Zé Preto
* Por
Aleilton Fonseca
Ninguém dava atenção a
Zé Preto, mas ele e seu cachorro insistiam em me reconquistar com seus olhos
penitentes. Tudo, no entanto, havia mudado. Eu já não dispunha de tempo livre
como antes. Adulto, agora eu vivia apressado, cheio de tarefas no escritório. Mas
insistiam, como se eu pudesse interceder por eles, em busca de um lugar em que
ainda coubessem no mundo.
Sempre juntos, o velho
manso, com seus passos miúdos, e o triste escudeiro, de olhos não ferozes e
cauda intranquila, que nem se atrevia a latir. Guardavam-se de maiores
maltratos, de maus olhos, certas pedradas e quais descasos. Pior: agora estavam
ameaçados de despejo. Queriam pôr Zé Preto no hospício e o cachorro porta
afora. Entretanto, como separar tais criaturas que só sabiam existir um para o outro?
A vizinhança,
totalmente renovada, agora os desconhecia. Queriam varrer os pobres da tapera
triste, em plenas formas arruinadas por chuva, sol e janeiros. Eles eram
considerados uma mancha feia naquela rua que cada vez mais se tornava chique.
Os novos moradores os rejeitavam, pois que eram, muitos deles, bem empregados,
alguns cheios de empáfia aos ventos. De fato, não era mais uma rua de gente
pobre, como durante tantos anos, desde que Zé Preto se amoitara naquele canto.
Ele era de outras
datas, na época das velhas vizinhanças. Desde sempre bem aceito e tratado,
davam-lhe de comer, beber, vestir e remediar. Até sorrisos lhe sobravam. Minha
mãe, enquanto viveu, esteve atenta a esses cuidados. Para ela, zelosa dos
vizinhos mais humildes, Zé Preto era uma devoção diária. Como fornecia marmita,
mandava-me levar o almoço e a janta dele. Eu entregava o embrulho, com dois
pratos fechados, um contra o outro, enrodilhados num pano de cozinha.
Zé Preto também
recebia atenção de outros vizinhos. Tanto que não precisei continuar os
cuidados; ele se arranjava com outras pessoas. Daí que fui esquecendo dos
velhos tratos e, raramente, o via. E eram cada vez mais remotas suas aparições
na rua. O cachorro certamente era outro, mas parecia o de sempre. Se me
avistavam, insistiam em chamar minha atenção. Eu, no entanto, desviava deles os
olhos e os passos. Cuidava de minha vida.
Esse homem, eis um ser
discreto. Naquele tempo, ninguém triscava num sequer detalhe de sua história.
Era sempre assim, de seu jeito, sem nenhum motivo que se comentasse. Provado
manso, era circunspecto, por vez risonho, sobretudo divertido com as crianças.
Ele gostava de brincar. Fazia carrinhos de madeira, toscos, desengonçados, que
arrastava pela rua, barulhando. Ora engendrava algo como se parecesse um avião,
um catavento de lata, que, se não voava, ao menos divertia ao rodopiar pelo
terreiro.
Certas vezes, Zé Preto
saía correndo pelas ruas, nas mãos uma tampa de lata, qual fosse um volante;
buzinava e fazia ruído de motor com a boca. Era o perfeito homem acriançado,
bom de se gostar, sem travos nem receios. Os meninos íamos colher balas para
guerra nas mamoneiras do seu quintal, sem que isso somasse riscos ao zelo das
mães. Zé Preto era ajuizado, de confiança, incapaz de malfeitos ou abusos. Todos
gostavam dele.
Dia a dia, o tempo
salta e as pedras rolam. Os meninos da vizinhança crescemos, os velhos
morreram. Muitos se mudaram, venderam as posses, foram-se embora. A cidade
crescendo sempre, a rua foi ganhando novos donos, outras feições, pontos de
comércio, asfalto, carros e transeuntes; uma gente estranha e apressada, em
busca de outros tratos de viver e morar. Diante dos novos jeitos da rua, Zé
Preto e sua casa foram-se tornando estranhos, exóticos, — ruínas indesejáveis.
Um boato ganhou as
esquinas, correu a rua de ponta a ponta. Não achavam certo semelhante pessoa
enfear a paisagem, ali morador, no horrível casebre em ruínas, cercado de mato.
Aquilo desvalorizava a rua e as casas vizinhas. Era algo ruim de se ver, conviver
e aceitar. Diante do caso, voltei a me preocupar com o velho amigo. Dei-me
conta de que eu era o único remanescente dos jogos de gude, das brincadeiras de
bola, picula e empinações de arraia, agora impossíveis na rua movimentada.
