Três personagens dos sonetos de
Shakespeare
Os 154 sonetos de William Shakespeare, que compõem seu único
livro escrito com essa forma de compor, publicado em 1609, apresentam três
personagens aos quais se dirigem a maioria das composições. Um deles é
apresentado como um “formoso jovem”, que ficou conhecido como “Fair Youth”, a
propósito do qual foram tecidas milhares de fantasias, que os oportunistas
tentam passar como “verdades históricas”, mesmo não contando com a mínima prova
e sequer remota evidência. O segundo personagem presente em diversos sonetos é
um poeta rival. A este intruso competidor pelos favores da desejada donzela do
poeta os estudiosos e pesquisadores da obra shakespeariana convencionaram
chamar (de modo para lá de óbvio), de “Rival Poet”. Finalmente, há a tal dama
morena (ou seria negra?), sobre a qual teci alguns comentários em texto
anterior, batizada de “Dark Lady”.
Fica a pergunta que não quer calar: essas figuras existiram
mesmo, em carne e osso, com nome e sobrenome e biografias, ou não passaram de
frutos da imaginação de Shakespeare? Esse é mais um dos tantos enigmas que
cercam a vida e a obra desse polêmico, posto que genial, dramaturgo e poeta.
Não ponho minha mão no fogo por nenhuma das duas teses. Aliás, afirmo, sem
qualquer receio de ser contestado e mesmo ridicularizado, que no mínimo noventa
por cento (se não mais) das milhares de biografias escritas a propósito dessa
misteriosa e fascinante figura não passam de ficção. E no que me baseio paras firmar
essa convicção? Na puríssima lógica.
Raciocinem comigo. Como alguém pode retratar 52 anos de vida
de uma pessoa tendo em mãos pouco mais de vinte documentos? Pois é isso o que
há referente a William Shakespeare. E estes não são conclusivos e nem reveladores.
O que há é apenas um certificado de batismo, seu testamento, dois ou três
registros de imóveis que ele comprou e vendeu e uma ou outra menção à sua
carreira, feita, por sinal, por pessoas não confiáveis, suas inimigas. Só isso!
Não há nenhum diário, por exemplo, escrito por ele ou por alguém que lhe fosse
próximo e nem qualquer depoimento de quem tenha convivido com ele. Nem mesmo a
data exata de seu nascimento está registrada em qualquer documento.
A única prova a que os biógrafos se apegam é á sua certidão
de batismo, que pode ter ocorrido próximo à época em que nasceu, como pode,
também, ter acontecido semanas ou meses depois. Por isso não estranho (embora
considere absurda) a tese de que ele sequer existiu e de que seu nome não é
mais do que pseudônimo de algum figurão da nobreza, que teria produzido sua
assombrosa obra, mas que não quis se identificar. Mas isso faz algum sentido?
Afinal, não há nada de comprometedor, ou mesmo de ridículo, em nenhuma de suas
37 peças, 154 sonetos e uma meia dúzia de poemas longos que dele restaram.
Muito pelo contrário! Claro, portanto,
que suposição desse tipo se trata de grande bobagem. Afinal, há, pelo menos, a
tal certidão de batismo, além de cerca de vinte outros documentos, atestando
que houve, de fato, um sujeito chamado William Shakespeare, nascido na
cidadezinha rural de Stratford-Upon-Avon, filho de um fabricante de luvas.
Outra controvérsia que persiste é a que se refere ao
tal "Fair Youth". Trata-se de
um jovem sem nome a quem são dirigidos os sonetos que vão do 1 ao 126. O poeta
descreve esse rapaz – que ninguém sabe sequer se existiu ou se é fruto da
imaginação de Shakespeare – com uma linguagem romântica e carinhosa. Para
quê?!!! Foi o que bastou para os detratores da reputação alheia, os tais que
vibram com escândalos, que se não existem eles inventam, insinuassem (e muitos
não insinuam, mas afirmam) uma relação homossexual entre o sonetista e o
anônimo personagem. E há estúpido que leva esses caras a sério! Os primeiro
poemas da coleção sequer sugerem relação pessoal estreita com o “Fair Youth”. Pelo
contrário, neles se recomendam os benefícios do matrimônio e de se ter filhos.
É verdade que o tom muda com o famoso soneto 18 ("Shall
I compare thee to a summer's day", cuja tradução é “deveria comparar-te a
um dia de verão”), O tratamento passa a ser íntimo. E o soneto 20 é aquele a
que os que vislumbram suposta homossexualidade de Shakespeare se apegam. Nele o
poeta se lamenta explicitamente de que o jovem não seja uma mulher. Só isso,
que pode não somente ter sido mal interpretado, como mal traduzido (afinal,
como todas as línguas o inglês também se transformou bastante em quatro
séculos), bastou para que os amantes de escândalo chegassem à sua estúpida
conclusão.
A maioria dos sonetos que se seguem descreve os altos e
baixos de um relacionamento, culminando com um caso entre o poeta e a Dark
Lady. A relação parece terminar quando o Fair Youth sucumbe aos encantos da
dama. Lembro que a linguagem lírica é assexuada. Posso expressar admiração pela
beleza de alguém do próprio sexo sem sentir a mais remota atração por essa
figura. É mera questão estética. Quem relaciona uma coisa com outra, desconfio,
tem, ele sim, tendência à homossexualidade. Considero inclusive, que essa
preferência é direito de quem a tem, questão de opção, que ninguém tem nada a
ver, mesmo não concordando com ela. O que contesto é o fato desse alguém
atribuir essa escolha a outrem, e com base, exclusivamente, em alguns sonetos,
ou trechos deles, que podem, perfeitamente, (como suponho ser o caso) nem terem
ao menos compreendido, como fazem com Shakespeare. Concordam?
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Como todo o restante da história dele, em que tudo pode ser ou não ser (eis a questão), estas aqui podem ser confissões homossexuais ou não. A homossexualidade é figura marcante em tantas épocas e civilizações, que não me causa surpresa alguma caso seja o fato de fato. O que não acho adequado é forçar a interpretação num sentido ou no outro.
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