Poema
simples
* Por Pablo Uchoa
Esta
tarde vi um burro cinzento
que
me cagou em frente ao portão
ali
onde o jornaleiro
deposita
diariamente as principais notícias do Brasil e do mundo
Como
apareceu insólito eqüino
das
entranhas dessa seara de betume
só
Deus saberá!
Resignado,
admiti uma pá e a sacola de lixo
E
aceitei minha majestade
naquele
patamar ao que pertenço
interrompendo
por dez minutos
meu
distinto estudo
Terminei
meu trabalho olhando as pernas
–
femininas, é claro –
que
vêm e vão
Um
amigo certa feita me disse:
-
Homem de sorte! Rodeado de mulheres interessantes!
Olho
à minha volta:
passam
as mulheres do seu tempo
A
executiva, a gerente, a clubber
Meio-dia
na cidade, apressam-se
do
alto de seus tailleurs e saltos agulhas
planos
de metas e objetivos de carreira
Ou
então piercings e cabelos coloridos
E
eu com as mãos na bosta
Ora
essa, quem precisa de tanta atitude!
Sortudo
serei de encontrar minha Lurdinha
minha
matuta simples e alegre
que
não seja de seu tempo nem de tempo nenhum
que
se contente em gastar suas tardes comigo,
avoados,
a
observar os passarinhos.
(*) Cronista e editor do site www.narizdecera.jor.br. Vive
atualmente na Inglaterra, dedicando-se a pesquisas no Institute for the Studies
of the Americas, da Universidade de Londres. Autor do livro-reportagem
“Venezuela: A Encruzilhada de Hugo Chávez” (Ed. Globo, 2003), menção honrosa no
prêmio Vladimir Herzog 2004.
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