De mal em mal, mal-entendidos...
* Por
Lêda Selma
Novamente, ela, a moça
do norte – “Nortista, não, nortense, é mais chique!”, diz, com um sorriso
nacarado, sorriso de lua cheia, espalhado no rosto –. Morena-tamarindo, de boca
suculenta, lábios vermelhamente embatonzados, olhos falantes e sempre crispados
em olhos quase sempre perplexos. É a moça do norte, de franqueza escrachada e
nocauteante, com a palavra afiada sempre em riste, que não melhorou o
português, mas é com ele que diz o que quer, sem censura ou subterfúgios, mesmo
a quem não deseja ouvi-la; a moça que desejava “tê um fio”, mas que o apelo da
maternidade não foi capaz de liberar o desejo da carne, exigente que era.
Assim, o filho nunca veio. Tampouco, a desilusão.
Um dia, a moça do
norte, já quarentona, resolveu ir à escola. E foi aplaudida por todos. Lá,
aprendeu um pouco do que devia, muito do que não queria e bastante do que não
precisava. Apesar disso, seu mundo, até então, do tamanho de um minúsculo
quarto de empregada, ganhou novas dimensões, cresceu, cresceu, virou às
avessas, e sugou seu mundinho fechado, sem varandas ou quintais, um mundinho cheio
de sombras e muralhas, cheirando a mofo.
Nele, não mais cabia. E, pelas janelas escancaradas à sua frente,
vaticinou novas trilhas e um sol que não conhecia. E caminhou, voando. Daí para
o curso técnico em enfermagem, um pulo, aliás, um salto e tanto.
O estágio pelos
hospitais da vida mostrou-lhe dificuldades não imaginadas. Ai, meu Deus, e o
pobre do português, já por ela tão maltratado? Nossa, ficou pior que jogador de
futebol contundido severamente: manco e troncho. Porém, a moça do norte, cheia
de propriedade, sentia-se, dia a dia, mais letrada e, mais ainda, doutorizada.
Para orgulho da família que, aqui e acolá, reverenciava tal ascensão,
respaldando-lhe os conhecimentos paramédicos, a competência e encantando-se com
suas façanhas cantadas e requentadas a toda plateia atenta:
– Hoje, lá no Inspital
Genial de Goiânia, um véi diabrético chilicou depois de ter um troço. Ah! vi
logo que devia ser enemia, claro! Oceis diabréticos não têm o sangue raleado?
Então...
Nesse “oceis”, estava
eu incluída, naturalmente. Bem, de pronto, corrigi o nome do nosocômio,
trocando “Inspital Genial” por Hospital Geral. A “enemia” e o “diabrético”,
tentei remendar, acho, em vão. E que o padroeiro dos idiomas mutilados não se
distraísse tanto, supliquei. Se possível, até um plantão extra, amém! E que
viesse o próximo estágio...
– Sabe o véi
diabrético? Pois é, vazou!
– Fugiu do hospital,
ou recebeu alta!
– Que o quê, morreu
mesmo! Alta eterna.
Aparvalhei-me com
tamanha singeleza ao falar de algo sério e triste. Ela nem se abalou. E
filosofou convicta:
– Se tamo aqui por um
favor, um empréstimo de Deus, já sabemo que não é pra sempre...
Preferi silenciar-me
ante tão imperativa e lógica postura que, óbvio!, não se conecta à minha,
sempre revestida de muita emoção. Contudo, como as diferenças alimentam as
relações, que assim seja, conformei-me.
Não tardou muito, a
moça do norte, autoconsiderada letrada e doutorizada, admirada pela família,
pelos amigos, vizinhos e adjacentes, após mais um estágio...
– Ih! hoje a doenceira
foi lá no Sanitário... que nome mais esquisito, desconjuro!
– Não seria Sanatório,
criatura? – interferi.
– Parece que é isso
mesmo. Pois é, tinha um doente na UTI, muito grave, e, logo que estatelei os
olhos nele, percebi a morte lá, sentada bem do seu lado. A gente sente quando a
fatídica ronda o doente e, por isso, falei bem claro pro doutor:
– Acho que esse
morrebundo tá precisando é de um médico otorr... um médico de ouvido.
– De ouvido? O
problema dele é no pulmão.
– Pode até ser, mas
que ele tá surdo, tá: Deus chama, chama, chama e ele não escuta, ora!
* Poetisa
e cronista, licenciada em Letras Vernáculas, imortal da Academia Goiana de
Letras, baiana de Urandi, autora de “Das
sendas travessia”, “Erro Médico”, “A dor da gente”, “Pois é filho”, “Fuligens
do sonho”, “Migrações das Horas”, “Nem te conto”, “À deriva” e “Hum sei não!”, entre outros.
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