Miró, o poeta que não aparece em Febre do Rato
* Por
Urariano Mota.
“Eu fiquei bastante
triste por Cláudio Assis não o ter colocado no filme Febre do Rato. Eu disse a
ele que era uma injustiça”, falou Zizo, citando Miró, poeta marginal, que
inspirou o filme mas não aparece na
tela. (Dos jornais de 22 de junho de 2012)
Senhores e senhoras,
temos a grata satisfação de falar sobre Miró. Sobre ele é quase inútil procurar
informações no Google, porque entre os 47.000.000 resultados no máximo 4 se referem ao particular Miró que lhes
apresento agora. De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o poeta Miró
nasceu no Recife há 52 anos. Mas nada do seu nome artístico vem do mais
conhecido, o grande, um certo criador Joan, da convivência de João Cabral de
Melo Neto. Não. Esse Miró, esse nome nobre… – e já sinto no ventre a cutilada
do poeta – “todo nome é nobre” – essa denominação vem de outras plagas nobres.
Vem de lá dos subúrbios do Recife. João Flávio foi transformado em Miró pelos
amigos, porque lembrava ao jogar o bom Mirobaldo, um craque da pelota do Santa
Cruz Futebol Clube. No tempo em que o maior talento de João Flávio era o
futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró, forma reduzida de Mirobaldo, que
se pronuncia com a vogal “o” aberta na fala nordestina. Depois, na fase em que assumiu o jogo mais
raro e difícil da poesia, ele achou por bem continuar assim, Miró, para melhor
sorrir no íntimo com os dentes claros, diante de quem o confunde com o pintor
catalão.
Em um mundo globalizado
conforme a ótica WASP, Miró é um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as
senhoras ladies e os senhores gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na
universidade. Pelo menos, para assistir a lições como estudante universitário,
nunca. E, continuem a imaginar, isso lhe faz nenhuma falta, devíamos mesmo
dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê e se educa em obediência a uma
ordem que não está no currículo de uma tradição estéril. A quem não o conhece,
a sua pessoa, física, guarda uma grata e grada graça: Miró tem a pele escura,
e, ladies and gentlemen, não finjam por favor naturalidade. Mesmo em um povo
mestiço, Miró é uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo no Brasil, têm uma
estranha gradação na cor da pele da sua sensibilidade. Quanto mais claros, mais
poetas. Quanto mais escuros, mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas,
mais jogadores de futebol. Daí que faz sentido o poeta Miró vir de Mirobaldo, o
craque do Santa Cruz Futebol Clube. Pero a melhor surpresa de Miró vem da sua
poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como já o acompanhamos em um auditório
de teatro.
Todos nós aprendemos,
ou fomos como bons estúpidos para isso educados, que o poema realiza a poesia
nas suas linhas. Ou, se quiserem, o poema não precisa da pessoa do poeta – a
certeza única e exclusiva do seu valor está no que escreve. Certo? Senhores e
senhoras, ladies and gentlemen, senõres y señoras: – Errado. Quem não viu Miró
declamar os seus poemas não sabe o quanto esse conceito, preconceito, esta
burrice ancestral está errada. Aquela justa observação feita por Manuel
Bandeira à poesia de Ascenso Ferreira, no trecho
“Não me lembro se antes
de me avistar pela primeira vez com Ascenso Ferreira eu já tinha conhecimento
dos seus versos. Como quer que fosse, eles foram para mim, na voz do poeta, uma
revelação. Pois quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir,
dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades verbais
neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor” aplica-se também à
poesia de Miró. Com alguns câmbios. Mirem. Onde Ascenso Ferreira realizava no
recitar um uso extraordinário da voz, da modulação ao acento, do corte da
sílaba à ênfase, como dizê-lo?, uma utilização da voz como um ator de rádio,
(“Ascenso tinha a voz de Deus”, na lembrança do escritor Talis Andrade), Miró
usa a imagem, física, melhor dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz
evoluções pelo auditório, como um cantor
de rap, quase diríamos. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas,
esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a
assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um alistamento,
nos enfiasse a realidade cara a dentro:
- Tomem poesia, seus
filhos da puta!
