Racismo e preconceitos
* Por
Urariano Mota
As notícias gritam
como se fossem novos jornaleiros, diante dos trens das nossas vidas:
“Uma comunidade de
quase 100 mil usuários numa rede social, que se declaram profissionais da
classe médica brasileira, se tornou palco de uma guerra de classes no entorno
da corrida presidencial, entre Dilma Roussef
(PT) e Aécio Neves (PSDB).
Com o título de
‘Dignidade Médica’, as postagens do grupo pregam ‘castrações químicas’ contra
nordestinos, profissionais com menor nível hierárquico, como recepcionistas de
consultório e enfermeiras, e propõem um ‘holocausto’ entre os eleitores da
petista.
Médicos, professores e
estudantes de medicina estão entre os 97.901 membros da comunidade na rede
social Facebook. Entre postagens de revolta com a situação econômica do País e
xingamentos a nordestinos, os participantes confessam que fazem campanha
pró-Aécio até dentro do próprio consultório – público ou privado – convencendo
os seus pacientes.
Eles dizem que colocam
‘a recepcionista no lugar dela’ com ameaças de que perderia o emprego com a
reeleição de Dilma.
O discurso de ódio
conta com frases de ‘nível de conversa que pobre entende’ e ameaças de expulsão
do grupo caso o usuário se manifeste contra os ideais da página.
Um usuário protesta:
‘70% de votos para Dilma no Nordeste! Médicos do Nordeste causem um holocausto
por aí! Temos que mudar essa realidade!’ ”
A gente ouve esses
uivos e fica difícil manter o espírito sereno. Eu queria ter apenas as palavras
mais simples para falar a meus irmãos, pais, amigos, humanidade nordestina.
Assim como os melhores
poetas pediam inspiração às musas quando partiam para uma empreitada além das
suas forças, a minha nulidade e pequena poesia pede socorro aos músicos que
tocam a meus ouvidos neste instante. Começo pela invocação da melodia e
execução de gênio que vem de Felinho, no frevo Formigão:
Ouviram? Felinho
acende, serena, mata e ressuscita o que é universal.
Depois, peço a luz, a
bênção e o amor do povo nordestino para ouvir e escutar Asa Branca.
Vocês perdoem porque
falo do Nordeste falando da gente de todo o mundo. Pois assim não é a defesa da
humanidade, quando cantamos a sua excelência no canto da nossa vida mais íntima?
Então exijo uma última
licença aos uivos, aos latidos contra a gente boa, mãe da terra do Nordeste, que cheira como cuscuz de manhã
no chão quente molhado pela chuva. Chamo Lenine, o compositor.
Assim posto e
defendido, posso agora convocar uma seleção de nordestinos que é também uma
seleção do povo brasileiro. Não direi que esta é A Seleção, a única, porque
seria tão estúpido quanto os preconceitos contra os meus pais, filhos, amigos,
nordestinos irmãos que somos de todas as nacionalidades do Brasil. Mas falo
agora e convoco os ofendidos mais próximos. Chamo os nossos paraíbas,
cearás, baianos, nortistas,
cabeças-chatas eternos.
Lá de cima da região,
invoco primeiro os maranhenses. Em ordem alfabética, os irmãos Azevedos,
Aluísio e Artur, diria melhor, em ordem de privilégio, pois num casa só, em um
só lugar e tempo, saíram dois escritores da formação brasileira.
Depois, entre tantos,
porque estamos numa seleção dos sonhos, chamo Gonçalves Dias, do nosso céu tem
mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida,
nossa vida mais amores, lembram?
Depois, num salto da
maior arbitrariedade, pois assim são os sonhos, convoco o gênio de Catulo da
Paixão Cearense, Catulo da Paixão Cearense, Catulo da Paixão Cearense, e não
precisa convocar mais ninguém. Bastava Luar do Sertão, e Flor amorosa, é uma
rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa.
Mas o que dizer de uma
seleção de maranhenses onde não estivesse João Do Vale? O carcará não perdoa,
pega, mata e come, porque A ema gemeu. E assim desço rápido para a Paraíba, com
o pedido urgente da presença de Jackson
do Pandeiro.
Esses fundamentais a
gente chama com o coração na boca. Oi no
forró de Sá Juaninha em Caruaru, cumpade Mané Bento só fautava tu. Matemo dois
soldado, quatro cabo e um sargento, cumpade Mané Bento só fautava tu.
Penso que Deus é
nordestino. Pois se não for, como explicar uma terra onde é magnífica a gente
brasileira? José Lins do Rego, Canhoto da Paraíba, Ariano Suassuna, Sivuca.
Ainda acham pouco e
excedem na altura de José de Alencar, Patativa do Assaré, Dom Helder Câmara, Os
Índios Tabajaras, o maestro Eleazar de Carvalho. E vem mais com Câmara Cascudo,
o gênio que ensinava aos gringos que jacaré quando dorme fecha o olho. E mais Torquato Neto e Mário Faustino.
