O que documentos revelam sobre
Shakespeare
O resgate da vida amorosa de William Shakespeare, com base
em documentos minimamente confiáveis, é impossível. Por que? Porque estes não
existem. Portanto, tudo o que escrevem a esse respeito – e escrevem demais –
não passa de um conjunto de especulações, de chutes, de palpites, de
conjecturas, de fantasias e de tentativas de conseguir notoriedade às custas
alheias inventando escandalosas peripécias. A maior parte dos artigos, ensaios
e mesmo livros a esse propósito baseia-se em interpretações equivocadas e
distorcidas da obra do poeta e dramaturgo. Fundamentados, tão somente, em bases
tão instáveis, voláteis e nada esclarecedoras, saem propalando por aí que
Shakespeare teve relação homossexual com um nobre, que foi amante de sicrana,
fulana e beltrana, que traiu “x”, “y” e “z” e que foi traído por Johns, Harrys
e Smiths. Detesto esse tipo de especulação que nada constrói ou acrescenta de
positivo.
Sobre a vida afetiva de Shakespeare se pode afirmar, com
certeza, que ele casou, com 18 anos de idade, em 1582, com Anne Hathaway,
mulher oito anos mais velha do que ele e grávida de três meses. Certamente, foi
obrigado a casar, dado o costume da época, quando não se admitia sexo fora do
casamento. Claro que havia muita hipocrisia a esse propósito, mas... Só não se
sabe se o “errado” nessa questão foi o adolescente, com a testosterona
fervilhando em seu corpo ou se a mulher, fogosa e experiente, foi quem viu a
oportunidade de entrar para a família de um empresário local, relativamente
próspero, já que o pai de Shakespeare era fabricante de luvas em
Stratford-upon-Avon, o que naquela cidadezinha interiorana não era pouca coisa.
A criança concebida, ao que tudo indica, de maneira “acidental”,
e que precipitou a união conjugal dos pais, foi uma menina, que recebeu o nome
de Suzanne e que nasceu no início de 1583. Isso se pode afirmar com segurança,
porquanto está documentado. Outro episódio de sua vida afetiva que pode ser comprovado
foi o nascimento, em janeiro de 1585, de gêmeos, batizados como Hammet e
Judith. Não há, todavia, nenhum registro que indique se Shakespeare e Anne
viviam um casamento harmonioso e feliz ou se apenas se toleravam e mantinham as
aparências. Não descarto a possibilidade do dramaturgo “pular a cerca” um
montão de vezes, sobretudo após sua chegada a Londres. Todavia... prova disso,
que seja minimamente confiável, não há nenhuma.
Pode-se conjeturar a respeito, dado o ambiente em que o
dramaturgo atuava. Ele deve ter tido lá um punhado de casos com atrizes,
colegas de palco, ou com prostituas londrinas. Isso, no entanto, é mera
presunção, embora muitos (e põe muitos nisso) dêem essa possibilidade (a que
qualquer homem saudável está sujeito) como “favas contadas”. Alguns mencionam
até nomes, provavelmente saídos de suas maliciosas cabeças. Um último fato
comprovado por documentos, referente à família de Shakespeare, é o da morte de
Hammet, seu único filho homem, ocorrida em agosto de 1596, aos onze anos de
idade, de causas desconhecidas. A afirmação de que a “causa mortis” teria sido
a peste bubônica pode até ter base lógica, porquanto a Inglaterra enfrentava
epidemia da doença na ocasião, mas isso não consta em nenhum documento. É,
portanto, mero chute. Pode ter morrido, realmente, dessa causa, como pode não.
Vá se saber! A vida das pessoas corriam toda a espécie de riscos naqueles
tempos em que a medicina mal merecia esse nome e as noções de higiene eram
pífias, se não inexistentes.
Sabe-se que, quando o filho morreu, Shakespeare não estava
ao lado de Anne. Enquanto esta permanecia em Stratford-upon-Avon, ele estava em
Londres, atuando como ator. Já gozava, inclusive, de algum prestígio no mundo
teatral. Contudo, há alguma prova disso? Nesse caso, há. Sobreviveu, ao tempo e
ao esquecimento, um panfleto, assinado por um certo Robert Greene, sobre a atuação
de Shakespeare nos palcos. Aliás, esse crítico não simpatizava nem um pouco com
o dramaturgo, a julgar por uma crítica específica que escreveu no leito de
morte e que também sobreviveu intacta até os dias de hoje. No texto, Greene
chama, em certo trecho, o ator de “corvo arrogante”, o que nos leva a deduzir o
óbvio. Que não simpatizava nana, nada com Shakespeare, embora não revelasse os
motivos de tal antipatia. Deveria ter, certamente, suas razões. Mas quais?
Shakespeare tomou conhecimento dessa crítica apenas após a
morte de Greene. Ficou furioso com ela. Tanto, que exigiu, da parte do editor
desse texto, Henry Chettle, a devida retratação, e com o devido pedido de
desculpas, o que conseguiu. Isso também pode ser comprovado por documentos. Só
não se sabe, pois Greene não escreveu em lugar nenhum, o motivo dele detestar
tanto o dramaturgo e de considerá-lo “corvo arrogante”. Não faltam, porém,
especulações de que essa ojeriza se deveria à suposta vida dissoluta e
desregrada de Shakespeare, que colecionaria uma penca de amantes, sem se
importar de que sexo fossem. Isso, eu não escreveria jamais, mesmo que fosse
verdade. É um conjunto de escandalosas conjecturas de que um sujeito responsável
e sério jamais lançaria mão.
Boa leitura.
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Em relação às conjecturas alheias do final, o santo é de ouro, mas ainda assim, é melhor ir devagar com o andor.
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