Não olhar
* Por Pedro J.
Bondaczuk
A maior parte do meu sofrimento, como
jornalista e, sobretudo, como pessoa, advém das aflições alheias. É proveniente
da miséria, da violência, da exclusão social e da desagregação familiar de
centenas de indivíduos ao meu redor, de milhares um pouco mais distantes, de
milhões por todo o País e de bilhões através do mundo. Não se trata de querer
parecer "bonzinho" perante os leitores. É uma questão de berço, de
formação, de educação para a solidariedade. Não são minhas dores físicas,
felizmente raras, que me incomodam. Não são minhas carências financeiras, não
tão agudas, que preocupam. Não são meus desacertos emocionais que me tiram o
sono. São os sofrimentos alheios que me consomem a alegria e o otimismo.
O pior nessa história é a impotência em
ajudar esses outros que sofrem, dada a sua enorme quantidade. Qualquer ação
nesse sentido que eu tome desaparece, se torna irrisória e invisível, é uma
ínfima gota de água num oceano de carências. E minha situação financeira não é
das melhores a ponto de me possibilitar tirar o pão da boca dos meus filhos
para alimentar os dos outros. Ainda assim, busco contribuir com o pouco que
tenho condição.
É verdade que o drama da miséria, do
abandono e do egoísmo está longe de ser novo. O que aumentou foi a sua
quantidade de vítimas, em decorrência do vertiginoso crescimento da população
mundial. E não é somente a pobreza material que transforma um planeta tão belo
na réplica do inferno. É a indigência espiritual. É a perda de valores. É a
ausência de perspectivas. É o vazio de idéias. É o abismo de loucura no qual
multidões se acham mergulhadas irremediavelmente.
Sempre procurei, ao máximo, preservar o
meu texto do pessimismo que este panorama engendra, quer em reportagens, quer
em artigos, quer em crônicas. Sei da responsabilidade que me pesa sobre os
ombros enquanto formador de opinião. Por isso, busco sempre o ângulo mais
favorável nos fatos – embora isto esteja se tornando cada dia mais difícil –
para não multiplicar as angústias dos meus leitores, já assoberbados por tantas
tensões.
O
filósofo francês Gilles Deleuze abordou este drama do intelectual
bem-informado, ao constatar: "Quando o escritor afronta a loucura e o
silêncio, as palavras não esboçam mais nada, não se ouve nem se vê mais nada
através delas, exceto uma noite que perdeu sua história, suas cores e seus
cantos".
Ao
artista de outros tempos, de séculos passados, ficava mais fácil limitar-se a
descrever a beleza. A exaltar valores como o amor, a amizade, a solidariedade
etc. Havia misérias, injustiças, violência, loucura e dor tantas quantas agora
(guardadas as proporções). Mas ele tomava conhecimento apenas de casos que
ocorriam ao seu redor. Os meios de comunicação não lhe permitiam ir além.
Pensava, por isso, que alhures houvesse um continente, ou uma região, ou um
país, ou uma ilha da Utopia onde a vida transcorresse de forma ideal. Onde
existissem manhãs radiosas e noites tranqüilas e tudo fosse motivo para
risos, danças e encantamentos.
Hoje, um demente trucida 35 pessoas na
Tasmânia, na distante Austrália, e quase simultaneamente tomamos conhecimento
desse massacre. Um militar rancoroso dá ordem proposital de bombardear
instalações da ONU no Sul do Líbano, repletas de refugiados, trucidando 102
civis, velhos, mulheres e crianças, e minutos depois a televisão nos exibe as
imagens sangrentas. Policiais, transformados em jagunços, metralham
esfarrapados trabalhadores rurais sem-terra no Sul do Pará e o vídeo da
carnificina é exibido no telejornal que antecede a novela das oito como se não
passasse de obra de ficção. E vai por aí afora.
Para uns, esse desfile diário de
desgraças, violência e loucura age como fator de dessensibilização. Estes
assimilam tais dramas como o fazem com o enredo dos filmes norte-americanos, da
enorme montanha de lixo cultural que assistem na telinha. Mas para quem, por
alguma razão – sorte, esforço sobreumano, meios ilícitos etc – conseguiu a
acidentada ascensão da miséria para um patamar social mediano, e que sentiu na
própria carne os efeitos da exclusão social, esses fatos abrem feridas na alma.
Tiram a alegria de viver. Produzem um travo amargo na boca e um aperto doloroso
no coração.
O que fazer? Se omitir simplesmente?
Agir como se nada estivesse acontecendo? Fechar os olhos ao drama que se
desenrola ao redor? Se alienar do mundo e da realidade, se isolando em uma
torre de marfim? A vontade é a de seguir o conselho do poeta Emílio Moura,
expressado no poema "A boca da noite", que diz:
"Não olhes: é a noite
completa que tomba.
Não olhes: é a estrada
que súbito, acaba.
Não olhes: é o anjo,
teu anjo que chora.
Não olhes".
Como deixar de olhar e ainda continuar
sendo um homem? Sim, como?
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
O impacto dramático só dura o tempo de vermos as imagens, infelizmente esfregadas nas nossas caras, sendo que antes, apenas víamos o resultado ou sobre ele imaginávamos. Eu procuro ajudar aos que estão próximos, mas confesso que não gasto muita energia com os distantes.
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