Pois se Deus não for
nordestino, como explicar a origem de Frei Caneca, Manuel Bandeira, Paulo
Freire, João Cabral, Carlos Pena Filho, Joaquim Cardozo, Solano Trindade,
Ascenso Ferreira, Alberto da Cunha Melo, Hermilo Borba Filho, Nelson Rodrigues,
Antonio Maria, Gilberto Freyre, Mario
Schemberg, José Leite Lopes, Josué de Castro.
E Lula, o cara que
levou o Brasil a uma posição de destaque em todo o mundo, como explicar? Eu não
sei, porque fico sem explicação para a vida e obra de Abelardo da Hora,
Vitalino, Lula Cardoso Ayres, Cícero Dias, e mais Graciliano Ramos, Jorge de
Lima, e aquele que virou nome de dicionário, Aurélio Buarque de Holanda.
Sim, e como esquecer
Castro Alves, Luís Gama, Jorge Amado, Dorival Caymmi, Marighella, Glauber Rocha
e Bule-Bule?
Trezentas e sessenta e
cinco igrejas de Salvador me amaldiçoariam se esquecesse a Mãe Menininha. Pior
e abaixo de ruim estaria se não mencionasse os aboiadores dos sertões, que
cantam como um longo lamento, e num salto para o litoral nem lembrasse da
poesia marginal do Recife. E Dona Santa e o maravilhoso maracatu que fez Milton
Nascimento incorporar os mais antigos ancestrais, como explicar?
Tenho ou não razão de
pensar que Deus é nordestino?
Para quem ainda
duvida, eu acrescento ainda outros grandes nomes do Nordeste.
Os compositores de
frevo: Capiba, Nelson Ferreira, Levino Ferreira, J. Michiles, Maestro Nunes,
Duda, Irmãos Valença, Edgar Moraes, Luiz Bandeira
Músicos: João
Pernambuco, Luperce Miranda, Spok, Maestro Forró, Lalão, Henrique Annes, Chico
Science, Alceu Valença, Geraldo Azevedo
Poetas: Daniel Lima,
Mauro Mota
Escritores: Joaquim
Nabuco, Osman Lins
Advogados: Mércia
Ferreira, Roque de Brito Alves
Comunistas: Gregório
Bezerra, Paulo Cavalcante, Diógenes de Arruda Câmara, Davi Capistrano, Naíde
Teodósio
O primeiro socialista
do Brasil: Abreu e Lima, o “general das massas”
Pintores: Ismael
Caldas, Samico, Guita Charifker, Teresa Costa Rego, Vicente do Rego Monteiro
Economistas: Celso
Furtado, Tania Bacelar
Socialistas: Miguel
Arraes, Pelópidas da Silveira, Padre Reginaldo, Padre Henrique
Nutricionista: Nelson
Chaves
Eu não sei se é a visão do mar, que do Alto da Sé se avista
em Olinda, que se abre azul para a África e faz a gente sentir um gosto do
carinho antigo do Brasil. Eu não sei se é da terra dos altos coqueiros, cuja
sombra nos abriga do calor das ladeiras, que amaciam os pés para que não virem
pontapés mortais contra os preconceituosos.
Eu não sei se é do
caminhar no Recife Antigo, enquanto passo por trilhos de bondes impressos nos
paralelepípedos, mas quando olho as esquinas do Recife me digo, “a história vem
toda de volta nestas ruas”.
Quantas gerações nos
falam neste lugar do Nordeste. Quantos irmãos sentimos que se espalham em todos
os estados, do Maranhão à Bahia. Do Amazonas ao Rio Grande do Sul, com nordestinos discriminados em outros sotaques.
Eu não sei. Mas sinto
que o título lá em cima poderia ser também “por que tenho a felicidade de ser
nordestino”.
Isso porque Deus antes de ser de todos os brasis,
amou e criou aqui no Nordeste. É da história a informação. Assim como é na
história, pela história que existimos e somos.
Esses preconceitos que
explodem agora mais que nos envergonham. Eles nos gritam entre uivos a vergonha
que sentem do Brasil. Fazer o quê? Que venha em nossa ajuda o Frei Caneca, de
quem faço uma breve adaptação para este momento:
Entre o preconceito e
a pátria
Não duvida meu coração:
O Nordeste levou-me
todo.
Preconceitos que uivem
em vão.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho
renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao
ensino em colégios brasileiros.
Hotel pago e indo para a Bahia junto com meus colegas, iria comemorar nossos 35 anos de formados em medicina. Havia em cena um discurso irritante contra Dilma. Apenas desisti. E foi a glória não ter convivido com esses falsos deuses.
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