Você é um Quixote de la Mancha?
* Por
Isabel Furini
Será que o Quixote de
la Mancha é somente um personagem criado por Cervantes na sua novela, ou
deveríamos dizer no primeiro romance que o mundo conheceu, como alguns
consideram a obra?
Há poucos dias, ouvi
dizer a uma pessoa desiludida que o Quixote não existe mais. Não existe. Está
passado de moda. Escondido em um baú escuro e úmido. O Quixote é coisa do
passado.
Será? Ou talvez nossos
olhos não foram treinados para descobrir os Quixotes nas ruas da cidade, nos
barzinhos do Largo, nas salas do Belas Artes, diante de um quadro no Museu
Niemeyer, na livraria de usados buscando um título quase desconhecido, na noite
de autógrafos lançando um livro para meia dúzia de pessoas, encostados nos
vidros das agências de turismo olhando os cartazes com os olhos do desejo,
procurando um vestido de noiva em algum atelier, olhando uma bola de futebol e
sonhando.
Interessante que eu não
consigo ver o Quixote encaixotado em um gênero literário, abarrotado de
estúdios literários, morto.
Eu vejo o Quixote, ou
os Quixotes todos os dias: é o poeta que vende seu livrinho feito por
computador na rua da Flores, é o ator de teatro que quase morre de fome, mas
persiste esperando o êxito de sua próxima peça. É o recém formado que sonha com
fazer uma pósgraduação na Europa ainda que esteja desempregado no momento. É o
empreendedor que inicia um pequeno negócio, mas ele sonha que terá éxito
internacional. É o esportista sentado no banco de reserva, mas sonhando com um
jogo fantástico. Céus! Este é um mundo de Quixotes! E de Sanchos!
Quixote enlouquece,
outros bebem nos bares, fumam ou ingerem substância proibidas, são os Quixotes
que chegaram ao límite de suas forças. Não conseguem mais sonhar sozinhos. E
não adianta que uma sociedade materialista, doente, consumista e hipócrita
julgue os outros – não sem antes se olhar o verdadeiro rosto no espelho. E não
falo dos dentes brancos depois de tratamento, nem do rosto de photoshop, falo
do verdadeiro rosto – esse que escondemos dos vizinhos. Já falava Jung que
quando mais reprimimos “a sombra”, mas ela se fortalece.
Vivemos em um mundo de
sonhos desconcertantes e de realidades desconcertantes. Um mundo de vazio
existencial, de medos, de máscaras, de fantasias. Um mundo de palavras e
imagens. Um mundo no qual os Quixotes nascem, crescem, envelhecem, morrem e nem
sempre conseguem realizar os seus sonhos. Eles deixam algumas sementes de
ideias. E novos Quixotes nascem e tomar o lugar daqueles que se vão. Como lemos
na letra “ The Impossible dream” “Tentar com os braços exaustos alcançar a
estrela inalcançável”. É isso mesmo. Sonhar e batalhar. É sempre amanhã que os
sonhos podem ser realizados.
* Isabel Furini é
escritora e poeta premiada, autora de “Eu quero ser escritor – a crônica”, do
Instituto Memória, Curitiba.
Nenhum comentário:
Postar um comentário