O Rio de Janeiro continua índio
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Francês: Mamópe setã? (Onde é que você mora?)
Índio Tupinambá do Rio: Kariók-pe. (Em
Carioca)
(Do
“Colóquio” de Jean de Léry -
1558)
O Rio de Janeiro
continua sendo, 450 anos depois, índio, mas nenhum guarani foi convidado para
sua festa de aniversário. Neste domingo, 1° de março, nenhum índio soprará a
velinha do tradicional bolo de quase meio quilômetro que a Sociedade dos Amigos
da Rua da Carioca fez para festejar os 450 anos da cidade, como parte da
programação que prevê, ao longo do ano, a realização de 600 atividades:
conferências, seminários, projeções, exposições, missa, performances, teatro,
orquestras, bandas, salva de tiros, regata... Os índios, porém, estão ausentes
de quase todas.
Mas os índios estão
presentes na história carioca, a passada e a atual. Os primeiros povoadores que
viviam aqui há pelo menos 8 mil anos, "eram indivíduos de forte
compleição, baixos, com o rosto estreito, nariz afilado e com pronunciadas
arcadas sobre os olhos”, escreve o arqueólogo Ondemar Dias. Algumas evidências
mostram que, por volta de 3.000 a.C., houve uma “explosão de vida” no litoral,
quando os pescadores começam a usar redes e armadilhas de pegar peixes na baía
de Guanabara e surgem os primeiros agricultores, segundo Alfredo Mendonça,
arqueólogo amazonense que estudou o Rio.
No séc. XVI, quando os
europeus desembarcam, encontram o entorno da baía de Guanabara habitado por
milhares de índios Tupinambá, Temiminó e Tupinikin. Todos eles desenvolviam
práticas sociais trabalhando, narrando, rezando, cantando, sonhando, sofrendo,
reclamando, brigando, rindo e se divertindo em línguas da família tupi-guarani.
Com essas línguas, classificaram o mundo. Nomearam rios, lagos, montanhas,
pedras, árvores, plantas, flores, aves, peixes, insetos, mamíferos e outros
animais.
Viviam em centenas de
tabas, 36 das quais foram mapeadas na Ilha do Governador pelo frade André
Thevet, que veio na frota de Villegagnon. Outras 32 aldeias foram listadas pelo
calvinista francês, Jean de Léry, em 1558. Os portugueses acrescentaram mais
povoações. A mais importante é a aldeia Kariók situada no sopé do morro da
Glória, na foz do rio Carioca, que tinha uma segunda foz, mais caudalosa, na
praia do Flamengo. Cada aldeia tinha população que variava entre 500 a 3.000
índios, todos dizimados pelo sistema colonial, responsável por uma catástrofe
demográfica.
Tem índio no Rio
Os territórios
indígenas foram invadidos, suas aldeias destruídas, suas terras ocupadas,
loteadas e distribuídas. O recôncavo foi todo retalhado. Com a fundação da vila
de São Sebastião do Rio de Janeiro, sesmarias foram concedidas para constituir
o patrimônio da cidade, incluindo a baía de Guanabara e adjacências. Para fora
do núcleo urbano, estendia-se zona agrícola e pastoril, com lavouras, engenhos
e campos de pastagem.
No Rio, no período
colonial, os índios trabalharam compulsoriamente na abertura de picadas e
clareiras, na derrubada de árvores e seu transporte, remando canoas, na
construção de feitorias, engenhos e fortalezas, em olarias, na agricultura, na
fabricação de farinha, na caça e pesca. E até meados do séc.XIX, 15 aldeias da
Província abasteciam ainda a cidade com índios que prestavam serviços
domésticos, faziam biscates ou eram recrutados para as obras públicas, o
Arsenal da Marinha e a pesca da baleia.
Esses "índios
urbanos", quase sempre sem domicílio certo, formavam uma “tribo”
desfigurada que vagava pelas tabernas da Candelária, Santa Rita e São José,
entrando em conflito permanente com a
Polícia. A própria Câmara Municipal do Rio requisitava das prisões os índios
para as obras públicas, como foi o caso da reforma do Passeio Público, em 1831,
toda feita com trabalho indígena.
Vários estrangeiros
que visitaram a cidade no séc. XIX deixaram relatos, além de rica documentação
iconográfica como as de Debret (1768-1848) e Rugendas (1802-1858). Índias
lavadeiras, à beira do rio, no Catete, onde lavavam roupa, foram documentadas
por Debret que escreveu: "Seus filhos tornam-se, com 12 ou 14 anos,
excelentes criados”. Retrata índios de diferentes etnias alojados na ilha das
Cobras, num barracão da Marinha.
No séc. XX, os índios
continuam a transitar pela capital da República, para onde migravam por
diversos motivos. O Rio sempre foi e nunca deixou de ser índio. Hoje, o estado
do Rio abriga apenas 1.9% do total da população indígena do Brasil, parte dela
vivendo na capital. Os dois últimos censos do IBGE indicam que em 2000 moravam
dispersos pelos bairros da periferia da cidade cerca de 15.622 índios, que
diminuiu em 2010 para 6.764, mas que cresce se incluirmos os 11.961 índios que
moram na Região Metropolitana.
