Mulheres como uma certa Maria
* Por
Urariano Mota
Como um fenômeno de
paralaxe as coisas não estavam onde pareciam estar. As estrelas miúdas de todos
se deslocavam para outro lugar, distante e distinto daquele beco, longe da
existência civil dos moradores, das roupas e feições apresentáveis. Era como se
todos estivessem nus, mas a fazer de conta que não estavam. Havia os
meninos do sapateiro cotó, que mais
pobres saíam nus para a rua, descalços, porque afinal eram filhos do cotó.
Ainda assim, nus como índios, não perpetravam a desgraça descortinada por dona
Maria num certo sábado, ao evitar o sexo precoce entre crianças.
Mas a desgraça, para
dona Maria, era outra desgraça. Quando ela contou para a sua melhor amiga ter
evitado aquilo, ela se referia à desgraça moral, não tanto a uma penetração
sexual na infância, mas pelo que ficaria por toda a vida na menina Ritinha. Era
um ato além do dilaceramento físico. À distância, ele considerava que ela
parecia adivinhar a curta vida, quando dirigia as forças para os valores de
coragem, decência e da mais rasgada generosidade. Gente assim, pensaria muitos
anos depois, tem um encontro com a eternidade do ser, mesmo quando vem, age e
some rápido. A sua eternidade é um rastro de atos duradouros, ainda que
guardados em passos íntimos. Se fosse compará-la a uma imagem mecânica, seria
como uma ampulheta que virasse todo o conteúdo de uma vez, deixando uma
permanência na retina infinda. Mas não é mecânico. Seria como o compositor
Mozart, diria, 53 anos depois. Com esse Mozart, ele queria dizer para si mesmo
que era um homem culto, que extrai conceitos das informações do mundo, que não
era mais um menino do beco. E nesse movimento de vergonha se escondia no
conceito. Mas o essencial era antes, o essencial era o primário das ações de
dona Maria, atos jamais vistos pelos moradores do beco, que ele sentia e
sentiria muitos anos depois.
Para os vizinhos, dona
Maria era o que era, e com isso eles queriam dizer que ela era a sua pessoa
física apenas, carnes, ossos e roupas. Deste modo e maneiras eles a viam:
mulher – e aqui vai um gênero e universo de entendimento bárbaro -, gorda,
baixinha, com um aspecto, ar, que não devia ser o da sua condição. Viam como um
contrassenso absoluto que aquela pessoa, digo, aquela mulher gorda e baixa, não
se desse conta da sua espécie de gente. Num tempo das divas glamurosas do
cinema, num tempo de massacre da beleza anônima de subúrbio, dona Maria era,
não passava de “uma albacora”. Cruas, essas palavras além da redução a um
peixe, pois mulheres apenas se comiam e se tornar alimento era sua razão de
ser, tal definição, difamação de Maria, amesquinhava-a numa coisa aquém do que
entendiam o gênero feminino, pois era, além de mulher, gorda e baixinha, larga
como as albacoras, que não eram uma dieta ideal aos comedores de carne bovina.
Peixe gordo, congelado, a se comer apenas nas sextas-feiras santas, em sinal de
penitência.
É curioso, no entanto,
como as mulheres vizinhas possuíam de Maria outra visão. Elas a reconheciam
como uma senhora decidida, solidária e resguardada de merecer piedade. Ela
rejeitava, “me repugna”, como dizia, qualquer piedade para a sua condição.
Mulher brava, de coragem e de raiva. Do gênero e da forma daqueles bravos a
quem os fracos não temem, porque sabem que essa bravura se dirige somente
contra o injusto mais forte. Lídia, a sua jovem comadre, dela falaria na
lembrança em 2012: “Ela era uma mulher bonita, de rostinho redondo, com os
olhos pequeninos, muito vivos. Para mim, era uma boneca índia”. E com os olhos
rasos d’água se balançava na cadeira, como a lembrar em silêncio a injustiça
que atravessa a vida de mulheres como Maria, uma injustiça que também era feita
contra Lídia, depois de passar por fracassados casamentos. A feminilidade, nelas,
para elas, era um sofrimento. O que nos homens era desejo, danação, para elas
era um vexame, como um dia na Ponte Duarte Coelho em que Lídia recebeu um vento
tão forte, na chuva, que a impediu de caminhar, porque a saia levantou e as
coxas ficaram à mostra. “Dona Maria era muito bonita, com os olhos miúdos,
negrinhos”, repete. E cala, e embarga a voz. “Vocês não querem sapoti? Tá
fresquinho”, oferece.