Daqueles tempos, só eu e Zé Preto restávamos.
Entretanto, mantive-me
discreto, ao largo dos comentários. Os mentores da campanha vieram me pedir
apoio para desalojar o homem dali. Ora, eu não podia compartilhar uma ação
contra Zé Preto. Discordei, defendi seu direito de permanecer no lugar. Eu
trazia do tempo de infância uma atenção silenciosa pelo velho, e agora
indesejado, morador da rua.
O fato me avivou a
memória. De vagos registros, em calças curtas, me lembrava de haver brincado em
seu terreiro, em seu quintal aberto. E mais: eu me via em seu colo, minha mãe
perto, mas nem aflita, pedindo, com muita calma, que ele me pusesse no chão. Zé
Preto, então jovem, ria de me haver em seus braços. Um dia me levou para sua
casa, para desespero discreto de minha mãe. Eu tinha uma vaga ideia de seu
estranho lar por dentro, onde havia latas dependuradas, pequenas caixas de
papelão, trastes espalhados — que me pareciam uma arte de fazer ruídos.
Brinquei com aquelas coisas; bati lata com lata, juntei pedra com pedra, armei
pilhas de gravetos, combinei cacos de vidro. Ele, muito atento, quase sempre
calado, só me olhando e rindo. No seu tom encabulado, me dizia baixinho: “Oh,
Zefizim”.
Minha mãe tinha muito
cuidado. Preenchia os tratos comigo, limitava meus vôos, vigiava-me os passos,
quedas, cismas e vontades. Era rígida no trato, e firme nos exemplos. Mas
aceitava que eu errasse, desde que soubesse o quanto, como então me explicava.
Eu crescia pelos terreiros, de rua a rua. Zé Preto de vez em quando me tomava
pelo braço, me dava os estranhos brinquedos de lata e de madeira, sem nenhum
sentido de uso que eu imaginasse. Eram só mesmo de se pegar ou fazer barulhos.
Minha mãe procurava evitar, escondia-me dele, dizia que eu estava na escola.
Mas o vizinho acercava-se de nossa janela e me chamava pelo apelido inventado:
— Oh, Zefizim, vecê
vem cá, vem brincar com eu, vecê vem...
O bom amigo, de voz e
passos mansos, flagrava às vezes a inverdade. Seus olhos brilhavam, quando me
descobriam. E eu, sem saber que minha mãe reprovava nossos encontros, até gostava
de entrar naquelas ruínas. Eu tomava bons borrifos de chuva, boa aragem de
vento, naquela ex-casa, quase mesmo a céu aberto.
O tempo agora era
outro. Mas como eu poderia ser contra Zé Preto? Jamais. Ignorei o problema,
embora notasse que as pessoas estavam determinadas a expulsá-los dali. Só
espreitavam um pretexto, um deslize assim que fosse. Insinuavam que eram
perigosos, que ameaçavam os passantes. Mentiras! O velho e o cachorro,
amoitados no casebre, vigiavam a rua de longe, adivinhando os perigos através
das frinchas das paredes arruinadas.
Um dia aconteceu o
pior. Eu estava no escritório quando recebi um telefonema revelando o inexato.
Eu fosse até lá urgente. Davam conta de que Zé Preto havia sequestrado o filho
da nova vizinha, levando-o para sua casa. As pessoas, instigadas contra ele,
posicionavam-se em atitudes agressivas. Chamaram a polícia e reclamaram
providências para, segundo diziam, salvar a criança das garras do doido
perigoso.
Eu corri de imediato
para acudir Zé Preto. Era urgente livrá-lo daquele apuro. Eu sabia que ele,
certamente revivendo estórias, queria apenas agradar o menino. Talvez sentisse
saudade de brincar comigo.
Infelizmente, cheguei
na hora máxima do tumulto. E não consegui evitar a tragédia. Alguém havia visto
o cano de uma arma apontada para a rua, desde as ruínas. Houve correria,
gritavam que Zé Preto ia atirar. Na confusão, ouviram-se dois tiros. E depois
só silêncio e sobressalto. Imediatamente, corri para o casebre e vi a mesma
cena que eu, em criança, também protagonizara. O menino, de uns cinco anos,
entretido com os estranhos objetos, empunhava a velha arma de brinquedo. Ele
havia apontado a arma para a rua pela grande frincha da parede.
