Pensamentos dialéticos continuam
* Por
Eduardo Oliveira Freire
Depois dos últimos
acontecimentos em Paris e da discussão sobre terrorismo, liberdade de expressão
e democracia, as autoridades francesas detiveram o humorista Dieudonné .
Condenado por antissemitismo, ele, que liderou uma corrente que se
autoidentifica com uma saudação pseudonazista, publicou no domingo mensagem no
Facebook que dizia “Eu me sinto Charlie Coulibaly”.
O humorista não fez a
mesma coisa que os chargistas franceses? Cadê a liberdade de expressão e a
democracia?
Lembrei-me de um texto
antigo meu que abordou um pouco essas questões. Na época, tive muito mais
dúvidas que conclusões e anos depois, os questionamentos continuam. Como
compreender a verdade, se o mundo é um labirinto de janelas para outros
olhares?
***
Quando soube que uma
obra de arte (“Desenhando em terços de Márcia X”) foi censurado na exposição “ERÓTICA” no CCBB, achei besteira, à primeira vista. Só
porque a artista desenhou pênis com terços. Mas depois, me lembrei de que não
concordei que um jornal europeu publicou a imagem de Maomé, pois, para o mulçumano, isso é uma blasfêmia. Sempre
achei que eles eram injustiçados pelo ocidente. Estou sendo contraditório. Mas
o ser humano não deixa de ser ambíguo.
O que é liberdade de
expressão? Ela não muda de acordo com pontos de vistas diferentes? Atualmente
acho tudo tão complicado, pois tudo se refere a valores subjetivos que são
influenciados por um contexto histórico.
Quando eu fui à
exposição, vi diversas manifestações, desde artefatos das civilizações antigas
a artistas contemporâneos. Então, se colocasse um quadro em que mostrasse um
fetiche masoquista, um nazista violentando uma judia, não chocaria? Mas não é
uma representação artística? Muitas pessoas não sentem prazer na dor? Erotismo
não mexe com os sentidos e sensações?
Por outro lado, muitos
são adeptos da arte pela arte. Ela tem que ser livre, sem restrições sociais,
econômicas e políticas. Contudo, não
precisa haver limites, para que cada um respeite o espaço do outro? Quanto mais
penso não consigo ter uma opinião e sim mais dúvidas.
Li artigos e opiniões
sobre a censura do quadro da exposição erótica. Minha cabecinha ficou
embaralhada com tanta informação. Não sei o que escrever. Aí me perguntam, por
que escreve então? Leia mais. Mas, preciso colocar na tela do computador. É uma
forma de me organizar.
O artista muitas vezes
não está à frente do seu tempo? Vladimir Nabokov, quando escreveu Lolita,
escandalizou muitas pessoas na época. Apesar de contar a “história de um
pedófilo”, o livro faz uma crítica sarcástica e impiedosa da sociedade
americana de consumo e a hipocrisia da época. O escritor foi transgressor.
O papel da arte não é
esse? Construir visões críticas e reflexivas sobre o mundo? Entretanto, não
precisa ter um limite, para que não agrida os valores dos outros? O que fazer? Sinto-me tão contraditório, que
me perco nos meus pensamentos dialéticos.
*
Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante
a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/
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