Isto também passará...
A Literatura é fascinante por todo e qualquer motivo que se
considere. O livro é um mestre onipresente, o tempo todo à nossa disposição,
pronto para nos ensinar, orientar, emocionar etc.etc.etc. e, sobretudo, para nos
fazer refletir. Basta, somente, que estejamos dispostos a empreender este
aprendizado, essa deliciosa aventura da inteligência, do saber e do espírito e
que não o tenhamos, apenas, como objeto decorativo, como muitos fazem. Manda o bom
senso que façamos dele companheiro constante e indispensável. Tenho pena de
quem se priva, ou que seja privado, do privilégio da leitura.
Até mesmo o livro mais mal escrito do mundo, vazio de
conteúdo, ou com mensagens notoriamente destrutivas, tende a ser útil de alguma
maneira. Como? Isso apenas será possível se tivermos critério ao lê-lo. Ou
seja, se soubermos separar o joio do trigo, filtrar o que possa nos acrescentar
e enriquecer do que não possa, distinguir o útil do inútil, o construtivo do
destrutivo, o transcendental do trivial, e nos desfazermos do que seja negativo
e ostensivamente ruim. Convenhamos, não é difícil fazer essa distinção. “Neste
caso, no da obra ruim, qual seria sua utilidade?”, perguntaria, com pertinência,
o atento leitor, já propenso a discordar. Ela poderia constituir-se num
parâmetro do que não devemos pensar, nem sentir e muito menos como não agir.
Seria, portanto, útil, por vias transversas. Isso, claro, desde que fôssemos
(ou sejamos) criteriosos na avaliação do seu mau conteúdo.
A Literatura (aí incluindo não somente livros, mas textos esparsos,
de caráter literário, publicados em revistas, jornais e ultimamente em blogs da
internet), tende a nos engrandecer não apenas na condição de leitores, mas
também na de escritores, de redatores de textos. Aliás, esta atividade não pode
prescindir da leitura. Só escreve bem, com qualidade, correção e conteúdo, quem
for leitor atento, constante e até compulsivo. Escrever implica sempre em
imensa responsabilidade. Responsabilidade para com o próximo, ao qual podemos
induzir ao erro, mesmo que não seja nossa intenção. E também responsabilidade
conosco mesmos, no sentido de construirmos boa imagem e de preservá-la. No meu
caso, medito muito antes de redigir qualquer texto (literário ou não),
ponderando se o que pretendo criar será útil ou inútil, verdadeiro ou falso,
enfim, se será construtivo ou destrutivo.
Se for obra de ficção (conto, novela ou mesmo romance),
planejo cada detalhe dos personagens que me proponho a criar, para que sejam
rigorosamente verossímeis, mas tomando o máximo cuidado para não tornar os
vilões convincentes em demasia, para não induzir incautos a maus pensamentos, a
sentimentos negativos e, principalmente, a más ações. Afinal, nunca sei em que
mãos meus textos irão parar. Antes, durante e até depois desse planejamento,
medito, medito muito para compor um perfil psicológico adequado aos meus
personagens, de sorte a não caricaturá-los nesse e em nenhum outro aspecto. É
certo que cada escritor tem seu próprio método na redação de um livro,
notadamente de ficção. E ele será válido, caso redunde nos resultados
pretendidos. Nem sempre redundam. Mas... essa já é outra questão.
Meu objetivo é o de conferir à obra que pretenda produzir
certo caráter de permanência. Aliás, essa condição suscita infindas
considerações. Por mais que pretendamos e nos empenhemos, nada no mundo é
permanente. Vou mais longe: nada no universo é. Tudo está em permanente
mudança. Estrelas nascem, estrelas se extinguem, estrelas explodem, ou seja,
mudam. Novas galáxias surgem, velhas
galáxias desaparecem, muitas galáxias se fundem e vai por aí adiante. Tudo muda
o tempo todo. Nós mudamos, de um dia para o outro, sem que nos apercebamos. Heráclito
de Éfeso já havia chegado a essa conclusão, a da inflexível mutabilidade das
pessoas e das coisas, por volta do ano 500 antes de Cristo. O lúcido filósofo
escreveu a propósito: “A permanência é uma ilusão. Somente a mudança é real”. E
ilustrou sua tese com a célebre afirmação: “É impossível pisar duas vezes no
mesmo rio”. E não é? A calha pode até permanecer a mesma (posto que só por
algum tempo, e quanto não importa), mas as águas que correm nela evidentemente,
jamais serão.
Por isso, manda a prudência que os escritores acompanhem atentamente
as mudanças em sua atividade, que fatalmente acontecem, tendo o cuidado, óbvio,
de não mudarem para pior. Que estudem, se informem, se reciclem em todos os
sentidos, mas que tenham a consciência que suas obras, mais cedo ou mais tarde,
também passarão. Eles irão passar e talvez não deixem o menor vestígio de que
ao menos existiram. Mas enquanto não passarem, que façam o melhor possível para
se aproximarem, o mais que puderem, da perfeição.
A esse propósito, lembro-me de uma lenda sufi, que li
alhures. Refere-se a um rei, inquieto com o futuro do seu reino, sem poder
explicar a razão de sua inquietação. Aflito e no afã de acalmar sua aflição, consultou
os sábios da corte que, por seu turno, recorreram a um homem santo, por não
saberem o que aconselhar. Este, após ouvir a exposição dos consulentes,
deu-lhes um anel, recomendando que fosse entregue ao poderoso soberano, sem
mais explicações. Um dia, o reino foi atacado por poderosas forças inimigas, superiores
em número e em armamento ao do referido rei. Este, apavorado, cismou de abrir o
engaste do anel, trazido pelos sábios, no afã de encontrar ali alguma resposta
de como agir. No fundo da jóia havia apenas esta inscrição: “ISTO TAMBÉM PASSARÁ”.
Subitamente o monarca se aquietou. Inesperadamente, recebeu o auxílio de um
aliado e, com isso, os invasores foram vencidos e repelidos. Passado algum
tempo, o mesmo rei vivia um período de plena felicidade. O reino progredia, as
colheitas eram fartas, os cofres estavam repletos de dinheiro, as pessoas
estavam felizes e ele exultava com tamanho sucesso. Todavia, lembrou-se da
inscrição do anel: “ISTO TAMBÉM PASSARÁ”. Moderou, pois, a euforia, certo de
que aquela situação benigna e sumamente favorável não seria duradoura. Nada é.
Esta é mais uma das tantas lições que aprendi nos livros e que partilho com
vocês: ISTO TAMBÉM PASSARÁ!!!
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Se até o sol será extinto um dia...
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