A via-crúcis de Gumercinda
* Por
Marco Albertim
Descer à rua da Barra
evitando a entrada principal, convinha ao decoro até de quem a frequentava sem
peias nas pernas. Mesmo à noite, quando uma luz vermelha mantinha-se acesa para
luzir de promessas o comércio carnal, evitava-se a largueza da rua pedregosa.
Além dos cascalhos de
pedras rangendo sob o solado dos sapatos, a noite, por mais escura que fosse,
deixava tinir para cima a sonoridade remelenta de um bolero soletrado na
radiola de fichas. As muitas Wurlitzer não rivalizavam, uniam-se num concerto
cuja dissonância era como pulos desiguais de brincantes na rua: trôpegos,
sinistros e entronizados no ritmo pela orquestra ruidosa. As casas juntas
costuravam-se de uma ponta a outra; portas abertas, janelas fechadas, posto que
já no primeiro quarto de cada corredor, a folgança do sexo nutria-se da crença
de que os achados do gozo não tinham cúmplices a não ser as paredes de tabique
de cada quarto.
Cumpre dizer que o
gasolineiro Melício não era um frentista comum. No balcão do posto, despachava
peças, graxas e óleos para carros; dali, sem esticar as pernas curtas, rodeava
a ponta do balcão para empinar o bico da mangueira de gasolina nos tanques dos
muitos carros com motoristas acostumados ao bulício ágil de suas pernas.
Melício, por certo,
tinha alma, mas nunca a penitenciara na capela do colégio das freiras, do outro
lado da praça onde estabelecera seu comércio. Ao contrário da esposa,
Gumercinda, contrita nos cultos e na submissão ao marido. Teve dois filhos com
ele, e logo viu-se objeto de uma indiferença que cresceu para o enjoo; como
nunca reagiu, sofreu a repulsa de Melício. Primeiro Melício passou a subir a
escada para as acomodações da moradia, sem fazer o asseio do corpo suado, com
manchas de graxa e de óleo. Despia-se tão rápido quanto fora hábil na
empunhadura da mangueira. Ela se deixava promiscuir na tisna do cigarro no
bigode do marido.
Foi num sábado de
aleluia. Melício, convencido de que Gumercinda permanecia tão pura quanto a
inércia de seu juízo mole, sem resistência, aboletou-a de seu lado no veículo
onde só cabiam os dois. A caminhonete de um assento na carroceria, estacionou
em cima da ladeira de acesso largo à rua da Barra. Ele pôs o veículo de frente.
A luz branca dos dois faróis alumiou os cascalhos de madeira, de seixos; e
chocou-se sem desarrumação com o lusco-fusco rutilante da aba do telhado do
bordel de Tonha Grande. Os faróis de Melício abriram caminho para que o lume do
comércio incubado de carnes fosse apreciado em seu rubor de sangue. Sabia-se
que as mulheres, ali, prostravam-se à palidez do uso ininterrupto de seus
corpos. A vermelhidão da luz, no entanto, refulgia uma saúde sumida. Os homens
desciam com suas entranhas insanas, certos de que o jorro iminente do sêmen
polpudo, devolver-lhes-ia o rubor das faces.
- Não vou descer por
aqui. - disse Melício - Vamos pela entrada lateral da rua. Você vai apreciar
com seus olhos mortos, como as mulheres daqui têm mais vida do que você.
Gumercinda olhou para
baixo da rua. Comparou a rutilância da luz com a do Sagrado Coração no
altar-mor da Matriz. Em frente ao altar, esvaziara a alma com a confissão ao
padre no confessionário; sem a crueza de sua vida no peito murcho, sentira-se
apta para se tornar mártir. A luz do meretrício não se deixava filtrar como a
do altar, adensava-se com os pecados em volta cometidos. Gumercinda creu-se
pronta para a imolação.
A caminhonete desceu a
rua calçada. Não estranhou, ela, que na calçada das primeiras casas, moças de
cabaços intactos sequer olhassem para a coreografia buliçosa das putas. As
primeiras casas não eram bordéis. No primeiro, o de Joaquina Matias, Melício parou.
Não desceram. Meia dúzia de mulheres com pós e cremes nos rostos esticados,
miraram-na frias, com fixidez nos olhos. Logo, na porta, surgiu Joaquina
Matias. Melício cumprimentou-a com um boa-noite cavo, lascivo, para mostrar-se
cúmplice com a mercancia. A caftina não respondeu.
Melício seguiu, parou
no terceiro, a casa de Chiquinha Jacaré. A dona não apareceu, mas o marido, com
quem dividia o comércio, tinha um cigarro na boca de beiços finos, bigodes tão
escuros que acorreram no julgamento frio que fez de Melício. Não esperou o
cumprimento, inda que o conhecesse de há muito; sumiu no corredor.
No meio do quarteirão,
Melício estacionou sob a luz sanguínea na casa de Tonha Grande. Rodeou o carro
por trás. Entre a porta do carona e a do bordel, ordenou Gumercinda a descer.
Antes de entrarem, ela fitou a cintilação da luz, cruzou os braços e seguiu o
marido corredor adentro. As mulheres que estavam na rua caminharam atrás do
casal.
No limiar do corredor,
em frente ao dancing, Tonha Grande viu-os sem susto na face quadrada, bexigosa.
Ordenou à mulher que estava de seu lado, a desligar a radiola. Depois, mandou
que todas se retirassem para a rua e fechassem a porta para ninguém entrar.
*Jornalista e escritor. Trabalhou
no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos
para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional
de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho
Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas
“Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de
contos e um romance.
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