A plateia, divertida,
sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como aqui:
“Tinha
lido num livro de autoajuda, de um
desses
psicólogos
De
araque, que aparecem nesses
programas
matinais que dão
Receitas
pra tudo, inclusive de bolo,
Que
na hora que a vida vira uma merda
O
melhor é sair da fossa”.
Ou
nestes versos
“Acho
que foi a primeira vez que conheci a dor
Um
domingo de 1971
Naquele
tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha
mãe fazia um macarrão com carne de
lata
e Q-suco
Ficávamos
brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra
provar que éramos felizes….
Norma
era tão linda com seus cabelos
negros,
Que
me deu um branco aos 11 anos
Quando
me pediu um biscoito maizena e um
gole
de fratele vita ….
Domingo
era o dia mais feliz
Antes
de Norma beijar um outro na boca”.
A plateia, o distinto
público, vai ao delírio. De rir, de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do
nível social do auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria é cômica.
A maior comicidade é a desgraça que não sentimos na própria pele. A dor que não
é a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen, como é
cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em algum lugar deve estar observado que o riso é manifestação
pela desgraça alheia. O riso atesta a nossa superioridade ante o ridículo que
não nos alcança. Quem jamais bebeu “sucos” em pacotinhos de pó, de “morango”,
de “uva”, com açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas em um
país tropical, acha isso irresistivelmente cômico.Quem jamais saboreou carne
enlatada no país de maior rebanho bovino do mundo, quem jamais pôde sentir o
sabor, o gosto e a maravilha da carne Swift, da carne da Wilson, com macarrão
rubro de colorau aos domingos, porra, que piada genial é esse macarrão se
transformar no dia da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que
tem o amor, quando a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o
biscoito miserável de maisena. Caralho, esse cara é do peru! E Norma beija um
outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você é demais,
cara!
O poeta gira em torno
da assistência. A sua arma, a sua graça e cômico é a verdade. Aquelas coisas
mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo
louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma
sensibilidade que observa o inobservável.
“Já
perceberam como tem pontas de
cigarro
em pontos de ônibus?
Tem
uma tese de um amigo que diz:
Que
as empresas de ônibus são
responsáveis
por 5% dos cânceres de
pulmão.
Curioso
perguntei, como assim?
É
que os ônibus demoram”.
Ou
mesmo, vejam que engraçado:
“O
amor passou na tarde
Com
a mão direita sobre o ombro de um
filho
com síndrome de Down …
Aldeota,
um jumento espera inquieto a
volta
do seu dono que foi tomar uma
sopinha
com pão, com o dinheiro das
migalhas
que catou.
E
eu fiquei tão emocionado,
Que
não consegui escrever mais nada”.
A recepção da plateia a
essas coisas é vê-las apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e
trash, de um maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre
essa miséria como um bárbaro sem educação. (Nós, os cultos. Nós, os que, se
algum dia fomos dessa desgraça, bem que a superamos. Nós, os de outro mundo.
Nós, os limpos, cleans e educados.) O
poeta gira, e deixa a aparência, como um bom gira, de fazer também uma rotação.
Então ele declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a
expectativa do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima em torno da
sua performance não permite a degustação, a permanência que tem a beleza, a que
sempre por necessidade voltamos. Então ele fala, enquanto o público espera dar
mais uma risada, então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã
pude sentir, ao ler e mastigar e ruminar como as cabras mastigam e ruminam uma
erva muito amarga. Este poema não precisa do poeta. Da sua pessoa. Basta uma
sensibilidade.
“Deus,
Tu que agora carregas um homem,
Puxando
pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos
de cimento
De
cada lado um sol insuportável …
Deus,
Choves
agora no meu coração
Para
que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas
de balas
E
fazer justiça com as próprias mãos.”
Esses versos
preencheram toda esta manhã de hoje. Dormiram e não saíram do peito todo este
dia. Talvez porque nos tenham recordado de outro João, de Os corações
futuristas, que pleno de álcool em 1973 também se sentiu impotente e louco por
justiça.
Deus,
choves agora no meu coração
Para
que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas
de balas
Senhoras e senhores,
assim é Miró, o poeta que não apareceu no filme Febre do Rato.
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”,
cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de
Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.
Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios
brasileiros.
Fui lendo e me lembrando de uns amigos poetas. Há quem declame tão bem quanto o seu amigo Miró.
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