Quando ele a escuta, dá
uma bruta e brutal vontade de a abraçar, de lhe dizer “eu compreendo os seus sapotis,
eu compreendo a sua dor, eu sei da sua infelicidade, eu sei do que você não se
queixa, do que a magoa, eu sei, amiga de minha mãe”. E mais, amarga como uma
proposta e uma promessa que é uma formulação de princípio: “Eu não vou calar o
seu mundo”. Ele sabe, e não diz nem a si mesmo, que revê em Lídia aquela Maria
que se foi tão pletórica, vermelha, no vigor e sangue farto na altura dos seus
30 anos. Ah, é da sua natureza a reencarnação, ah, é do seu gênero, gênese e
ser de transmigração, como se o espírito quisesse um novo corpo para uma vida
que não foi possível. Dói nele uma dorzinha doce e fina porque Lídia não é sua
mãe, mas por ela será capaz de a ouvir e de lhe falar. Com a intensidade aguda
de um violino em uma romanza, naquela, ele sabe, guardada em seu silêncio,
naquela maldita e fina romanza número 2 em fá maior. Porque tudo então lhe
recorda a senhora gorda, albacora, albacora brava e bonita como uma bonequinha
índia. Ele a veria reconstruída sempre como uma mulher toda e tão só ternura. Desde
1956, passando por 1957, 1958, os anos de sua terra de felicidade, ele a
guardaria nos traços e feições. Uma guarda de modo inconsciente. Era um modo
retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do
rosto até o pescoço, o que era um modo geral dos porta-retratos, e ao mesmo
tempo, em Maria, uma exclusão, pois lhe negavam a totalidade do corpo. Ele a
veria, fortalecido na lembrança por aquele retrato, como o rosto da mulher
brava que para ele era só suavidade.
Depois da sua morte em
1958, ele menino a reencontraria como naquele retrato em sonhos, antes que
realidades mais duras tomassem o lugar daquela vida que não aceitava o seu fim.
Se fosse escrever sobre ela agora, a pena, a caneta, ficaria torta em estado de
refração, porque seria vista entre a água dos olhos. Um arrepio irreprimível
tomaria conta do seu braço. Como havia podido amar aquela mulher por tantos
séculos num buraco de silêncio? Que covardia maldita era aquela de negar se
negando? Acaso não era ele apenas um filho daquela gorda e vasta generosidade?
Então Maria, subida
pelas crenças de conforto da igreja católica, alimentada pela piedade de
pessoas que não queriam ver um menino órfão, então ela estava em sua camisola
quando partira pela última vez para a maternidade, mas sem a agonia que a fazia
gritar “eu quero morrer com meu filho, eu quero morrer na minha casa”, e
naquele desespero que ironia, ela chamava aquilo a minha casa. Então ela, com
essa camisola purificada, como se fosse possível Maria sem sexo e sem dor, lhe
aparecia no sonho erguida nas nuvens, bela, terna e calada, porque falava a sua
imensa presença. E aqui, ele não sabia se a mãe, para o menino, assimilava
qualidades da mãe de Jesus. Não sabia, porque à própria mãe de Deus, pouco
tempo depois, na crise aguda de carinho e sexo numa adolescência precoce, num
tormento sacrílego, atribuíra à mãe de Deus uma vulva, que confundia com
boceta, e clamava, numa tortura, “boceta de Virgem Maria, boceta de Virgem
Maria”. Então não era possível saber, logo depois daquela morte, se atribuía à
Maria mãe de Jesus características da mãe que se fora, ou se trazia para a sua mãe identificações obliteradas, vedadas à
mãe de Jesus. Aquilo que, num pecado mortal e hediondo, para ele que então nem
sabia dos verdadeiros pecados mortais dos homens, aquilo que era o mais baixo
da abjeção para ele, a buscada boceta de Virgem Maria, ele não sabia nem
adivinhava de longe que fosse a boceta da própria mãe, que vira tantas vezes no
banho com ela, ambos nus debaixo do chuveiro. Mas ali, quando estvam sob a
mesma água, a boceta não tinha esse lado de miserável heresia e pecado, porque
ele estava ao lado da boceta molhada de sua única Maria, e não era possível
saber que com ela possuía uma relação de feto e afeto. Seria duro para ele, na
maturidade, escrever tal descoberta, porque mais que um pecado “não passarás!”,
tal recordação o revolvia e lhe dava uma dor a ponto de paralisá-lo. Pois como
e difícil voltar à inocência de menino!
