Loucura e genialidade
A mente humana – entre tantos e tantos e tantos e
insondáveis mistérios que caracterizam nossa vida; entre a tentativa de
entendimento do lugar em que estamos; entre
o grandioso universo que me parece infinito e eterno embora o conceito de algo
que não tenha começo e nem fim extrapole minha compreensão; enfim, entre a
natureza de matéria e energia, de frio e calor, de luz e de trevas etc.etc.etc.
– é um dos que mais me intrigam e
fascinam. O que a faz funcionar? É somente o cérebro ou é todo o conjunto de
órgãos, tecidos e células, em uma interação em que o mau funcionamento de uma
única peça dessa magnífica máquina de carne e osso compromete a normalidade do
todo? O que é a inteligência? O que é a racionalidade, que nos faz tão
diferentes dos demais animais? O que é genialidade? O que é loucura?
Mistérios!! Profundos e insondáveis mistérios!
Tudo o que se refere à inteligência sempre me intrigou,
fascinou e abismou. Houve um tempo, em minha adolescência, em que cheguei a
cogitar a ser médico e quase consegui. E, mais especificamente, sonhei ser
psiquiatra, para passar minha vida inteira estudando a mente humana, tanto sua
excelência, quanto seus desarranjos. E, principalmente, para aprender a como
identificar de verdade estes últimos e tratá-los, devolvendo sanidade aos
insanos. Não consegui, infelizmente, ser nem uma coisa e nem outra, embora
tenha chegado perto. Nem por isso, perdi o fascínio e o interesse por este “centro
de comando” do organismo humano.
Os dois extremos da mente foram os aspectos que mais me
intrigaram e fascinaram em particular: a genialidade e a loucura. Confesso que
ainda me intrigam e fascinam mais do que nunca. Ambos estão fora do padrão do
que é tido e havido como de “normalidade”. Todavia, o que é normal? De acordo
com os dicionários é “o que não é diferente”. É “o que é igual à maioria que
está ao nosso redor”.Em suma, é “o que não se destaca”, “o que é comum”. Acho paupérrima essa caracterização, mas por
não me ocorrer outra melhor, que seja isso. O parâmetro para a “normalidade”,
portanto, é o comportamento da maioria. Não pode, contudo, ocorrer que esta
tenha problemas e que apenas uma minoria não seja doentia ou aberrativa? Deixo
a pergunta no ar.
Alguns escritores consideram a genialidade como forma de loucura, por fugir do padrão de
normalidade consensualmente estabelecido como parâmetro de aferição. Citam como
prova alguns comportamentos bizarros e exóticos de personalidades tidas e
havidas como “gênios”, tais como o matemático norte-americano John Nash; o
fundador da Microsoft, Bil Gates; o compositor alemão Amadeus Wolfgang Mozart; o
pintor holandês Vincent van Gogh; o escritor francês, Gustave Flaubert, o
físico alemão Albert Einstein e vai por aí afora, passando pelo romancista
russo Fedor Dostoievsky e pelo nosso “Bruxo do Cosme Velho”, Machado de Assis.
Todos foram brilhantes em suas atividades. Todos, porém, agiam de maneira
bizarra, com suas manias e obsessões, de forma além do padrão de normalidade.
Foram loucos? Ora, ora, ora...
Pitoresca é esta observação de Fernando Pessoa – ele,
também, genial em seu “métier”, mas exótico no comportamento: “A loucura, longe
de ser uma anomalia, é a condição normal humana. Não ter consciência dela, e
ela não ser grande, é ser homem normal. Não ter consciência dela e ela ser
grande, é ser louco. Ter consciência dela e ela ser pequena é ser desiludido.
Ter consciência dela e ela ser grande é ser gênio”. Em suma, conforme a opinião
de Fernando Pessoa, loucura é que é a “normalidade”, variando, somente, em
intensidade e formas de manifestação. É, mais ou menos, a conclusão que
extraímos do magnífico e intrigante conto de Machado de Assis, “O alienista”.
Fossem, todos os tidos por loucos, confinados e segregados do convívio social,
o mundo seria enorme hospício. Será? Tenho lá minhas dúvidas.
Estou mais propenso a concordar com a opinião do romancista
norte-americano William Faulkner, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de
1949, que opinou a propósito, num texto intitulado “Na minha morte”: “Às vezes
não tenho tanto a certeza de quem tem o direito de dizer quando um homem é
louco e quando não é. Às vezes penso que não há ninguém completamente louco tal
como não há ninguém completamente são até a opinião geral o considerar assim ou
assado. É como se não fosse tanto o que um tipo faz, mas o modo como a maioria
das pessoas o encara quando o faz”.
Há quem vá mais longe e garanta que todo escritor é, de
certa forma, “louco”. Por que? Por fugir do padrão de normalidade estatuído. Os
que pensam assim asseguram que a Literatura não passa de fruto de um tipo de
esquizofrenia, de uma espécie de válvula de escape para a “loucura” desses
criadores de pessoas que não existem e de cenários e circunstâncias totalmente
inventados. Para mim, isso é demais! Prefiro considerá-los “gênios”, posto que
com graus diferentes de genialidade, porquanto, ao contrário dos insanos, não
fogem da realidade. Mergulham de cabeça nela e vão além, de tal sorte, que
criam até uma “hiperrealidade”. O tema, como se vê, é vasto e polêmico e
apresenta muitos ângulos, por isso, proponho-me a voltar a ele oportunamente.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O louco em crise geralmente apresenta sofrimento mental. O gênio nem sempre sofre por ser gênio. Eu também me sinto atraída pela compreensão do funcionamento cerebral.
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