Nadando contra a correnteza
A visão de Machado de Assis sobre Antonio Conselheiro e seus
fieis seguidores, no episódio que passou para a história como a “Guerra de
Canudos”, em pleno sertão baiano, diferia, e muito da versão da imprensa, sobre
esse personagem e sobre suas motivações e as de seus liderados. Nesse caso,
teve a coragem moral e a hombridade de nadar contra a correnteza, quando julgou
justo e correto. É fato que o escritor não conheceu pessoalmente o líder
rebelde. Nunca o viu, nem por fotografia (recurso que, ademais, ainda não
existia e não estava, pois, à disposição dos jornais) e muito menos tinha noção
do cenário dos acontecimentos, já que em toda a sua vida jamais se afastou
muito da cidade em que nasceu (fez isso apenas duas vezes, por razões de saúde,
e assim mesmo não foi muito longe, foi, apenas, pára Nova Friburgo, nos
“arredores” da então Capital Federal). Todavia, os autores das várias
reportagens igualmente desconheciam quem de fato Antonio Vicente Mendes Maciel
era e qual era a causa pela qual ele e seu grupo combatiam. Ainda assim,
julgaram-no e condenaram-no, sem que este tivesse direito à defesa.
Machado de Assis, é verdade, escreveu pouco a esse
propósito. A “Guerra de Canudos”, ao que me parece, foi tema específico apenas
de uma única crônica dele, publicada em sua coluna semanal da “Gazeta de
Notícias” (“A Semana”), datada de julho de 1894, intitulada “Canção de
piratas”. Incidentalmente, citou Antonio Conselheiro em mais um ou dois textos,
porém com simples menções, a título de comparação. Todavia, nunca mudou de
opinião e nem se deixou levar pelo “efeito manada” – o ato de aderir ao que os
outros pensavam apenas por se tratar do pensamento majoritário, se não único,
como tantos e tantos fizeram ao longo do tempo e fazem ainda hoje.Tanto que, ao
selecionar, anos mais tarde, textos publicados na imprensa para compor seu
livro “Páginas recolhidas”, incluiu a crônica “Canção de piratas” que havia
escrito quando a rebelião de Canudos mal começara. Caso tivesse mudado de idéia
sobre o caso, assim que este teve o trágico desfecho que conhecemos, nada o
impedia de ignorá-la. Mas não ignorou. Por que? Porque não mudou de opinião.
E o que Machado de Assis escreveu nessa ainda hoje polêmica crônica
(que muitos biógrafos e historiadores até preferem ignorar)? Iniciou o texto da
seguinte forma: “Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos
com 2.000 homens (dois mil homens) perfeitamente armados. Que Conselheiro? O
Conselheiro. Não lhes ponha nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o
Conselheiro, um homem, dizem que fanático, levando consigo a toda parte aqueles
dois mil legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a
Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos...”
Mais adiante, contesta a caracterização dada pela imprensa
desse líder rebelde e de seus seguidores, da seguinte forma: “Jornais e
telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que são
criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros alinhados, registrados,
qualificados, cérebros eleitores e contribuintes. Para nós, artistas, é a
renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e aborrecida, vem
dourar-nos a janela e a alma. É a poesia que nos levanta do meio da prosa
chilra e dura deste fim de século. Nos climas ásperos, a árvore que o inverno
despiu é novamente enfolhada pela primavera, essa eterna florista que aprendeu
não sei onde e não esquece o que lhe ensinaram. A arte é a árvore despida: eis
que lhe rebentam folhas novas e verdes”.
Para Machado de Assis, o Conselheiro e seu grupo não eram
“criminosos” como a imprensa os caracterizava. Eram idealistas, combatentes da
liberdade, que arriscavam a vida por uma causa. Eram, quando muito, piratas,
então romantizados por vários escritores. E ele prossegue, nos parágrafos
seguintes: “Sim, meus amigos. Os dois mil homens do Conselheiro, que vão de
vila em vila, assim como os clavinoteiros de Belmonte, que se metem pelo
sertão, comendo o que arrebatam, acampando em vez de morar, levando moças
naturalmente, moças cativas, chorosas e belas, são os piratas dos poetas de
1830. Poetas de 1894, aí tendes matéria nova e fecunda. Recordai vossos pais;
cantai, como Hugo, a canção dos piratas...”
