Não me identifico com Charlie. Je ne suis pás
Charlie
*Por Rosinha Martins
A chacina recentemente acontecida em Paris contra o Charlie Hebdo, tem
me dado uma coceira na língua e uma vontade inquieta de usar a minha liberdade
de expressão para dizer o que penso sobre o ocorrido que é, a meu ver,
sintomático.
Primeiro, gostaria de recordar como fui educada: dentro de uma cultura
católica tradicional mineira, pais católicos, dez irmãos. Fato é que aprendemos
a andar e a falar com papai e mamãe ao nosso lado sempre nos instruindo sobre o
que é preciso para ser feliz: A fé, valores humanos como o respeito pelo outro,
limites, honestidade, a verdade, gestos de delicadeza e educação como “a sua
bênção” “bom dia”, “por favor”, “obrigada”, “desculpe-me”... Não quero dizer
que esse jeito mineiro de educar é o melhor, mas verdade é que meus irmãos e eu
somos muitos felizes devido, com certeza, à educação que tivemos.
O que quero dizer com isto? Que é na família, base fundamental da
sociedade para o nosso bem-viver, que se aprende a ser humano. Não
nascemos humanos, nos tornamos humanos e, valores e limites vêm de berço.
Liberdade de expressão para que e para quem?
Confesso que não contive as lágrimas diante da notícia de que colegas de
profissão foram mortos, sendo chamados pelo nome, sem o direito de defesa. Duro
de aceitar, não muito difícil de entender o que levou a um assassinato tão
cruel. E a imprensa em geral se perguntou sobre a liberdade de expressão.
Pensei com meus botões: Interessante, todos os jornais do mundo inteiro,
expressaram um único ponto de vista em relação ao massacre do Charlie. Nenhum
jornalista, nenhum meio de comunicação teve a ousadia de usar sua liberdade de
expressão para ajudar a sociedade a pensar nos 6,2 milhões de muçulmanos que na
sua maioria vivem à margem da sociedade na França, mantida como segunda classe,
numa situação que tende a piorar cada vez mais; não foi usada a liberdade de
expressão para exaltar o respeito ao outro, à religião do outro, a ética,
os valores.
De acordo com Plínio Zúnica “um
relatório do Observatório Europeu do racismo e xenofobia aponta que, na França,
a chance de alguém de origem árabe/muçulmana conseguir um emprego é cinco vezes
menor do que um caucasiano com as mesmas qualificações. Além disso, eles
possuem menos acesso à educação formal, vivem nas áreas mais sucateadas das
cidades e estão sujeitos a todo tipo de discriminação e violência física. O
relatório aponta o sentimento de desespero e exclusão social do jovem
muçulmano, que vê sua possibilidade de progressão social dificultada por
racismo e pela xenofobia”. Sofrimento
à parte, seria um momento excelente para chamar a sociedade à tolerância, ao
respeito às diferenças. Que maravilhoso seria se Charlie fizesse charges
apontando os pontos positivos do Islã, do Cristianismo, do judaísmo e de todas
as religiões que sempre foram seu alvo, aspectos que levam à igualdade, à
liberdade, à fraternidade, à justiça, à convivência fraterna!
O pensamento da Igreja
Eu esperava ansiosamente um pronunciamento de Francisco e respirei
aliviada quando li o que disse aos jornalistas numa conversa informal em uma
viagem aérea na Ásia: “É aberração matar, mas não se pode insultar a religião
dos outros”. Por assim se manifestar, o Papa já foi criticado em uma matéria da
Folha de São Paulo, intitulada “Francisco por que não te calas?”.
Vale aqui ter a capacidade de captar o que Francisco quer dizer: Acima
de tudo na face desta terra, o amor ao próximo, o respeito pelo outro, tão
esquecidos em nossa sociedade atual.
Em nome da liberdade de imprensa se pode passar por cima do outro e
eliminá-lo e colocá-lo à margem com uma caneta, porque é diferente, pensa
diferente. Ou por outro lado, também, por se sentir ofendido se elimina o
outro, faz com que se cale para sempre à base das armas. Tudo errado. O
ser humano é uma criatura muito especial, feita por Deus com muito amor, e essa
delicadeza exige respeito e amor mútuo, caso contrário a convivência no
planeta, fica insuportável. As diferenças precisam ser vistas como riqueza,
como beleza que faz deste mundo um espaço dinâmico, colorido e agradável de se
viver, graças à grandeza e sabedoria do Criador. A mensagem de Francisco é de
suma importância neste momento. A meu ver, ele deu um simples e fundamental
recado aos jornalistas para o exercício de suas profissões: ‘Sejam éticos’.
Je ne suis pas Charlie.
Eu não sou Charlie
Eu não sou a favor do terrorismo, sou a favor do direito de viver de
qualquer criatura elaborada pelo criador de maneira tão carinhosa e delicada.
Defendo a vida até das baratas, embora me causem horror, imagine de
um ser humano.
Je ne suis pas
Charlie. “Não sou Charlie”. Não posso
negar a minha crença, nem os valores ensinados com tanto esforço pelos meus
pais, pela minha fé católica. Para mim, as charges de Charlie, todas elas
relativas à religião e ao diferente, manifestam a incapacidade de criatividade,
pois sempre o tom é de ofensa, de brincadeira sem graça. Veja essas charges, a
mim, como católica fervorosa, causam
náusea. Me sinto ofendida. Eu fico sem palavras diante deste desenho. Confesso,
fico muda. A quem tem feito rir a sátira do Charlie? Ela anda na esteira de
qualquer piada racista. Aliás, toda piada tem fundo preconceituoso e incita a
intolerância ainda que sutilmente.
