Tirando da gaveta
* Por
Abílio Pacheco
Acordou com idéia fixa,
mas evitou a decisão precipitada. No criado-mudo, guardava seus textos: poemas,
contos, romances iniciados, um quase no fim.
Passou o dia pensando
na decisão. Não poderia ser algo fruto apenas do impulso. Mas estava decidido
que não passaria desse dia. Na hora do almoço, sentou-se à beira da cama. Olhou
demoradamente antes de se inclinar e abrir a primeira gaveta. Nas últimas
vezes, apenas pusera uma bola de naftalina em cada.
Desta vez, não. Há
muito tempo já deveria ter resolvido tirar dali os manuscritos e dar-lhes o
destino merecido. Não havia porquê esperar. Junto-os todos do jeito que estavam
e desceu às pressas as escadas que levavam à varanda. Antes que capitulasse,
jogou tudo num dos tonéis de lixo e ateou fogo.
*
Professor universitário de literatura (UFPA-Bragança). Autor do romance “Em
Despropósito (mixórdia)”, do livro de poemas “Canto Peregrino a Jerusalém
celeste”, ambos pela Editora LiteraCidade. Atualmente cursa o doutorado em Literatura
(THL-UNICAMP) e é Assistente Editorial (freelancer).
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