E, mais adiante: “Crede-me, esse Conselheiro que está em
Canudos com seus dois mil homens, não é o que dizem telegramas e papéis
públicos. Imaginai uma legião de aventureiros galantes, audazes, sem ofício nem
benefício, que detestam o calendário, os relógios, os impostos, as reverências,
tudo o que obriga, alinha e apruma... Os partidários do Conselheiro lembraram-se
dos piratas românticos, sacudiram as sandálias à porta da civilização e saíram
à vida livre”. Quem teria a coragem de escrever isso, sem medo de ridículo, se
não Machado de Assis? E quem se atreveria a ridicularizá-lo? Certamente,
ninguém. Fosse outro o autor dessa crônica e cairia em perpétua desgraça diante
da opinião pública.
E o que essa gente humilde, rústica, na maior parte
ignorante e crédula, procurava? Nada mais do que “apenas” melhores condições de
subsistência. Além disso, buscava assistência espiritual de conformidade com a
sua crença, com a rígida moral transmitida por seus pais, que não mais
encontrava na Igreja formal. Os comandados de Antônio Conselheiro investiam
contra o que entendiam serem os "pecados" da recém-implantada República.
Entre estes, dois eram considerados os mais graves: o casamento civil e a
separação da Igreja do Estado. Daí serem confundidos com os monarquistas.
Aliás, estes foram tidos como os instigadores da revolta sertaneja e seus
beneficiários, o que não foram.
A tragédia de Canudos – com a morte de milhares de soldados
e com o impiedoso massacre dos quase doze mil moradores do aldeamento com cara
e jeito de favela, dos quais só restaram quatro sobreviventes – poderia ser
evitado mediante o diálogo, que em momento algum as autoridades sequer
tentaram. Uma reles negociação, cedendo em um ou outro ponto, teria prevenido
essa sangria desatada. Contudo, a arrogância dos “senhores feudais” impediu a
solução pacífica. No Nordeste, a "lei" era a criada e imposta pelos
grandes latifundiários, pelos todo-poderosos senhores de engenho. Ademais, o
poder central, que nunca fez nada por aqueles brasileiros desassistidos e
largados á própria sorte, não podia tolerar contestações como a de Antônio
Conselheiro. Canudos passou, em pouco tempo, a ser considerada perigo sério à
própria ordem constituída e á soberania nacional. Exagero, é claro.
Aqueles homens rústicos, andrajosos e miseráveis não tinham
nada a perder, pois nada tinham de seu, a não ser a vida. E os historiadores
José Rivair Macedo e Mário Maestri narram, em seu livro “Belo Monte, uma
história da Guerra de Canudos”, o desfecho dessa tragédia no sertão: "Canudos
não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento
completo. Expugnado palmo-a-palmo, na precisão do termo, caiu no dia 5 (de
outubro), quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram
quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais
rugiam raivosamente cinco mil soldados".
Machado de Assis, com sua incomparável sensibilidade, intuiu
a justeza da luta daquele bando de homens e mulheres paupérrimos, andrajosos e
famintos, mas sumamente determinados, e não entrou na onda generalizada do
linchamento, da demonização e da eliminação daqueles idealistas (que fossem
mesmo os tresloucados e fanáticos como eram caracterizados pela imprensa, que
trocou a informação pela opinião formada na base do “ouvi dizer” ou do “acho”,
ainda assim mereceriam respeito). E teve a hombridade de registrar o que
pensava para a posteridade.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Uma história mil vezes contada e representada, mas que me parece não ter ainda apresentado a sua versão definitiva. A visão de Euclides da Cunha em "Os sertões", mesmo que seja militar, me fez ver naquele povo uma força invencível.
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