Ilustração Erick Carjes
Filho contra pai
* Por
Urariano Mota
Ele, hoje ele, o filho
que é um homem, deu um pulo da cama para assim pular do sonho. Pulou e lhe deu
uma câimbra, porque na altura dos 60 anos não mais podia fazer movimentos
bruscos. Mas a dor da câimbra foi menor que a lembrança do pesadelo. Ou seria um
sonho? Naquela quadra da sua vida, os sonhos não eram mais a lembrança imediata
do dia ou da semana que passou. Os sonhos agora partiam da memória mais antiga,
que se transforma e encarna em fatos mais recentes. Seria como um Alzheimer
para intelectuais? Não sabe, nem quer saber, porque havia um sabor ácido e doce
em recordar o inferno em que não está mais. E para o filho, agora uma pessoa,
assim foi, há pouco e há muito, um minuto antes de pular da cama. Então ele se
fala, de si para si, só ele e o suplício do presente passado.
Hoje eu fui espancado
porque gosto de música. Espancado com todas as forças e vigor da palavra que se
materializa em tortura. Mas fui espancado antes do espancamento. Espancado
antes pelo medo do que viria, e o que é mais humilhante, por motivo de gostar
da música que me afirmava o meu modo de ser, autônomo, independente, algo como
a minha personalidade. Supondo que a isso eu tivesse o direito. No sonho, eu já
estava grande, crescido, mas continuava a ser um menino espancado, tão grande
mas ainda pequeno, porque estava diante da autoridade absoluta do meu pai.
Então eu disse, nem falei, apenas disse a ele: “Eu não aceito mais ser
desrespeitado nesta casa”. E repeti, até como uma tentativa de a mim mesmo
atingir na consciência: “Eu não vou mais ser espancado por você”. Você?! “O
Senhor”, pude sentir, em um soco que se erguia.
E tamanho era o
conflito, o ódio que eu travava com a minha impotência, contra o desmedido que
era lutar contra o poder absoluto, a saber, aquele que não perdoa e me matava
em minha totalidade, que o rosto, o físico do pai, não aparecia na sala. Mas
Ele estava presente, eu sabia. Então, para esse oculto que voltará com os
punhos de boxeador peso pesado, ou com o agudo suplício da surra com a
mangueira do jardim, ou do chicote, o conflito cresce. O pai pega um
instrumento de me abater como cachorro doido. Ele se transforma em uma faca
peixeira. Então ele, o que não aparecia na sala, aparece na sua arma. Ele vem
para cima de mim como aquele que vem me destruir. Ele está crente do seu
domínio, apesar de ter pela frente um filho que deseja apenas ser um homem
pleno. O pai não vai aceitar semelhante ambição, pois o filho vê o anúncio de
uma tempestade, do mar que cresce em um tsunami. O pai não vai aceitar tão
grande desrespeito. O pátrio poder vê um inominável insulto quando o filho, a
se levantar do pântano, por entre a lama, lama que é alma, lhe diz: “Eu não vou
ser mais desrespeitado”.
— Resto da minha porra,
como ousas?
O filho sente que o
conflito evolui por um caminho sem volta. Nesse ponto não existe mais a guerra
na pura consciência, porque a guerra saiu do terreno do silêncio, ou do projeto
que não vira ação. O pai vai matá-lo pelo atrevimento, por se negar logo ele,
um simples filho, a ser espancado. O pai vai matá-lo. Mas ele, o que pretende
ser ele, um alguém, uma pessoa, ele filho esse louco não quer ser morto. O
filho não quer ser morto mais uma vez. Ele não será morto como tem sido desde a
infância. Morto desde quando ele, sob o poder da infâmia, não pôde entrar para
o teatro, ou ser desenhista, pintor, essas coisas de fresco. O pai vai matá-lo.
Mas ele não quer ser morto de novo, como tem sido desde a infância.
O filho não quer ser
morto nunca mais. O filho tem, ou deve ter, pelo menos o direito de gostar da
música estranha que o pai não aceita. Mas ele, esse novo ser no sonho, não
gostaria de matar o pai. Mas ele, o filho, também não quer ser morto. Se
pudesse agarrar o pulso do pai, que vem com uma faca peixeira, que sabe cortar
ventre e rasgar fígado e estômago, se pudesse em um lance de mágica
imobilizá-lo, e que essa imobilização o pai não visse como uma afronta, um modo
de humilhar o poder único, porque se o Pai se sentir humilhado, voltará mais
poderoso, como um Anteu, o terror mitológico que cresce quando é jogado à
terra, era o ideal. Se o pai não visse na defesa do filho a mais vil agressão,
seria bom. O filho não quer matar o pai. E não quer, ao mesmo tempo, agora ser
morto. É um caminho sem volta, réprobo, maldito. Então ele, o filho que ousa uma
revolta, com o braço trêmulo, fraco, braço de adorno que jamais poderia ser
erguido contra o pai, então o braço inútil do filho pega uma cadeira — que
louca pretensão! — para se defender, louca e mais louca das pretensões. O filho
quer se defender primeiro e agora, porque o pai avança com uma faca, crente
soberbo como um deus vingativo, diante do qual é frágil qualquer defesa. Então
o pai avança com uma faca, crente de que o filho crescido é o menino cujo
caráter é a resignação de ser espancado.
No fundo da sala,
existe a maldade e a perversão da madrasta, que a tudo assiste com um sorriso
onde mora a luxúria. Qual dos dois homens vencerá? O que vencer a ganhará no
sexo como prêmio.
Então o filho pulou da
cama. E durante o dia todo não o abandonou o sentimento do crime que poderia
ter cometido, se o pai estivesse vivo, e agora viesse lhe levantar o braço que
sempre o espancou, desde a infância. De tudo, talvez, o pior foi o sentido do
sorriso da madrasta naquele homicídio. Então lhe ficou o gosto amargo da frase
com que resumiu o crime: “Era um lar de pus”. E fez de conta que matando o pai
havia matado a sua lembrança.
(Publicado no
“Cândido”, jornal da Biblioteca Pública do Paraná – Secretaria da Cultura).
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”,
cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de
Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.
Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios
brasileiros.
Tão forte quanto pesado. Um verdadeiro soco na cara. Só consegue contar assim quem já viveu algo parecido.
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