Lã de boa ovelha
* Por Laís de Castro
Naquela tarde
me mantive no quarto
de piso de tacos ,
com uma cama
e uma escrivaninha além
do armário simples
de duas portas , como
um monge
numa cela de convento ,
instaurando uma diligência interior para , ao mesmo tempo , entender o fato extrao rdinário daquela tarde e purgar meu pecado não cometido.
Naquela noite
não pude visitar
a namorada viçosa
e com cheiro
de flor , fiquei envolto
no cobertor , os olhos
parados no branco da parede , sentado e abraçado às pernas
como se elas
pudessem me proteger
de um tiro
que viria daquele lado .
E a maldita parede
branca projetava numa tela aquele rosto , que
continuava vindo para mim .
Tomei um calmante
faixa preta ,
uma paulada na cabeça ,
ainda bem que estudava medicina e tinha acesso a todo tipo de droga . No dia seguinte acordei atrasado, perdi as primeiras aulas , parecia que
um corvo
tinha comido os meus
olhos de tão
fundos que
eram.
Na faculdade ,
inventei uma doença para
os colegas , uma ressaca ,
uma crise hepática ,
uma enxaqueca insana
que me
perseguia. Tinha espantado o fantasma . Fui me
recuperando devagar , não sem ansiedade e o medo desgraçado de ver a figura de novo . Se o dia amanhecia lindo
e o céu azul ,
não tirava os óculos
e não passava naquela esquina dele. Sabe-se lá
se o cara resolveu morar por ali ...
Retomei os passeios noturnos ,
a namorada , o mate
amargo , antes
um bom
mate amargo
do que a vida ...
No fim
do ano inventei uma desculpa
e não fui passar
o Natal
com os velhos
pais , os irmãos ,
a familiagem toda que
ficara na cidadezinha. Inventei um curso de hematologia ,
depois misturei, falei que era de reumatologia , fiz a maior
confusão e não
fui. Passei o Natal
comendo pato na casa
da namorada , que
era simples ,
querida , nascida
de família imigrante
italiana, olhos azuis como a manhã maldita , mas doces feito pirulito em boca de criança .
Afinal , eu
estava querendo me casar
com ela
e me estabelecer
por lá ,
ou atravessar
a fronteira e acertar
uns trabalhos em
pesos , que
o peso valia
muito mais
que o cruzeiro
naquela época . Não
tinha consciência ,
ainda , de que
ficar ali era a melhor maneira de fugir de um destino que me
empurrava de volta para
casa , para a minha cidadezinha e do ex-amigo morto ,
e ia ficando, aconchegado às mantas e cobertores com cheiro de ovelha
daquela casa de madeira
escura , enfeitada de tapetes rústicos
bordados à mão ,
panelas de ferro ,
flores vermelhas, cheia
de irmãos com
rosto branco
de maçãs vermelhas como
aquelas que mesmo
ali se colhia e comia.
O primeiro
sonho aconteceu mais
ou menos
uns oito meses depois
daquela visão na rua .
O cara estava vivo
e me chamava, da casa
dele, sentado na sala onde seu corpo havia sido velado, o mesmo
sorriso branco ,
a camisa branca ,
a mão branca ,
me dizendo vem para
cá , você me tirou daqui tem que
tomar o meu
lugar . Acordei suando como uma chaleira
fervente . O segundo
sonho veio
depois de um
mês . Eu
andava esquisito e a italianada toda reparava. Era
um homem
com medo , cabisbaixo , tímido . Os colegas da faculdade
começaram a encarnar os médicos
que ainda
não eram e davam conselhos
das mais nobres
estirpes . Desde
não dormir sem drogas a não dormir sozinho , como simplesmente não
dormir . Passar o resto da vida alerta , para não sonhar com aquele moleque , em quem , num momento
de irresponsabilidade juvenil , eu tinha dado um caldo . Um caldo eterno . Ele
morrera, sei lá se do caldo , do susto ,
meu melhor
amigo .
