Astolfo e Ana – I
* Por Edmundo Pacheco
Desabava um aguaceiro de Deus
quando Dom Astolfo resolveu-se por acampar. DeSilva, um negro de quase dois
metros de altura e olhos enormemente brancos, largou os pesados apetrechos que
trazia sobre suas costas marcadas pelas chibatadas do passado, e pelo peso das
cangalhas, e gritou para os outros mateiros.
- EEEIII!!!!
Paaarem!! EEEIIIAAAA!!!!
O grito do ex-escravo ecoou
pela pequena ravina. Não fosse noite alta já, os pássaros e macacos, habitantes
das árvores mais altas, teriam fugido apavorados com o barulho desmedido.
Uns 200, 300 metros abaixo, à
beira de um córrego de águas agora negras, uma família de porcos do mato não
esperou o dia amanhecer. Fugiram todos na direção contrária ao alvoroço.
Corria o ano da Graça de Nosso
Senhor de 1745. E um cinco de janeiro dos mais chuvosos já vistos. As chuvas
constantes e as dificuldades de se enfrentar léguas e léguas mata adentro,
teriam desanimado o mais otimista dos bandeirantes. Mas não eram bastante para
desanimar, sequer para desbotar a determinação de Dom Astolfo. Determinação que
tinha nome, sobrenome e, sobretudo, um rosto de anjo inocente num corpo de
mulher trepadeira, que faria suar o mais afrescalhado dos fidalgos da corte:
dona Ana de Vasconcelos e Almeida.
Do alto de seus 22 anos, dona Ana
de Vasconcelos e Almeida era a própria encarnação de um anjo. Um anjo que Dom
Astolfo tivera, numa tarde calorenta e ensebada de São Sebastião do Rio de
Janeiro, a felicidade e o azar supremos de deitar os olhos. Um olhar
cruzado e foi o quanto bastou. Estava decidido que pertenceriam um ao outro
pelos séculos e séculos vindouros, ante qualquer empecilho que o destino
porventura pudesse caprichosamente impor. Dom Astolfo assim o decidira. Mesmo
que dona Ana de Vasconcelos e Almeida jamais viesse a saber.
Mas ela sabia. Também ela, recém-chegada
à estranha terra de seus avós, ainda desacostumada ao odor forte dos escravos,
dos penicos despejados às calçadas num sem-cerimônia selvagem, à poeira e à
lama das ruas e à grosseria dos homens, sentira a marca quente da retina
daquele cavalheiro de traços largos e olhos negros penetrantes.
Descia a ladeira que daria à
entrada do casario, no centro da cidade, amparada e abanada por duas negras
gordas, destas pajens de trato comum, quando, sem demência, deixou os olhos
escorrerem em direção ao mar. Gostava da visão. Apesar do mundo grotesco que a cercava
e a que estava pouco acostumada, o mar, com suas águas extremamente azuis da
baia da Guanabara, era de uma rara beleza. Coisa rara de se apreciar neste
mundo perdido do lado de cá dos oceanos. E foi esta atração que a fez
desviar-se da atenção, cuidados necessários do caminho, para encontrar-se
espiritualmente com a pessoa a quem secularmente pertenceria.
Os olhos se cruzaram por apenas
um segundo, não mais que isto. Ninguém, nem mesmo as duas pajens, percebeu o
acontecido. Mas durou dias, meses, anos, décadas. Foi como se naquele lampejo,
aquelas duas almas perdidas neste mundo pagão, tivessem vivido uma vida.
O moço de cabelos mui negros,
cortados à moda militar, sentado à entrada do casario de Dom Fernando, tio de
dona Ana de Vasconcelos e Almeida, era, então "Tofinho". Filho de uma
escrava mulata, trazida prenhe das lavouras de cana-de-açúcar da Bahia, para
ajudar no trato da casa de Dom Fernando Algraves das Neves Filho, um fidalgo
dos mais renomados da corte. Pelo que se dizia à época, a mulata-pajem, de uma
beleza exuberante, era mucama do dono e fora trazida para a cidade para ter o
rebento e para lhe amenizar os esforços. No casario era a rainha dos escravos.
