugando as de "Aluga-se".
Depois a demanda se inverteu: passei a vender mais as de “Aluga-se” e a alugar
mais as de “Vende-se”. Coisas do mercado.
O negócio foi dando
certo e veio a diversificação, com a incorporação do modelo que durante quase
duas décadas foi o carro-chefe da empresa: a faixa "Passo o ponto".
Quanto mais empreendedores davam com os burros n'água, mais eu lavava a égua.
Me sentia um agiota, estava ficando rico com a falência alheia. A capacidade
instalada, na época com sete máquinas de última geração e quarenta
funcionários, não dava conta dos pedidos. Lembro que tive que programar quatro
turnos de produção, com gente trabalhando de madrugada. Pra se ter uma ideia,
uma única loja mudava de ramo e de dono umas quinze vezes por ano. E eu ganhava
de todo lado: primeiro com a faixinha do falido comerciante tentando se livrar
do mico, e depois com faixas e mais faixas das imobiliárias anunciando o
imóvel. Não raramente eram várias imobiliárias num imóvel só... era faixa que
não acabava mais para fazer, eu chegava a recusar encomenda.
De uma hora para a
outra, a situação começou a ficar economicamente muito mais complicada e passei
a trabalhar com consignação. O cliente só pagava a placa depois de alugar ou
vender o que tivesse para negociar. O formato teria tudo para ser um sucesso,
mas quase me quebrou completamente - já que ninguém alugava e ninguém vendia,
mas todos botavam as minhas placas e faixas nas portas dos seus comércios, sem
pagar um centavo por elas.
Hoje, a penúria chegou
a tal ponto que minhas vistosas e eficientes placas são humilhantemente
substituídas por uma pichação do proprietário no muro, feita com caiação rala
emprestada do vizinho... é triste, muito triste olhar esses amadores das letras
emporcalhando a cidade.
Aproveitei o último
pedaço de pano e um restinho de tinta no
fundo da estamparia e fiz a derradeira faixa de "Vende-se",
para colocar aqui na fachada do meu negócio. Pensei em escrever "Passo o
ponto", mas desisti. A frase era maior e a tinta não ia dar.
* Marcelo Sguassábia é redator
publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com
(Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com
(portfólio).
"Ascensão e queda de um paquera". Lembra-se desse filme? Não tem nada a ver, mas acaba tendo. Relembro para me preparar para o fim, após o apogeu.
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