Uma mulher ligeira
* Por
Ana Deliberador
Eram amigos, muito
amigos, desde que haviam se conhecido, há décadas.
Petrôncio era sócio do
único cinema da cidade. Ferdinando, dono de um próspero açougue. Aparício….Do
que é que vivia mesmo?
Pescavam juntos,
viajavam juntos e …. biscateavam juntos. Não podiam ouvir falar de uma mulher
“ligeira” que já davam em cima. Carne fresca era sempre bem vinda! As esposas?
Ah! As esposas eram de respeito, não eram para safadezas não!
Um dia Aprígio recebeu,
feliz, a notícia de que uma certa moça nova, de família, estava louca por ele.
Só que havia um senão: ninguém podia saber ou o pai a mataria.
Conversa vai, conversa
vem, recadinho pra lá e pra cá, e nada de saber a identidade da moça. Passados uns quinze dias mandou um ultimato:
marque logo esse encontro ou não quero mais nada com você!
E, finalmente,
conseguiu. O encontro foi marcado para o sábado seguinte, 19 horas. Seriam
deixados, por um dos amigos, no campo de aviação – que não passava de uma pista
de pouso, de terra batida. Duas horas depois – tempo máximo que a garota
poderia ficar fora de casa – voltaria para apanhá-los.
E assim foi feito.
No dia marcado, na
hora marcada, no lugar combinado, estava o ansioso Aparício, cheirando a Tabu e
cabelo lustroso de brilhantina. Mal o jeep parou, o homem saltou para dentro.
Deitada, totalmente coberta por um lençol, a apaixonada.
De quando em quando,
Aparício se virava, passava a mão na perna da mulher e dizia:
– Ei dona. Já, já nóis
vamo conversá, né?
E a moça, acanhada,
nada respondia.
Chegando no campo de
aviação, desesperado e já com as calças abertas, Aparício desceu rapidamente.
Abriu a tampa traseira e foi agarrando a moça, que se atirou sobre ele,
gritando:
– Aparício, seu
sem-vergonha!
A “moça” era
Ferdinando, o outro amigo!
* Professora, pintora e escritora
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