Personalidade talhada
por educação austera
O escritor japonês,
Yukio Mishima, é uma das figuras mais controvertidas, polêmicas e enigmáticas das
tantas a cujas biografias já tive acesso. Em qualquer aspecto que se leve em
conta, quer no positivo, quer no negativo, causa fascínio e divide opiniões,
com muitos defendendo ardorosamente suas idéias, atitudes e escolhas e outros
tantos condenando-as com idêntica ênfase. Não há, pois, nenhum exagero em
classificá-lo de “enigma ambulante”, pois, concordando ou discordando do que
foi e fez, não se pode afirmar, todavia, que seus pensamentos e atos sejam
compreensíveis ou até justificáveis.
Hiraoki Kimitake, que
ficou conhecido no mundo literário com o pseudônimo de Yukio Mishima, nasceu em
Tóquio, em 14 de janeiro de 1925, no seio de uma família de classe alta (pode-se
dizer, de elite), sumamente conservadora e fanaticamente apegada à tradição. O
pai, Azuza, ocupava alto cargo ministerial no governo imperial japonês. A mãe,
por seu turno, pertencia a uma família de confucianos letrados. Para tentar
entender a personalidade e algumas (se não todas) das atitudes do futuro
escritor – que muitos críticos literários consideram o melhor de todos os
tempos que a rica Literatura japonesa já produziu – é preciso remontar à sua
infância. Se não indispensável, creio que seja útil, analisar a maneira com que
foi educado e por quem. Quais foram suas influências? Que tipo de restrições
sofreu e por que? Quais as oportunidades que teve? Enfim, como foi essa etapa
da sua formação moral e intelectual? Afinal,
é nessa fase da vida que se forja nossa personalidade.
Mishima não foi criado
pelos pais. Até os doze anos de idade, foi entregue à tutela dos avós paternos.
Austeridade, em todos os sentidos, foi a tônica da sua formação. Foi instruído
no mais rígido regime de respeito absoluto à hierarquia, sobretudo a familiar.
O avô foi governador da Ilha de Sakhalinala e a avó descendia de uma linhagem
de samurais da Era Tokugawa, com seus rígidos padrões de comportamento,
caracterizados pela sobriedade, senso de honra e estoicismo, além do culto ao
físico. Imaginem um jovem, como Mishima, manifestar tendências homossexuais em
um lar tão austero e rígido como aquele!
O adolescente, descrito como tímido, retraído e arredio, manteve essa opção
rigorosamente em segredo enquanto julgou necessário. Pudera! Aliás, seu
comportamento sexual, ao longo de toda a vida, sempre foi ambíguo.
Durante a juventude e
mais tarde, já na maturidade, manteve vários relacionamentos homossexuais – inclusive cometeu “seppuku” junto com o amante
Masakatsu Morita, que também se matou. Todavia, aos 33 anos de idade, em 1958,
optou por um casamento de conveniência com Yoko Sugiyama, a pedido da mãe, e
teve dois filhos com a esposa: Noriko e Ichiro. Antes, já havia tido breve
namoro com Michiko Shoda (que viria a se tornar mais tarde esposa do imperador
Akihito). Aliás, o livro que o consagrou mundialmente, publicado quando tinha
24 anos, “Confissões de uma máscara”, tem o homossexualismo como tema de fundo.
É a história, com nítidas características autobiográficas, de um jovem talento
homossexual, que precisa se esconder atrás de uma máscara para evitar a reprovação
social.
Mas, voltando à
infância de Mishima, destaque-se que sua avó mal o deixava sair de perto da sua
vista. Vetava, invariavelmente, qualquer tentativa de amizade que o menino
fizesse. Queria porque queria formar autêntico samurai, posto que em pleno
século XX. O garoto, com inteligência superior à normal para a idade, conhecia
o complexo teatro Nô e o Kabuki, além de toda a tradição japonesa, coisa que a
maioria dos adultos do seu tempo não tinha ciência. E, claro, era versado nos
ideais heróicos dos samurais que não escondia de ninguém que se propunha a seguir. Pode-se dizer que, em
muitos aspectos, antes de completar doze anos (idade na qual voltou a viver com
os pais), Mishima era um “adulto precoce”. Muitos dos seus biógrafos entendem
que foi a partir dessa época que nasceu sua obsessão pela morte, que o levaria,
quase dois meses antes de completar 45 anos, a cometer seu mirabolante e
dramático suicídio, em 25 de novembro de 1970, episódio noticiado com grande alarde,
com inusitado estardalhaço, pelos principais meios de comunicação mundo afora.
Pudera!
Boa leitura.
O Editor
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Um desapego assustador.
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