Ao sabor das emoções
* Por
Pedro J. Bondaczuk
O Natal tende a me tornar mais emotivo
do que normalmente já sou (e olhem que sou um feixe ambulante de emoções, com a
sensibilidade à flor da pele, embora raros dos que me conhecem se dêem conta),
tanto do lado positivo, quanto do negativo.
Lembranças de pessoas queridas –
distantes ou que já morreram –, dos meus pais, de parentes, de amigos e de
tantas mulheres que amei – me afloram, irresistivelmente, à memória, logo pela
manhã, e teimam em ficar comigo o tempo todo, sejam quais forem as
circunstâncias do dia, até conciliar o sono, já alta madrugada, me despertando
saudades, tristezas, ternuras e uma gama de outros tantos sentimentos que sequer
consigo identificar.
Simultaneamente, a revolta, que
mantenho represada o ano todo, contra tudo o que vejo de errado no mundo no meu
dia-a-dia, – e vejo muitas e muitas coisas, até em decorrência da profissão que exerço, que me obriga a estar
sempre bem-informado sobre tudo o que acontece – subitamente vem à tona, de
forma incontrolável, e se mistura com as outras emoções, deixando a cabeça em
ponto de explosão. É quando aquela imagem do jornalista frio, insensível e até
um tanto cínico, que fazem de mim, cai por terra.
Pudesse, como a maioria das pessoas,
gozar plenamente o feriado, não haveria maiores problemas. Mas ainda não posso.
Talvez jamais venha a poder. As coisas, em passado nem tão distante, quando era
editor de jornal diário, eram bem mais difíceis. As vésperas do Natal, e a
própria data, eram, para mim, as ocasiões mais trabalhosas do ano. Era a época
em que recebia encomendas e mais encomendas para produzir textos alusivos à
data, de jornais e sites de várias partes do Brasil e até do exterior. E todos
os queriam exclusivos. E todos os queriam originais. E todos os queriam
equilibrados. E todos os queriam inteligentes e atrativos. Haja criatividade! Mas
como me concentrar com tamanho turbilhão de sentimentos? Hoje ainda recebo
essas encomendas, mas em menor quantidade.
Todos os anos, porém, ainda é o mesmo
drama. Quem já teve a incumbência de escrever uma única crônica de Natal sabe o
quanto é difícil ser original e não descambar para a pieguice. Quase tudo o que
se possa escrever sobre o assunto alguém já escreveu em alguma época ou lugar.
O tema é dos mais complicados para qualquer redator, seja jornalista, escritor
ou publicitário. É um campo minado para a criatividade, verdadeiro terreno de
areia movediça no qual, se não tivermos cautela, iremos, fatalmente, submergir.
Se um texto do tipo já é um parto da montanha, imaginem, então, o tamanho do
pepino, ao ter que escrever de oito a dez diferentes, sobre o mesmíssimo
assunto! E, ainda mais, com a cabeça cheia de lembranças e de emoções
desencontradas!
Tempos atrás, quando trabalhava no
Correio Popular, reitero, era pior. Nas duas décadas que permaneci no jornal,
nunca tive um único Natal de folga, para desespero da mulher e dos filhos. Meus
plantões caíam, invariavelmente, nessa data. Quando voltava para casa, alta
madrugada, a ceia já havia acabado há tempos, os convidados já tinham ido
embora, deixando-me presentes e votos de felicidade, e a família já estava
dormindo. Restava-me tomar banho, requentar o prato feito deixado no microondas,
jantar na companhia dos fantasmas e recolher-me, cheio de cansaço e de
lembranças (doces e amargas ao mesmo tempo), sem tempo e disposição sequer para
lamentações.
Ossos do ofício! O que fazer? Agora as
coisas são diferentes. Mas só um pouquinho. Mudou o lugar em que exerço o meu
ofício de “escrevinhador”. Em vez da redação do jornal, o local em que busco garantir o pão nosso de
cada dia é o meu gabinete particular de trabalho, aqui em casa. Às vezes, é até
pior.
Por mais despojado que seja o ambiente,
cada objeto que me cerca é uma lembrança viva a tirar a minha concentração. O
próprio computador, no qual redijo os textos, é presente de Natal da minha
filha mais velha, a Tatiana. Quase nada no cômodo – à exceção da maioria dos
mais de quatro mil volumes da minha caótica biblioteca – foi comprado por mim.
Tudo foi mimo de alguém que gosta de mim, que se importa comigo, que quis me
agradar: a caneta, os óculos de leitura, o cinzeiro, o relógio de parede e a
própria escrivaninha, entre outras coisas.
Foi nessas circunstâncias, e com os já
descritos sentimentos e emoções, que redigi esta insólita e queixosa crônica.
Como se vê, apesar de amar, de paixão, meu ofício, a vida de jornalista (e
muito menos a de escritor) não tem nem um pouquinho do glamour e do charme que os
que não são do ramo lhe atribuem. Antes tivesse! Feliz Natal, antecipado, para
todos!
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Ficou bonito o logotipo novo.
ResponderExcluirDesapontou, porém gostei muito da seguinte frase: "me despertando saudades, tristezas, ternuras e uma gama de outros tantos sentimentos que sequer consigo identificar". Ela já me valeu a leitura, por original e verdadeira.
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