Ana Lógica
* Por
Marcelo Sguassábia
Logicamente, Ana
levanta-se naquele dia do mesmo jeito que nos outros todos, maldizendo o cuco
de madeira capenga que lá da sala diz que é tempo, que a vida urge e exige Ana
de pé e de prontidão, a postos para matar o leão da vez.
De frente pra urna
eletrônica, saca do sutiã a colinha que trouxe de casa com os nomes dos cabras
menos ruins. Acha que aquilo é voto, tenta encontrar uma fenda na geringonça
para enfiar o papel.
- Como é que é isso,
seu mesário?
Feito o dever cívico,
passa pela padaria em frente à igreja, com suas duas televisões de cachorro e
dezenas de frangos girando. Lembra do dezembro à porta e seus piscas nos
pinheiros, Ana dos gorros tricotados de Noel, logo só se vê e só se fala nessas
festas de exageros, nesses tempos de advento onde o que menos importa é o
menino redentor desse mundo de pecados.
As cartas atrasadas a
remeter, as tampas de margarina a envelopar e enviar ao sorteio com a pergunta
respondida, as agulhas de costura agora quase tão raras quanto as de vitrola,
os lençóis no quarador, o necessário acato aos filhos que Deus manda (todos com
a mecha de cabelinho guardada na gaveta da penteadeira). Ana e a lógica das
palavras cruzadas na sala de espera e no aguardo do tempo de tintura no cabelo.
Vai treinando, Ana, a sua menina mais velha nas prendas do lar, leva ela com
você ao açougue e revela passo a passo o segredo do sucesso do seu lendário
picadinho, o melhor do quarteirão - a começar pela alcatra moída duas vezes,
sem um tiquinho de gordura, à moda da velha vó.
Acontecesse o que
fosse, ela continuaria desse jeito – Ana de células, fluidos, anáguas, aquário
de peixes na sala e fichas de orelhão no porta-níqueis. Tão analógica quanto o
moinho do homem da garapa, a agenda da Tilibra e a fita cassete. Aquela que
ainda pensa e vai morrer cismando que boleto sem autenticação mecânica não é
boleto pago. Que pendura chumaço de bombril na antena da TV de tubo catódico um
pouco antes da novela das seis, enquanto mexe o doce da vida amarga.
*
Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Melancólico retorno ao passado, ainda dobrando a esquina das nossas vidas. Nos acostumamos de forma veloz a tudo que é bom, ainda que Ana não queira fazer isso.
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