A carioquice
O Rio continua índio
no seu patrimônio cultural material e imaterial, que modelou a identidade
carioca, ainda que muitos ignorem tais influências e outros a rejeitem mesmo
sem conhecê-las. O Rio é índio em seu
patrimônio linguístico, no jeito de falar e de ser. Não é possível sequer se
identificar e indicar o endereço sem pagar tributo simbólico às línguas indígenas. Carioca é nome do rio sagrado dos Tupinambá
que significa “morada (oca) do acari”, um peixe que cava buracos na lama e ali
mora. Da mesma origem são nomes de bairros e acidentes geográficos.
O sotaque carioca está
presente na busca de uma linguagem musical brasileira realizada, entre outros,
pelo carioca de Laranjeiras Heitor Villa-Lobos, que exalta "Tupã, deus do
Brasil" no Canto do Pajé e canta
saudoso: "Anhangá me fez sonhar com a terra que perdi". Está também
no maestro Carlos Gomes, paulista que viveu no Rio e usou em sua ópera O Guarani
instrumentos indígenas como maracás, inúbias, borés e flautas. O Rio continua
índio no carnaval, no candomblé e na literatura.
Os autos teatrais de
Anchieta, o poema Caramuru (1781) de Santa Rita Durão, a obra épica A
Confederação dos Tamoios (1856) de Gonçalves de Magalhães mostram que a
presença do índio na literatura marcou a formação da identidade nacional, o que
foi referendado por Gonçalves Dias e José de Alencar que viveram na capital. Os
índios foram imaginados como modelo de brasilidade e, num certo sentido, de
carioquice, com os Tamoio ou Tupinambá sendo cantados em prosa e verso.
A carioquice do Rio
está impregnada por contribuição dos índios à identidade local num processo
histórico violento, em que conhecimentos subterrâneos foram repassados
oralmente de uma geração à outra no campo da medicina, da farmacologia, da
culinária, da biologia, da agronomia, da religião, das festas, dos rituais. Os
saberes indígenas acabaram legando alternativas de sobrevivência nos trópicos,
transmitindo-nos inventos adaptativos que desenvolveram em milhares de anos,
concretizados nos métodos de plantar, caçar, pescar e preparar alimentos.
O Rio continua índio
no patrimônio arqueológico da cidade, parcialmente destruído pela especulação
imobiliária, cujos sítios oferecem pistas sobre sua ocupação. Museus e arquivos
são também territórios indígenas, pois guardam marcas indeléveis da presença
deles. Esse patrimônio documental permite identificar a contribuição indígena
na configuração da paisagem da cidade, cujos parques e jardins contaram com o
trabalho dos índios, assim como a construção de edifícios, fortalezas e
monumentos.
Os Arcos da Lapa
No patrimônio de pedra
e cal, entre outros, encontramos os Arcos da Lapa, construído com o sangue e o
suor dos índios, conforme carta do sec. XVII escrita por André Soares,
responsável pela construção do Aqueduto que trouxe água do rio Carioca para a
cidade, "a qual obra se não pode fazer sem assistência dos Índios, que são
os trabalhadores que naquellas partes costumão trabalhar". O autor
menciona índios nas obras do Senado da Câmara e nos engenhos de particulares. A
informação é confirmada pelo jesuíta Plácido Nunes (1683-1755), em carta
dirigida ao Vice-Rei do Brasil:
"Em nossos tempos
todas as Fortalezas, que se acham no Rio de Janeiro foram feitas pelos Índios (...) Estes mesmos
abriram o Caminho Grande, que vai do Rio de Janeiro para Minas até o Rio Paraibuna. Estes os que conduziram todos os materiais e
instrumentos para a Casa de Fundição (...). Estes, finalmente os que
trabalharam o Aqueduto pelo qual se pôs a Água da Carioca na Cidade do Rio de
Janeiro”.
Confirmando que o Rio
de Janeiro continua índio, na resistência e nas alianças, a cidade foi palco de
manifestações, em junho de 2013, de indígenas da denominada Aldeia Maracanã,
aliados a não-indígenas, que cobraram a preservação do antigo prédio do Museu
do Índio condenado à destruição. Diante do clamor público, o então governador
Sérgio Cabral, retrocedeu e anunciou a restauração do imóvel situado ao lado do
Estádio do Maracanã para sediar um Centro de Referência das Culturas Indígenas
(CRCI).
Depois de discutir com
41 líderes indígenas de todo o país, o governo definiu por decreto os objetivos
do CRCI, que se compromete a "promover, preservar e difundir a história,
os valores, os conhecimentos e todos os aspectos culturais dos indígenas
brasileiros, com foco especial nos grupos que vivem ou viveram nas diversas
regiões do estado do Rio de Janeiro".
Não é preciso
aniquilar o passado para entrar na modernidade, o povo carioca tem muitas
razões para se identificar com a diversidade das culturas que aqui floresceram.
O Rio continua índio. Resistindo. Sempre. O Rio de Janeiro, fevereiro e março.
P.S. - Como parte das
comemorações, a Secretaria Municipal de Educação do Rio publica "Uma
História Concisa da Cidade do Rio de Janeiro: Rio 450 anos", organizado
pelo historiador Ilmar Rohloff de Mattos, com 20 artigos, um deles sobre os
índios do Rio de Janeiro escrito por esse locutor que vos fala de onde foi
extraído o título acima e alguns trechos aqui reproduzidos.
* Jornalista e historiador
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