Personagem que custou um processo ao
seu criador
O escritor nem sempre é compreendido pelas pessoas do seu
tempo, principalmente se é um inovador, quer no estilo de que se utiliza, quer,
e principalmente, na temática que aborda. Ora choca os acomodados, os que não
têm idéias novas, se recusa a tê-las e as temem, por preguiça mental, por se
recusarem a raciocinar. Ora esbarra na burrice de alguns poderosos, que vêem no
que escrevem aquilo que sequer foi dito ou mesmo insinuado e que consideram
ofensivo ou inadequado. Ora ofende a suscetibilidade dos “moralistas de plantão”,
normalmente corruptos e hipócritas, que assumem a postura de implacáveis
censores se o escritor abordar determinados assuntos que lhes desagradem,
considerados tabus, coisas que eles praticam longe dos olhares públicos, mas
que condenam de maneira acerba e feroz quando trazidas à tona e expostas
publicamente. E os motivos sucedem-se interminavelmente, embora nenhum deles se
sustente diante da mais elementar e fria análise.
O francês Gustave Flaubert – nascido em Rouen, em 12 de
dezembro de 1821 e que faleceu em Croisset, em 8 de maio de 1880 – foi uma das
vítimas dos que não aceitam opiniões contrárias ás suas. E não merecia, claro,
o tratamento que recebeu da burguesia (classe, aliás, a que pertencia). Foi um prosador magnífico, que deixou sua marca
nas letras do seu tempo, sobretudo pelas análises psicológicas profundas dos contemporâneos
através de personagens marcantes, cheios de virtudes e defeitos, e portanto
verossímeis, em suma, humanos que criou. Foi um crítico implacável e lúcido do
comportamento social de uma França em ebulição política. Sua produção literária
mais famosa, a primeira obra-prima da ficção realista, escola de que foi o
precursor, que sobreviveu a tudo e a todos, foi “Madame Bovary”.
Por causa desse romance – que lhe custou cinco anos de
meticuloso e estafante trabalho intelectual, publicado, inicialmente, em
fascículos pela revista “Revue de Paris”, em 1857 e só posteriormente em livro –
o escritor foi levado aos tribunais,
acusado de ofensa à moral e à religião e, por muito pouco, não foi parar na
prisão. A causa alegada desse processo? A personagem que criou, e que dá título
ao romance: Emma Bovary. A dita protagonista foi retratada como tendo procedimento
moralmente inaceitável, que chocava, sobretudo, a burguesa. Os que o
processaram, todavia, se deram mal. Além de Flaubert ser absolvido pela Sexta
Corte Correcional do Sena, a ação gerou tamanha celeuma na França, que
despertou a curiosidade popular para o livro. E em vez de ser banido, como seus
censores pretendiam, tornou-se best-seller mundial.
É impossível ler o livro e permanecer indiferente em relação
à personagem central, Emma Bovary. Os moralistas detestam-na e a pintam com as
cores mais sombrias e negativas possíveis, por causa de seu adultério
continuado e de sua conduta incompatível com o que se esperava das mulheres da
época. Já as pessoas que analisam os fatos, antes de criticá-los, tentam
entender suas motivações, mesmo que não concordem com suas atitudes. Pois é
essa Emma Bovary, tão inquieta e tão polêmica, a nona mulher citada na série
“Catorze personagens femininas inesquecíveis”, organizada pelo site “Homo
Literatus” (WWW.homoliteratrus.com).
Ela é a escolha de Nicole Ayres, graduada em Letras pela Universidade Estadual
do Rio de Janeiro. E é a própria especialista em Literatura que se nos
apresenta, que dá o seu original “cartão de visita”, nestes termos: “Apaixonada
pelas palavras, desde que aprendeu a ler e a escrever, não parou mais. Tem dois
projetos de romance e muitos projetos de vida. Adora a vida acadêmica. Adora a
vida. De espírito quixotesco, ainda vai aproveitar a experiência de suas
aventuras literárias para explorar o mundo. Mantém os pés no chão e a cabeça
nas nuvens”.
Como se vê, trata-se da pessoa talhada para comentar sobre
Emma Bovary e apresentar uma visão feminina dessa protagonista do livro de
Flaubert (amada e odiada por multidões, cada qual por suas próprias razões),
pela mente aberta que mostra ter. Lembro que a pesquisa do site reúne catorze
especialistas em Literatura que têm que escolher apenas uma única personagem
feminina que considere inesquecível, com as respectivas justificativas. E
Nicole justifica assim sua escolha: “A personalidade complexa de Emma Bovary é
belamente desenvolvida por Flaubert em sua obra prima. Ao mesmo tempo
sonhadora, delicada, culta e fascinante, ambiciosa, dramática, egoísta e
ingênua, Emma representa a classe burguesa entediada, a mulher em cativeiro e
as ilusões românticas. Incapaz de ser feliz no amor, seja com o marido ou com
os amantes, presa fácil de aproveitadores, vítima de uma sociedade hipócrita e
causadora de sua própria desgraça, a personagem encontra em seu fim trágico
mais do que uma punição, uma libertação, simbolizando a queda do Romantismo, o
massacre dos sonhos da juventude”.
Quem leu o livro de Gustave Flaubert certamente irá
concordar comigo de que a análise de Nicole, da personalidade e das motivações
de Emma Bovary, é perfeita. É clara, direta, objetiva, sem preconceitos, sem
rodeios ou subterfúgios e sem pruridos de falso moralismo que permeava a França
(e o mundo) de uma hipócrita visão moralista, o na base do “faça o que falo,
mas não faça o que faço”. Aliás, tal comportamento ainda é mais do que comum
nos dias de hoje. Ou estou exagerando? Esse não foi (infelizmente) o primeiro e muito
menos o último caso de censura a um clássico literário. Sequer preciso citar
quantos e quais livros enfrentaram idêntica oposição. Dezenas, centenas,
milhares de escritores brilhantes foram julgados (e alguns até condenados) sob
a alegação de “ofenderem a moral, a religião e os bons costumes”. Ora, ora,
ora. Arte não se censura.
Ainda recentemente, em fins do século passado, tivemos o
caso do escritor britânico, nascido na Índia, Salman Rushdie, que foi “condenado
à morte” pelos xiitas iranianos por causa de seu romance “Versículos satânicos”.
É fato que a sentença nunca foi cumprida> Mas ela custou inúmeros
contratempos e vexames a esse intelectual, que teve que permanecer escondido
por vários anos para escapar à sanha homicida de fanáticos que acham que podem
matar idéias. Estas, porém, são imortais. No caso da Literatura, o maior censor, o único
juiz habilitado a consagrar ou a levar ao fracasso determinada obra literária e,
por conseqüência, seu autor, é o leitor. Embora nem sempre justo, ele, e apenas
ele, tem a prerrogativa de determinar o que será best-seller e o que será
esquecido para todo sempre. Basta não comprar a obra que lhe pareça contrária
ao seu gosto e nada mais. Em suma: para mim, e para milhões de leitores mundo e
tempo afora, Emma Bovary é, sim, e sempre será, personagem feminina
inesquecível. Basta ler o livro de Gustave Flaubert para chegar de imediato a
esse lógico veredito!!!!
Boa leitura.
O Editor.
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O autor nasceu em 1821. Dentro de seis anos fará duzentos anos. Criar quem ele criou, naquele tempo obscuro, foi uma atitude de muita coragem.
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