Churrasco de igreja
* Por
Urda Alice Klueger
(Para meu amigo
Adalberto Day e para meu pai, Roland Klueger)
Aquele aroma vem lá da
minha infância mais antiga, do tempo em que ainda não tinha quatro anos, e é
inesquecível e incomparável. Em dias de festa, e houve alguns naquele período
em que começo a lembrar das coisas, meu pai fazia o perigoso braseiro no chão
do rancho, rodeado por alguns tijolos, e meninas pequenas como eu ficavam proibidas
de aproximar dali um dedinho que fosse. O fogo, assim como a água, continuam
exercendo seu fascínio atávico sobre o ser humano, e ainda me lembro muito bem
do rubor daquelas brasas vivas e perigosas, que logo eram cobertas pela grelha
de ferro, utensílio importantíssimo naqueles tempos remotos – e que continua a
existir, principalmente em festas de igreja.
Então, quando a grelha
incandescia, lá vinham os churrascos para assar, mergulhados no tempero desde a
véspera, e meu pai, que sempre foi hábil cozinheiro, sabia direitinho o que se
usar para um churrasco, ou cinquenta, ou cem – temperava os churrascos para um
casamento inteiro, ou para o que fosse, as quantidades sabidas de cabeça, tanto
de sal, tanto de pimenta do reino, tanto de cebola cortada, tanto de vinho,
tanto de cerveja, um pouco de limão. Acho bom clarear o conceito de churrasco
para quem não é nativo do Vale do Itajaí – nosso churrasco é aquilo que os
gaúchos, por exemplo, chamam de chuleta, e quando, aos poucos, outros povos
começaram a povoar este vale que fora por algum tempo dominado pelos imigrantes
e seus descendentes, e se espantarem pelo nosso conceito de churrasco,
espantamo-nos também, pois, para nós, o churrasco era aquilo que a nossa
cultura nos passara.
Lembro da primeira vez
em que estive num churrasco em distante lugar, e o quanto me espantei com
tantas carnes, porcos cortados ao meio com os dentes ainda formando meio
sorriso e coisas assim, sal grosso em lugar de vinha d’alhos, espetos – tive um
choque, assim como devem ter tido os que vieram de fora e se depararam com o
que sabíamos. Imagino, no entanto, que os migrantes não devem ter se chocado
com aquele aroma que se espalha pelo ar quando aquelas chuletas temperadas de
véspera vão para a grelha e rescendem àquela inebriante fumaça de carne assando
no seu melhor tempero, assim como meu pai fazia.
Ao longo das últimas
décadas, o churrasco gaúcho foi tomando conta dos restaurantes e costumes desta
região onde vivo, e penso que hoje já pouca gente sabe, como meu pai sabia, as
quantidades certas de tempero para cinquenta ou cem churrascos, e além de um ou
outro lugar esparso, como algumas casas ou alguns assadores, o nosso churrasco
tradicional está circunscrito às festas de igreja. E hoje é um tempo em que a
gente diz coisas assim:
- Vou comer um
churrasco de igreja na festa da Nova Rússia! – pode ser em outro lugar, o que
importa é a tradicionalidade daquele tempero de véspera, a grelha de pernas
curtas sobre o braseiro, aquele aroma que eu diria divino se espalhando pelo
ar, coisa que foi tão bem preservada pelas igrejas, nas suas festas! O nosso
churrasco tradicional hoje se chama “churrasco de igreja”, e lembrando o que
meu pai fazia, eu ainda arrisco fazer o tempero de uma ou duas peças daquelas,
para obter resultado mais ou menos igual, e fico caçando os anúncios de festas
de igreja para ir lá comer aquele que é o tradicional churrasco da minha
infância, e nessas ocasiões, sinto tamanha saudade do meu pai!
Blumenau, 18 de novembro de 2014.
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre
os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12
edições).
Aqui no norte de Minas temos carne serenada temperada apenas com sal grosso.
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