De imediato, vi Zé
Preto caído, seus frangalhos de roupa tingiam-se de vermelho. Na aflição,
gritei que o tinham matado. Mas ele ainda estava morrendo. Corri para tentar
ajudá-lo, em vão. Ele se apagava rápido. Ainda olhou piedoso para mim e para a
criança, e murmurou sua velha frase, quase inaudível: “Oh, Zefizim”. E calou,
sem expressão nos olhos úmidos. Ajoelhei-me sobre ele, angustiado, e fechei seu
olhar vazio. Zé Preto, morto. Eu fiquei perplexo, uma vida inteira ia
repassando em minha memória. De pé, eu olhava o seu corpo, custava-me
acreditar. O cachorro, num canto, acuado, rosnava baixinho. Apanhei o menino,
trouxe-o para fora das ruínas. A mãe, em prantos, arrebatou o filho de meus
braços e o apertou ao peito. A multidão em volta estava em silêncio, depois
irrompeu, num vozerio abafado, com diversos comentários.
Zé Preto estava morto.
A pior coisa estava feita, por dúvidas de um ato suspeitoso ou premeditado.
Voltei às ruínas, e vi o velho cachorro junto ao dono. Lá fora, os curiosos se
dispersavam. Eu me sentia num viés, entre uma grande perda e uma enorme culpa.
Eu me atrasara por longos anos ou por um eterno minuto?
Zé Preto foi declarado
morto em tumulto, num crime de autoria desconhecida. Fui ao centro, falei com
autoridades e nada obtive de certo. Apenas aceleraram os papéis e dispensaram
outras praxes. Um ser humano, morto de modo tão mesquinho, e constou que era
apenas um doente mental sem dono. Eu, único vizinho do tempo em que Zé Preto
era bem-quisto, sentia agora o dever de cuidar dele como se fosse gente minha.
Tomei as providências normais para o seu enterro.
Entretanto, não fiquei
sozinho nessa missão. Um homem grisalho, de jeito muito humilde, apareceu para
cuidar do morto. Chegou trazendo um caixão simples numa carroça. Eu o
acompanhei. Ele parou, me olhou fundo, apertou os olhos e indagou:
— Eu conheço o senhor
de algum lugar?
— Creio que não —
respondi convicto.
Ao ver o morto, o
homem murmurou:
— Coitado de meu
irmão.
Surpreso, examinei bem
os seus traços. De fato, ele se parecia com Ze Preto, só que normal, sem aquele
ar vago e manso, embora fosse um tipo circunspecto, sem dar trela a conversas
compridas. Com minha ajuda, limpou o corpo do irmão, vestiu-lhe um traje que
trouxera num embrulho. Daí fez a barba do morto, aparou seus cabelos, dando-lhe
uma feição nova que me pareceu estranhamente familiar.
Em silêncio,
preparamos o corpo e o ajeitamos no caixão. Ficamos ali, de guarda, durante
algumas horas, num estranho e solitário velório. Sem uma palavra. De vez em
quando fitava meu rosto, olhava demoradamente para o morto, franzia o cenho, de
jeito indagativo. E rezava em silêncio. Eu apenas recordava as boas passagens
da vida.
No fim da tarde,
colocamos o esquife na carroça e nos dirigimos ao cemitério. Tantas vezes eu
levara alimento a Zé Preto. Agora uma prece lhe bastava. No fim do ato, quando
acabamos de juntar terra à cova, o homem estendeu-me a mão. Ele me agradecia e,
por fim, me indagava:
— O senhor sabe o que
é feito do filho de José de Arimateia de Jesus?
— De quem? — eu
estranhei.
Ele repetiu seu olhar
para mim, firme, apontando para a sepultura com o queixo:
— De meu irmão.
— E ele teve um filho?
— eu me espantava.
— Sim... Quando moço,
ele teve um filho com uma vizinha.
Engoli em seco;
balancei a cabeça negativamente. Ali mesmo nos despedimos. E eu prossegui minha
vida, sempre calado, até que as palavras começaram a ressurgir com sutis
insinuações. Aquelas ruínas me chamam, e eu preciso juntar pedra com pedra,
arrumar os gravetos, combinar os cacos de vidro.
In: Teresa nº 3.
Revista da USP. São Paulo, 2004.
*
Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor titular pleno da
Universidade Estadual de Feira de Santana, membro da Academia de Letras da
Bahia, da UBE-SP e do PEN Clube do Brasil.
Nenhum comentário:
Postar um comentário