Ancestral e pioneiro meio de comunicação
O teatro é uma das expressões artísticas mais completas, e
mais antigas, já inventadas pelo bicho homem. Supõe-se que tenha surgido nos
primórdios da civilização, na Idade da Pedra Lascada, ou quase, quando mal o Homo Sapiens havia tomado
consciência de si e do mundo em que estava e começado a tentar entender tudo
que o rodeava, até por questão de sobrevivência. Dizer, evidentemente, que foi
assim ou assado, ou que não foi, é rigorosamente impossível, por razões óbvias.
Não há a menor prova concreta de como, onde e, principalmente de quando o
teatro surgiu. E nem poderia haver. Afinal, não havia sequer linguagem escrita
para registrar tudo isso. Os alfabetos surgiram milênios (quantos?) após essa
arte já ter plena existência. Por isso, os historiadores são unânimes em situar
sua origem mais proximamente de nós: na Grécia Antiga e no século IV antes de
Cristo (ou por volta dele).
E por que podemos especular com razoável margem de probabilidade
sobre a origem do teatro (e sobre tantas e tantas outras coisas atinentes a
nosso remotíssimo passado)? Por intuição. Pelo que o sociólogo francês, Maurice
Halbwachs (que cunhou o termo) denominou de “memória coletiva”. Ele observou (e
seu conterrâneo David Émile Durkheim havia pensado nisso antes dele) “que as
representações coletivas do mundo, incluindo as do passado, tinham suas origens
na interação de entidades coletivas desde o início. E que não poderiam ser
reduzidas a contribuições de indivíduos. Eventos e experiências lembrados são
raramente constituídos por indivíduos à parte de outros ou de seu grupo social”.
Como não sou especializado na obra de Halbwachs (embora conheça alguma coisa
dela), colhi essa informação específica na sempre providencial enciclopédia
eletrônica Wikipédia.
Essa nossa “intuição” sobre fatos e comportamentos datados
de milênios anteriores ao nosso nascimento cabe direitinho no conceito de “inconsciente
coletivo”, do psicanalista suíço Carl Gustav Jung. Bem, por esse critério
pode-se “intuir” que o teatro surgiu quase que simultaneamente com a primitiva
pintura. Só fica a dúvida se ambas as manifestações nasceram juntas ou se uma
antecedeu a outra. Pouco importa. O que importa é que as duas teriam (e neste
caso o correto é sempre usar os verbos no condicional) finalidades mágicas. As
figuras de animais desenhadas nas paredes das cavernas teriam a função de prender
suas almas e torná-las presas fáceis dos caçadores. Já o teatro serviria como
uma espécie de rito, ora de celebração e agradecimento aos deuses pelo sucesso
da caça, ora de pedido às divindades antropomórficas para que favorecessem as
atividades destinadas à obtenção de alimentos.
As primitivas manifestações teatrais teriam se caracterizado
por danças coletivas. Na sequência, teriam evoluído para a arte da
representação. Ou seja, para a suposta “incorporação” dos deuses que nossos
remotos ancestrais adoravam, pelos primitivíssimos “atores” de então. Já na
fase mais evoluída, a da Grécia Antiga, o teatro viria a dar origem (aí sim é
dispensável o condicional) ao que viria
a se constituir, muitos séculos depois, na Literatura de ficção, como a
conhecemos. Ou seja, no romance, no conto, na novela e, mais recentemente, nos
roteiros de cinema.
Os ficcionistas primitivos não inventavam suas histórias,
como fazemos hoje. Davam suas versões a notícias de que tomavam conhecimento,
claro, dando livre curso às próprias fantasias. Seus enredos baseavam-se no que
achavam serem “fatos reais” (que talvez nem fossem, mas que tinham convicção de
que eram). O teatro, pois, de certa forma, também pode ser considerado o
embrião do jornalismo, em uma época em que as notícias levavam não dias, semanas
ou meses para chegar de uma parte a outra, mas anos, quando não décadas. Óbvio
que chegavam distorcidas, diria, “poluídas”. Afinal, ontem e sempre o clichê
que diz que “quem conta um conto, aumenta um ponto”, era e ainda é mais do que
nunca válido. Por isso, as “informações” eram adaptadas (pela visão dos que as
adaptavam) para serem representadas por atores em um palco, para atentas e
interativas platéias.
O teatro passou por inúmeras transformações ao longo do
tempo, mas não perdeu sua característica básica: a do contato direto de quem
transmite uma mensagem ou “concretiza” uma história (fictícia, na imensa
maioria dos casos, ou não) e seu destinatário, o público. Foram muitas as
ocasiões em que se previu sua extinção, em vista de surgimento de outros meios,
mais modernos, ágeis e considerados mais “racionais”, como o cinema e mais
recentemente a televisão, para transmitir a mesma coisa que ele transmitia (e
transmite, óbvio). Todavia, embora em constante crise de uns tempos para cá,
sobreviveu e segue sobrevivendo, contra todos os prognósticos pessimistas. Pois
é, em sua essência, o mais genuíno modo de comunicação entre quem cria e transmite
sua criação de forma concreta, com a ação de atores, e quem é o destinatário
dessa criação.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Por aqui, até acontecem representações, mas são poucas, e mal prestigiadas.
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