Mandava e desmandava. A segunda dona da casa. Também, mãe do único rebento
macho da família, havia de ter seus direitos. Era o que se dizia. Dizia,
mas não provava.
O certo, verdade ou não, é que Tofinho
veio ao mundo cuspido e escarrado a cara do dono da mãe e teve que ser criado
isolado da casa grande, pra evitar constrangimentos à dona Maria de Alcantara
Algraves das Neves, a dona, Dom Fernando e suas três filhas legítimas. Que por
sinal, em nada lembravam ao pai.
E assim a vida fez-se. Enquanto
as três meninas, apesar da desnecessidade, por serem mulheres, freqüentarem as
melhores escolas da corte e terem mais que as lições de costura e bordados,
exigidos, o pobre Tofinho era ensinado na arte de fazer artes entre as negras.
E, já mocinho, na arte de fornicar e reproduzir os escravos. Atividade que
também era sempre bem-vista, se bem que oficiosamente.
Só quando as três filhas oficiais
de Dom Fernando partiram em direção à Europa, acompanhadas pela mãe, para
completar os (desnecessários) estudos e aprender a conviver numa sociedade
civilizada, é que Tofinho obteve o privilégio de poder subir ao casario para
foder as pretas mais novas, as pajens mais bem-tratadas e limpas. E lá pôde
botar os olhos num outro mundo, que, se sabia existir, era de ouvir falar, mas
de pouco interessar.
De súbito, percebeu as diferenças
e resolveu que não pertencia ao mundo das senzalas. Tofinho era branco. Tinha a
semelhança física e de atitudes de seu pai, mas isso nunca havia ficado
evidente até o dia em que, aí pelos 16, 17 anos não contados, sua mãe pegou-o
pela mão e anunciou.
- Hoje você vai conhecer a casa
grande.
Meio com medo, meio assustado, Tofinho
ainda pensou em correr, embrenhar-se nos cafezais como sempre fazia e esquecer
a bobagem. Mas, pensou melhor e resolveu que deveria encarar o desafio, fosse
qual fosse. E encarou.
Não encontrou nada de assustador,
como lhe parecia em seu sonhos. A casa era extremamente simples, com a
diferença da limpeza e da alvura das roupas. Alvura que ele só via em sua mãe,
mesmo assim, quando ela lhe vinha visitar na senzala, nas tardes de domingos.
Entrou pela porta da cozinha, meio ressabiado, ainda tentando puxar a mão que a
mãe levava, mas, como não havia mais ninguém no recinto, deixou-se cair numa
cadeira onde passou a tarde.
Só à noite, quando Dom Fernando
chegou da rua, fazendo um barulho de patrão chegando em casa, é que teve algum
desassossego. Mesmo assim, pouco. Logo ele foi-se para o quarto e a casa
retornou ao marasmo do dia. Quando pensou em voltar para a senzala, sua mãe
apresentou-lhe outra surpresa: um quarto, bem arrumado. Quarto, na parte de
baixo da casa, ao lado da cozinha, onde devia ficar.
A noite passou arrastada, doída
pela falta de costume de colchão de palha de primeira, lençóis limpos e
perfumados, cobertas de pena de ganso e essas coisas de gente rica. Na manhã
seguinte, dormia um sono acanhado, quando viu, de soslaio, uma figura
imponente, de cabelos mui brancos e ondulados, parada à porta. De início, pensou
estar sonhando. Só teve certeza que não quando ouviu Dom Fernando conversando
aos cochichos com sua mãe.
- De agora em diante, quero ele
junto de mim. Por enquanto, deixa ele aqui neste quarto, mas logo que possível,
ele sobe pro quarto maior. Mais tarde, quando ele acordar... não vá fazer
barulho pra acordar o menino... Mais tarde, quando ele acordar, você me manda
avisar. Vou mandar uma charrete buscar ele pra ir comprar umas roupas, cortar
cabelos, essas coisas. Ah, e ainda hoje vou mandar um professor, pra iniciar
ele nos estudos...
-Tá certo sim sinhô.
CONTINUA
*Jornalista, editor-chefe da TV Guairaca
(afiliada Globo) Guarapuava, PR
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