Como gostaria,
parafraseando o historiador Antonio Piber, que Charlie evoluísse, se tornasse mais criativo,
trouxesse à tona charge que faz as pessoas se sentirem felizes, valorizadas,
amadas, charges que incitem o respeito, a tolerância, a paz.
Vale lembrar que a
Igreja Católica da França, várias vezes, processou Charlie por se sentir
desrespeitada por sua sátira. Os extremistas, por sua vez, arranjaram outra
forma de denunciar a ofensa. Como diz Piber, “ninguém é obrigado a ser ofendido
calado”.
Ao dizer que não sou
Charlie, quero dizer que me causa espanto uma mídia seletiva que consegue
sensibilizar o mundo todo com o sofrimento de um grupo de cartunistas
franceses, de classe média, mas não conseguem ajudar a sociedade, os governos a
lutar pela cura do Ebola que tira a vida de milhares de africanos, que não
consegue sensibilizar e fazer o mundo se voltar para os haitianos que não
conseguiram reconstruir nem o país nem as pessoas desde 2010, uma mídia que não
consegue, com o seu poder de formar
opinião, movimentar o mundo para que acabem as guerras no Oriente Médio que
dizima as famílias aos milhares e milhões deixando tantas crianças mortas e
milhares de outras desestruturadas psicologicamente.
Voltemos os nossos
olhares para o Brasil: que lugar ocupam as populações ribeirinhas, as
pescadoras artesanais, os sem teto, os
doentes, as mulheres, as crianças sem escola, os migrantes, os pobres do nosso
país? A mídia não favorece à sociedade brasileira pensar na juventude, que é
assassinada e excluída, na população indígena que sofrem e morrem na defesa da
natureza e do seu habitat natural, numa
televisão totalmente branca em um país onde 70% da população é afrodescendente.
Onde estão os jornalistas negros? Onde estão os artistas negros? Por estas situações
a mídia não gera choro e nem indignação coletiva e nem leva a população às
praças. Ao dizer que não sou Charlie quero dizer: Eu não
sou Jornal Nacional, eu não sou
Folha de São Paulo, eu não sou Record, eu não sou Band, Je ne suis pas
Rede Globo. Essa mídia não me representa.
Um mundo carente da
ética da alteridade
Nascido em família
judaica, o filósofo Emmanuel Lévinas viveu os horrores do campo de concentração
e ali desenvolveu a teoria da alteridade.
Me parece especial
esta expressão do filósofo ao tratar do respeito ético pelo “outro-aí-comigo”:
"O rosto é significação, e significação sem contexto. Quero dizer que
outrem, na retidão do seu rosto, não é uma personagem num contexto. (…) Ele é o
que não se pode transformar num conteúdo, que o nosso pensamento abarcaria; é o
incontível, leva-nos além. Eis por que o significado do rosto o leva a sair do
ser enquanto correlativo de um saber". Abre-se, em definitivo, a dimensão
metafísica do rosto: o rosto é o que não pode ser conhecido, o que não pode ser
contido, mas o que, ainda assim, significa”. (Cf. E. LÉVINAS, Totalidade e
Infinito, p. 176). Isto quer dizer, o outro é diferença e mistério que exige de
mim uma reverência e uma capacidade de constante busca de conhecimento deste
mistério que se me revela de diferentes maneiras e gera um encanto pela beleza
escondida que a minha abertura deixa revelar.
Para Lévinas no rosto
do outro contém um imperativo categórico que a cada instante me
provoca: “Não matar”. Ao não aceitar a
diferença, pelo simples fato de sê-lo e não respeitá-la já estou matando-a,
assassinando-a. Se trazemos esse pensamento de Lévinas para as relações humanas
atuais encontraremos uma relação capenga, submersa na intolerância com o outro,
perceptível a cada momento que deixo de
empregar uma pessoa porque não condiz com o padrão de beleza imposto, porque porta alguma deficiência, por causa da
sua cor, quando excluímos do nosso
convívio o negro, o favelado,
tirando-lhes oportunidades, quando fazemos piadas com a loira, com o padre, com
o gay, com o judeu, com muçulmano... Imaginem quantos assassinatos cometemos,
sem sermos punidos. Punidos são os humilhados e ofendidos porque não têm voz
nem vez.
Pecado de omissão
Foi um verdadeiro
horror, lamento pelos meus colegas na
profissão, que morreram de forma tão brutal. Porém, a justiça francesa poderia
ter evitado esse massacre desde os primeiros processos abertos contra o
Charlie. Que a França reconheça isso e leve a sério o respeito às diferenças
para evitar que sangue e mais sangue seja derramado por pecado de omissão. Com
uma caneta, não se mata da forma física como estamos acostumados a assistir em
nossos tempos, mas uma caneta tem grande poder de matar e de incitar o ódio e
a violência. Por fim, concluo dizendo
que JE NE SUIS PAS CHARLIE e faço um
apelo aos meus colegas do jornalismo: sejamos éticos no nosso fazer,
incentivemos a paz com a nossa liberdade de expressão, pois não somos sozinhos
no mundo e a liberdade tem limite sim. J’ai fini.
*Rosinha
Martins é jornalista, missionária scalabriniana e assessora executiva da
Conferência dos Religiosos do Brasil
Até se pode dizer que é grandíssima parte, maioria até de descendentes de negros do Brasil, mas de onde tirou essa estatística de serem 75%? Não exagera querida, os defenda mas sem distorcer dados estatísticos reais....
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ResponderExcluirQue pena Sérgio que só este detalhe com possibilidade de equívoco(porque erramos, como humanos que somos), lhe chamou atenção num texto tão rico. Lamento.
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