Velocidade para cima
* Por Pedro J. Bondaczuk
O homem, no século passado, e mais especificamente
neste início de milênio, parece ter perdido a sua velocidade para cima. Não,
evidentemente, no aspecto literal. Afinal, foi nesse período que desenvolveu um
veículo mais pesado do que o ar, hoje um meio de transporte corriqueiro, que
lhe possibilitou voar como os pássaros. Também foi nele que ultrapassou os
limites do Planeta e passeou na Lua, deixando impressas no solo lunar as marcas
de sua pegada. E que, de quebra, enviou sondas aos confins do Sistema Solar.
Nesse aspecto, não há como negar, evoluiu miraculosamente. Obrou maravilhas
nunca antes sonhadas.
O que de fato perdeu foi a noção de ideal. Abriu mão
de um sentido mais grandioso para a vida e da tentativa de encontrar uma
explicação para a sua origem e destino. Tornou-se ferozmente materialista,
escravo da alta tecnologia, em detrimento do desenvolvimento espiritual.
Amesquinhou-se. Robotizou-se. Perdeu a rota do seu destino.
Desenvolveu meios para resolver todos os problemas
que afetaram a humanidade ao longo de sua acidentada história, mas nunca os
utilizou. Contando com uma agricultura de alta produtividade, é incapaz de
repartir os frutos da terra com os que precisam e permite que um terço da
população terrestre se veja às voltas com a fome. Tendo uma medicina que opera
milagres, deixa multidões morrerem de doenças simples, que já poderiam estar
erradicadas com um pouco mais de esforço e de boa vontade. Dispondo de máquinas
para realizar os trabalhos mais penosos e insalubres, não previu uma ocupação
para os milhões de pais de família que tais robôs desempregaram.
E não é só nesse aspecto que a subida para o alto
foi freada. Também nos campos moral, filosófico e artístico é possível se
observar uma indisfarçável estagnação, senão um retrocesso. E frise-se que isso
ocorre não por falta de recursos. É só uma questão de mentalidade. Ou seja, de
formação. Jorge de Lima, em suas "Obras Completas", já observava:
"O homem perdeu sua velocidade para cima: exauriu-se numa agitação de
movimentos que se medem em vôos curtos". Daí eu ter defendido, no livro
que lancei há já alguns anos, a necessidade de uma "nova utopia",
para substituir as que deixamos precocemente de lado. Ou seja, precisamos de nova
meta, novo rumo, novo ideal de grandeza e de solidariedade.
Paul Auster, no romance "Mr. Vertigo",
afirma, pela boca de um dos seus personagens: "O que sei é que não se
ganha nada sem se dar algo e, quanto maior aquilo que queremos, mais alto é o
preço". Precisamos é de ousadia para promover uma revolução silenciosa e
pacífica, que mude os parâmetros das nossas expectativas. Devemos sonhar alto,
querer muito, aspirar chegar às estrelas, em vez de nos limitarmos a rastejar.
Mas nunca em termos de acúmulo de bens materiais. Passados tantos séculos de
civilização, já era tempo dos homens terem consciência da inutilidade de juntar
coisas. Somos mortais. Não somos donos de nada. Devemos estar dispostos a pagar
o preço que for necessário por essa mudança de meta, por esse objetivo sublime,
por esse pináculo da montanha.
Cabe ao intelectual, ao artista, especialmente ao
escritor, um papel destacado nessa reaceleração da subida para o alto.
Compete-lhe mostrar aos seus leitores que a vida tem coisas muito mais valiosas
pelas quais lutar do que essa estéril e estúpida luta pelo poder que se
desenvolve em todos os níveis sociais e até no âmbito da família, instituição
milenar que corre o risco de desagregação. É da sua responsabilidade resgatar
as grandes metas (aquelas pelas quais gerações passadas sacrificaram suas
vidas), reavivar esperanças, apontar alternativas. Mas é preciso,
simultaneamente, ser prático. Estabelecidos os sonhos, manda a sabedoria que se
saia em busca da sua concretização.
O ensaísta Henry David Thoreau diz, em um dos seus
ensaios: "Se você construiu castelos no ar, não terá desperdiçado seu
trabalho, pois no alto é onde devem estar. Agora, coloque fundações embaixo
deles". Tente concretizar os sonhos, se achar, no íntimo, que valem a
pena. É certo que o preço a ser pago não será baixo. Implicará em abrir mão de
determinados gozos e regalias, aos quais você está acostumado. Mas ouse. Tenha
coragem. Doe-se. No final das contas, com certeza, irá concluir que valeu a
pena. "Tudo vale", ressalta Fernando Pessoa, "se a alma não for
pequena..." O estadista inglês do século XIX, David Lloyd George,
aconselhou: "Não tema dar um grande passo, se for o indicado. Não se pode
saltar sobre um abismo com dois pulos pequenos".
* Jornalista,
radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual
Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do
Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova
utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
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