Crônica de Carnaval
* Por Machado de Assis
4 de Fevereiro de 1894
QUANDO
EU Li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É
crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o
mundo acaba. Rir não é só le propre de l'homme, é ainda uma necessidade dele. E
só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à
maneira de deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.
Não
veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem
guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros
cobertos de flores e mulheres, e as roupas de veludo e cetim. A única veste que
poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora
os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por
ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda
religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um
simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas
pouco a pouco a moda pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas,
pedras e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as
senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há
25 anos uma minoria ínfima. Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com
chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro
das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um
só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas
variadíssimas.
Não
admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência
da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao
colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não
fazemos mais que repisar as mesmas coisas e andar no mesmo círculo; e o
Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há vir. Com
autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e
costureiras. Um colar apenas, matéria simples, na mais; quando muito, nos
bailes, um simulacro de gibus pede com graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a
polca das miçanga. Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e
quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos
dois ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta
polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!
Como
se disfarçarão os homens pelo carnaval quando voltar a idade da miçanga?
Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Notícias escreverá por esse
tempo um artigo, em que dirá:
Pelas
figuras que têm aparecido nas ruas, terão visto os nossos leitores Onde foi,
séculos atrás, já não diremos o mau gosto, que é evidente, mas a violação da natureza,
no modo de vestir dos homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que
são a própria epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas
vestiduras perversas, falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa
aperfeiçoar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o
lenço; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um
tecido de quatro pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente
imprestável, desde que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um
exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar uma idéia viva da diferença das duas
civilizações, publicam um desenho comparativo, dois homens, um moderno, outro
dos fins do século XIX; é obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o
nosso excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.
Que
não possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compará-las, e repetir os ditos
do Eclesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a
civilização mudará outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela
outra Petrópolis, capital da vida eterna. Lá ao menos há fresco, não se morre
de insolação, nome que já entrou no nosso obituário, segundo me disseram esta
semana. Não se pode imaginar a minha desilusão. Eu cria que, apesar de termos
um sol de rachar, não morreríamos nunca de semelhante coisa. Há anos deram-se
aqui alguns casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser isso;
mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina.
Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; também se morre de
insolação. Morreu um, morrerão ainda outros. A chuva destes dias não fez mais
que açular a canícula.
De
resto, a morte escreveu esta semana em suas tabelas, algumas das melhores
datas, levando consigo um Dantas, um José Silva, um Coelho Bastos. Não se
conclui que ela tem mais amor aos que sobrenadam, do que aos que se afundam; a
sua democracia não distingue. Mas há certo gosto particular em dizer aos
primeiros, que nas suas águas tudo se funde e confunde, e que não há serviços à
pátria ou à humanidade, que impeçam de ir para onde vão os inúteis ou ainda os
maus. Vingue-se a vida guardando a memória dos que o merecem, e na proporção de
cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.
Essa
há de ser a moda que não acaba. Ou caminhemos para a perfeição deliciosa e
terna, ou não façamos mais que ruminar, perpétuo camelo, o mesmo jantar de
todas as idades, a moda de morrer é a mesma ... Mas isto é lúgubre, e a
primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, mormente em
dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princípio e o fim da
crônica. A razão de o não termos este ano, é justa; seria até melhor que a
proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se
pode pensar em tudo.
Machado
de Assis, crônicas publicadas em A semana. Machado de Assis, Obra Completa,
vol. III. Editora Nova Aguilar.
* Poeta, romancista,
contista, cronista, fundador da Academia Brasileira de Letras
Nenhum comentário:
Postar um comentário