A culpa nossa de cada dia
* Por
Raquel Castro
Quando estava na
faculdade, uma professora, comentando a poesia de Adélia Prado, disse que
carregávamos a culpa pela morte de Cristo. Naquele momento me senti ofendida,
pois eu não me sentia culpada pela morte de ninguém, ainda mais a morte de
Deus. No meu raciocínio, eu não podia carregar uma culpa pela qual eu não era
responsável. Ela respondeu que ontologicamente toda a sociedade judaico-cristã
ocidental vive sob o signo da culpa e que isso independe da nossa aceitação. Na
hora, eu não compreendi, estava mais preocupada em negar. Já havia ouvido
aquilo pelo menos outras duas vezes, de Nilton Bonder e Zigmunt Bauman. O
primeiro um rabino, o segundo um sociólogo ateu. Mas nunca soube, de fato, o
que era viver sob a culpa cristã, até esse momento. Não é que eu não
compreendesse a ideia, é que ela me dizia muito pouco, pois eu não a
reconhecia. Só agora, depois de todos esses anos, sou capaz de intuir o que
minha professora tentava, em vão, explicar naquela agradável aula de filosofia
literária.
Todos os dias, no fim
da tarde, numa rua central e muito movimentada da Tijuca, vejo um mendigo que
tenta interagir com as pessoas que transitam pelas calçadas. Ele passa a maior
parte do tempo sentado em frente a uma drogaria, pedindo pão. Isso mesmo. Ele
pede pão. Aquele cotoco de homem se desloca de um lado a outro no seu minúsculo
espaço de calçada, equilibrando-se nos braços – porque não tem pernas –
suplicando pão a todos que passam. As pessoas circulam com pressa, esbarram
umas nas outras e nitidamente se afastam ao ver a figura grotesca daquele
homem. Preferem invadir a rua a colidir com o mendigo. Outros ignoram tão
veementemente que chegam a esbarrar no homem e continuar andando, sem um pedido
de desculpas. Lá pelas tantas, ele irrompe num grito insuportável “Me dá um
pedaço de pãaaaaaaaaaaaaaaaaaaao!” que chega a assustar os mais desavisados e
só assim ele consegue romper a barreira da indiferença, mas nem por isso ganha
o tão almejado… pão.
Na mesma medida em que
ele grita, a vergonha se apodera de mim. Demorei um tempo a perceber que a
vergonha era menos pela sua fragilidade do que pela minha, pois toda vez que o
vejo me sinto culpada por não ajudá-lo, culpada por fazer uma força imensa para
ignorá-lo, culpada por sentir culpa. Observo as pessoas no seu vai e vem e
penso se é só a mim que ele incomoda. Ironicamente, me sinto culpada pela minha
própria fragilidade, por não ignorar. Muitos acreditam que se o ajudarmos ele
vai se acomodar e não vai sair dali. Essa certeza os mantêm indiferentes e
seguros, mas eu fico dividida entre ajudar – e mostrar a todos a minha
fragilidade – ou em conviver com essa situação perversa. Tenho vergonha, porque
a fragilidade dele expõe a minha fragilidade.
Esse homem revela
duplamente em sua dantesca figura a condição de desamparado e doente. Dois
estigmas que a sociedade atual insiste em ignorar. Nesse tempo de extrema
valorização da vida saudável, adoecer parece ser tomado como uma fraqueza de
caráter, não de corpo. Se o indivíduo adoece, a mensagem é que ele não se
cuidou, não fez a sua parte, portanto, é constante a sensação de culpa quando
se adoece. Tomamos para nós mesmos a responsabilidade única e exclusiva sobre
nossa saúde, pois assim somos educados a fazer. Quando adoecemos, somos como
esse mendigo: persona non grata, peça inútil nesse mundo globalizado e em
constante movimento. Intensamente conectado, mas extremamente excludente.
O que esse homem
conseguiu me ensinar, nem a minha querida professora, nem os grandes estudiosos
da pós-modernidade conseguiram. Ele me
ensinou que todos somos, em certa medida, culpados pela nossa ignorância. Esse
ser mutilado revela a todos a nossa condição de interdependência e nos lembra
de uma fragilidade a todos iminente, mas escamoteada a todo custo. Olhar esse
homem é se confrontar com a própria condição humana: somos frágeis, imperfeitos
e inacabados. Ele nos faz reconhecer a culpa não pelo mal que um dia fizemos,
mas sim pelo bem que todos os dias deixamos de fazer. Mea culpa, mea culpa, mea
maxima culpa!
PS: Essa crônica foi
escrita no final do ano passado e só agora publicada, de modo que não sei se o
homem permanece no mesmo local, mas a culpa continua aqui em todos os momentos
em que transito pelo Rio de Janeiro e me deparo com realidades como essa, cada
vez mais frequente.
* Escritora,
residente em Perth, Austrália
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