Mulheres como elas são
O papel da mulher – quer no lar, quer em sociedade – “sempre” (ou quase sempre) foi determinado, ao
que se sabe, pelo homem. Isso, pelo menos, no período da História (com início
em torno do ano 7.000 antes de Cristo), e não do que se convencionou chamar de “Proto-História”.
O patriarcado predominou em todas as partes e em todos os tempos, pelo menos
dessa época, supostamente desde o fim da pré-história, quando o ser humano
ainda habitava as cavernas primitivas e não contava nem com leis (a não ser a “do
mais forte”) e nem com tradições (que nasceram, compreensivelmente, com a
sucessão de gerações). Houve (e há)
exceções. Mas estas são escassas. São casos isolados, ocorridos aqui e ali.
Os historiadores, porém, com base em descobertas
arqueológicas, falam de sociedades matriarcais, em que o papel de liderança e
poder era exercido por mulheres. Charles Darwin defendeu essa tese. Justificou
com o fato de serem elas as geradoras de novas vidas. A própria lógica sugere
que em épocas muito remotas – qualquer coisa em torno de 25.000 antes de
Cristo, ou pouco antes – a população humana era bastante escassa, e esparsa. A
longevidade das pessoas mal chegava a parcos anos, talvez, no máximo, duas a
três décadas, se tanto, dadas as péssimas condições de vida: de alimentação, de
higiene, de habitação etc., além da ação predatória das feras mais fortes e
mais ágeis que as atacavam com frequência. A maternidade seria encarada, então,
como ato de “magia”, já que aqueles seres primitivos não relacionariam a
gravidez com o ato sexual. A mulher, portanto, seria vista como a “garantidora”
da sobrevivência da espécie. E isso lhe garantiria respeito e poder.
As coisas se passaram, realmente, assim? Como saber?! Só se
pode especular. Mas que essa tese faz todo sentido, convenhamos, isso faz
mesmo. Todavia, salvo uma ou outra exceção, o que predominou foi sempre o
patriarcado. O homem assumiu o poder, governou nações, empreendeu guerras,
praticou toda a sorte de disparates e de violência, sem a participação feminina.
A partir de quando ele passou a ser prevalecente (admitindo que houve uma época
em que o matriarcado seria a regra)? Sabe-se lá! Pode-se especular, mas saber,
saber mesmo, sem sombra de dúvidas, com a certeza baseada em provas concretas e
inquestionáveis (que ademais não existem) ninguém sabe. Ainda assim... desde
que a Literatura (sobretudo a de ficção) nasceu, alguns escritores criativos
conseguiram criar personagens femininos inesquecíveis, mesmo tendo um papel
social tão restrito e sendo minoria em relação aos masculinos.
Isso não é de se admirar. Afinal, até por instinto, a mulher
é, e sempre será, o grande sonho de qualquer homem “normal”. Temos, todos nós,
várias delas em nossas vidas e com importância vital (umas mais, outras menos).
Sem elas, sequer nasceríamos, óbvio. Nossas mães são, além de nossas geradoras,
nossas primeiras nutrizes e principais educadoras, ensinando-nos tudo o que é
essencial à nossa sobrevivência. Ademais convivemos com irmãs, tias, primas,
avós etc., cada qual com sua importância no nosso desenvolvimento e biografia.
Culminamos por eleger determinada mulher para ser, simultaneamente, amante,
amiga, cúmplice, parceira, em suma, nosso amor. Alguns, é verdade, sequer sabem
amar. E isso ninguém lhes ensinará jamais. Estes querem mulheres submissas e dóceis,
obedientes à sua vontade e aos seus caprichos (ou desmandos?), como se fossem
meros objetos para satisfazer seus desejos (físicos e ou afetivos). Há muitos e muitos e muitos que as querem
assim. E, salvo alguma rara exceção, dão-se
mal. Não sabem amar e por isso dificilmente serão amados. Talvez sejam temidos,
mas...
Admirável, portanto, é o fato de haver personagens femininas
inesquecíveis em tão pouca quantidade, tendo em conta a prevalência de homens
no fazer literário. Elas deveriam ser absoluta maioria, diz a mínima das
lógicas, Não se trata de “divinizá-las”, mas de compreendê-las. Trata-se de
saber como de fato são (e não como as imaginamos). O escritor que se proponha a
criar personagens femininas que se tornem inesquecíveis deve tentar detectar (e
descrever), antes e acima de tudo, o que elas pensam, o que querem, quais são
seus sonhos, ideais, sentimentos e motivações. Precisam retratar seres humanos,
de carne e osso, inteligentes e sensíveis, e não se ater a simples
estereótipos.
É fácil estereotipar personagens. Qualquer rabiscador de
textos é capaz de fazer. Contudo, só os muito talentosos – os observadores, os
que fazem literatura com paixão e inteligência – criam protagonistas
verossímeis, como as que encontramos nas ruas, no trabalho, na faculdade e
principalmente em nossa casa. E o que se nota nos romances, contos, novelas e
peças teatrais da maioria dos escritores (de ontem, de hoje e de sempre)? Nota-se que criam estereótipos, em vez de
pessoas do sexo feminino. Afinal, queiram ou não, grande parte das mulheres da
Literatura é sofredora. Mas... na vida real, convenhamos, nem todas são assim.
Voltarei certamente ao tema.
Boa leitura.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Nenhum comentário:
Postar um comentário