O sonho
foi ficando cada vez
mais sinistro
e mais freqüente . Era sempre igual , recorrente , mas
às vezes meu
velho companheiro
aparecia com a mão
descarnada me
convidando para ir até lá . Outras vezes lhe
faltava a tampa da cabeça
e, em outras, a camisa
estava banhada em
sangue , como
se a hemorragia do afogamento
quisesse se exibir , aquele
vermelho vivo
desafiando meus saberes
da ciência , que
sangue não
fica vermelho esse
tempo todo ,
mas a gente
vê cada
coisa ...
Do lado
profissional a fissura
também abriu feia .
Seria impossível fazer
residência daquele jeito .
Eu estava mais
doente do qualquer
paciente que
pudesse precisar do meu
auxílio . Sucumbi. Não
havia outra palavra
que descrevesse o que
me aconteceu. Eu ,
definitivamente , sucumbi aos chamados do
morto e, formado, voltei à cidade natal .
Consegui revalidar meu exame de
residência para o interior de Minas, pedi a gorda irmã do meu amigo em
casamento, fui dormir com ela no quarto que antes era dele e ainda tinha até
umas flâmulas de times de futebol que ele colecionava, pregadas na parede, a
mãe não deixava limpar. Ali, ouvindo o ranger da cama patente, fiz dois meninos
iguaizinhos ao tio para ressuscitar a alegria da família. Consegui, só que fui
ficando cada vez mais triste. Terminei a residência, inventei centenas de
plantões para ficar longe daquela casa, escrevi dezenas de cartas nunca
enviadas para a namorada do sul. A cidade agora não ria às escondidas da minha
desgraça, me cumprimentava como um senhor de respeito. Médico, pai de família,
então não era aids que ele tinha quando chegou, era tristeza mesmo, coitado,
tanto que caluniaram.
Agora, depois de doar seis anos
da minha vida, sinto que cumpri a missão, fiz minha parte do sacrifício,
acertei as contas com a vida, com Deus, com o Diabo, com Buda, com Xangô, com
os deuses gregos, romanos, com todos os grãos de areia da natureza, com o
Cosmo, com quem quer que seja. Pronto. Chega.
Se eu
gosto dos meninos ?
Não . Eles
são a cara do
tio dos meus
pesadelos insólitos ,
da minha insônia ,
da minha desolação
mórbida . Não
são meus .
São o pagamento
frustrante e forçado
de um pecado
juvenil jamais
perpetrado. Um preço
alto .
Se aquela morte
não tivesse acontecido daquele jeito eu não teria me casado com a gorda e nem
estaria aqui , zonzo ,
pedindo para ficar . Por enquanto não vou poder casar com sua filha , mas com o tempo eu consigo arrumar a papelada e acertar a documentação para o casamento que eu sei que
italianos tradicionais não gostam de bagunça . Imagine se eu
ia querer me arriscar a apanhar destes seus quatro filhos fortões (embora tenham a cara
cor de rosa), eu
assim meio
magro , queria só
ficar ao lado da namorada
querida que
o destino me
roubou por tanto
tempo .
A cidade
não tem médico ,
eu trabalho mil horas por dia ... Eu só tenho 35 anos , ela só tem 32,
a filha que ela teve enquanto eu
estava fora , linda ,
cor de rosa
também, parece ser minha
filha , um
sentimento insólito
e bendito . Eu
adoro essa gaúcha cheia
de vida , essa risada
alta meio
fora do tom ,
essa saúde exuberante
de girassóis em flor . Se
o senhor tiver um
copo de vinho
vigoroso , um
catre de madeira
cheirosa como
a minha flor
do sul e uma manta
de lã grossa
de ovelha e me
der licença , eu
fico.
* Jornalista desde os 21 anos, quando estreou na tradicional revista
Realidade, trabalhou 18 anos na Editora Abril, vários anos na Carta Editorial e
outros mais na Azul. Hoje é diretora da revista UMA. Ganhou 3 prêmios Abril, um
concurso de contos infantis no Estado do Paraná e é autora do livro de
histórias para adultos: “Um Velho Almirante e outros contos”, publicado pelo
selo ARX (Siciliano).
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