Trabalhando duro para sobreviver
A Literatura, no Brasil, ainda é (e sempre foi) considerada
“o patinho feio” da cultura nacional. Sequer é, oficialmente, profissão. Nossos
escritores (salvo raríssimas exceções) não conseguem sobreviver só com a parca
e incerta remuneração advinda da venda de seus livros, não importa a quantidade
que publiquem. Nunca conseguiram. Todos têm que exercer (e exerceram) outras
atividades remuneradas, ligadas ou não às letras, para assegurar o sustento.
Alguns atuam profissionalmente no jornalismo (desconfio que a maioria), tendo a
Literatura como uma espécie de “bico”, quando não de hobby. Outros tantos
advogam, ou exercem a medicina, ou são engenheiros, ou lecionam, ou são
servidores públicos (municipais, ou estaduais ou federais) e vai por aí afora.
Escritores como Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana,
Moacyr Scliar e João Guimarães Rosa, para citar apenas alguns casos que me vêm
de imediato à memória, tiveram que trabalhar duro, em outras funções, para se
manter, a despeito da reconhecida qualidade literária dos seus livros. Casos
como os de Paulo Coelho e Jorge Amado são rigorosas raridades, absolutas
exceções. Para o leitor ter uma idéia de como a Literatura é tratada nos
círculos oficiais, recomendo a leitura do contundente artigo do jornalista e
escritor pernambucano Urariano Mota, intitulado “Crítica ao Plano Nacional de
Cultura”. É um descaso só, e de todos os governos, não importa quais, como se
essa atividade fosse mero passatempo e não algo tão fundamental para nossa
formação e nossa vida.
Nem mesmo nosso maior escritor de todos os tempos, Machado
de Assis, escapou dessa sina. A despeito de sua (hoje) reconhecida genialidade,
teve que trabalhar, e muito, para se sustentar. Para que o leitor tenha uma
idéia disso, basta informar que assumiu seu primeiro emprego formal com apenas dezesseis
anos de idade, quando deveria estar estudando, por obra e graça do irrequieto e
polêmico Francisco de Paula Brito. Foi contratado como aprendiz de tipógrafo. Desenvolveu,
na sequência, exemplar carreira no funcionalismo público, onde atuou por longos
e estafantes 41 anos, mesmo depois de já ser famoso e consagrado, reconhecido
como o grande escritor que foi. Era reconhecido, mas não remunerado. Não podia
sobreviver “só” com a venda de seus livros.
Ainda aos dezesseis anos, Machado de Assis foi admitido no
serviço público, na humilde função de aprendiz de tipógrafo e revisor na
Imprensa Nacional, encarregada de publicar o Diário Oficial da União. Seu
“padrinho” e protetor foi um também escritor que, a despeito do enorme sucesso
do seu romance “Memórias de um sargento de milícia”, não conseguia sobreviver
da venda desse best-seller. Refiro-me a Manoel Antonio de Almeida, que via
naquele adolescente raquítico, gago e doentio imenso potencial literário.
Acertou na mosca, não é mesmo? Vá ter olho clínico assim na.... Deixa pra lá!
Não sei se Machado de Assis foi funcionário público
concursado ou não. Creio que na época sequer se exigia qualquer concurso para
ser servidor. O fato é que passou por várias secretarias, teve muitas promoções
e serviu com tamanha dedicação o governo que o empregou, que chegou a ser
condecorado. Não fez, portanto (como tantos e tantos fazem ainda hoje) do
serviço público mero “cabide de emprego”. Levou sempre a sério as funções para
as quais foi designado, não importa suas dimensões ou importância.
Recorro aos préstimos do professor e imortal da Academia
Brasileira de Letras, Marcos Vinicios Rodrigues Vilaça, que em seu esclarecedor
artigo, intitulado “Machado de Assis e a política” (publicado no “Diário de
Pernambuco” em 17 de julho de 2007), observou, a propósito: “Quero testemunhar
algo muito em particular. Sou, como ele de certa forma o foi, membro de uma
Corte de Contas, já centenária, o que no Brasil conta muito. Machado de Assis
foi por 41 anos modelar funcionário público e apetecia a ele tarefas que hoje
são nomeadas como de Controle Interno. Exerceu, entre outras tantas bem
diversificadas, funções dessa natureza no Ministério de Obras Públicas. Não era
esse o nome. Mas vá lá que seja para simplificar. É bom ver em papéis antigos o
servidor público Machado de Assis desempenhar-se metodicamente do controle de
contas dos que adquiriram lápis grafite, réguas de ébano, pó da Pérsia,
cânfora, papel para embrulho, envelope para cartas”. Era, como se vê,
meticuloso, concentrado, atento, rigoroso, assíduo e, sobretudo, competente
servidor.
Vilaça observa um aspecto particular digno de nota: “Na obra
machadiana o funcionário público sempre comparece sob a sua mordacidade, como
mediocrão, relapso, incompetente, preguiçoso, exatamente o contrário do que ele
foi. Rascunhava despachos antes de pô-los no papel, impugnava contas
inadequadas, conteve gastos sem previsão orçamentária”. E por que Machado de
Assis tinha em tão má conta seus colegas de serviço público? Ora, ora, ora... É
preciso explicitar?
Destaque-se que se tratava de um gênio das letras. E para
ser o fantástico escritor que foi, tinha que ser implacável observador. E
Machado foi e dos melhores. Não lhe escapavam, portanto, os vícios e mazelas de
boa parte dos funcionários (estes mesmos que conhecemos de sobejo hoje em dia).
Óbvio que não se deve generalizar. Se todo servidor fosse relapso e
incompetente, estaríamos num mato sem cachorro. É preciso separar, pois, o joio
do trigo. Mas que havia, no tempo de Machado de Assis (e há hoje) muito
“chupim” apadrinhado, que cai de pára-quedas em determinadas funções que não
entende lhufas, isso há de fato, e em enorme quantidade. Afirmo isso não por
ouvir dizer, mas por experiência própria, por haver observado de perto e
constatado essas, e tantas outras distorções.
Machado de Assis escreveu, certa feita: “Há uma grandeza, há
uma glória, há uma intrepidez em ser simplesmente bom, sem aparato, nem
interesse, nem cálculo; e sobretudo sem arrependimento”. E ele foi excelente em
tudo o que fez e o que foi. Não tinha, pois, razão alguma para se arrepender do
que quer que fosse. Deixou-nos, isto sim, preciosíssimas lições não só de como
fazer literatura de primeira qualidade, mas de como viver com grandeza e
dignidade, mesmo tendo contra si inúmeros fatores adversos, como ser alvo de
preconceito por sua origem social (era neto de escravos num tempo em que a
escravidão estava em plena vigência), falta de títulos acadêmicos e uma saúde
sumamente frágil que não lhe impediu, contudo, de trabalhar muito, quer
escrevendo, quer participando com competência e assiduidade da administração
pública.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Muito bom e digno esse Machado de Assis. Estou virando fã.
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