Infância, lembrava com
os olhos úmidos, fechados, com vontade de gritar: Infância, tu eras a
liberdade! Agora, ao se procurar num longínquo passado ele parecia um menino
que olhava por um buraco da fechadura ou espionasse por uma porta entreaberta.
O menino que ele via pulava a infelicidade. Saltava acima, rejeitava todos os
motivos de ser infeliz. Assim como todas as crianças, era de sua natureza pular
os motivos de infelicidade. Dizendo melhor, para maior clareza, no próprio
momento infeliz, no instante mesmo de desgraça, o menino não residia. Dos momentos
mais trágicos ou cruéis ele retirava células de alegria. Como na distante hora
do enterro de Maria, ele vestido com roupa contrabandeada, “slack”, e os
vizinhos horrorizados com sua insensibilidade, porque o menino dizia, como se
estivesse feliz: “Eu hoje vou andar de carro. Meu pai disse que eu vou pro
cemitério num carro”. Isso foi dito já de tarde, na hora de seguir o caixão,
onde estava o corpo amado da sua mãe, aquela Maria entre flores, aquela entre
os cheiros nauseantes de flores, que passariam a lhe causar repugnância por
toda a vida, como se flores fossem cúmplices da morte da sua mãe. Era já de
tarde, ele saberia muito depois, enterraram-na antes que se cumprisse o rito
das 24 horas, talvez pelo feto de nove meses que ela carregava no ventre, e essa
razão prática, médica, legal, era de uma crueldade tamanha que ele e todos
adultos esqueceram, quiseram esquecer, e
porque quiseram, esqueceram: o feto estava na barriguda, coberta de flores.
Ocultavam-no como se oculta um dejeto – a vida de Maria -, assim mesmo, entre
travessões. Tudo era tão primitivo. Tudo era tão bárbaro.
Como se podia viver sob
grades tão rudes? As coisas todas conspiravam para a morte. Sem médico, sem
alimento razoável, sem civilização. E no entanto, o menino mostrava um instante
de felicidade, porque se grande é a desgraça do mundo, mais forte é o
inconformismo com essa desgraça. Não seria, pensa 54 anos depois quando
reencontra Lídia, não seria essa repulsa à desgraça onde estava o corpo, não
seria uma fuga de loucura? Não seria uma fuga às avessas do pesadelo, ou dito
melhor, uma saída do pesadelo para o sonho? Como se a desgraça real não
passasse de um brevíssimo estágio para os campos de sol? Então ele se disse “é
bom minha mãe morrer, eu vou andar de carro”, ele recordaria a frase assim,
como uma lição clara da incompreensão das pessoas, pela censura que ouviu dos
vizinhos, escandalizados: “Menino, tua mãe morreu!”. Mas aquela morte para ele
então não era um réquiem. Era um instante feliz de andar de táxi. Era algo
igual, ou pior, que ter direito a comer maçã, como ele comeu pela primeira vez,
quando estava com febre e o corpo cheio de perebas. “Pereba”, ele recordava,
porque ferida então era pereba, pênis era bilola, umbigo era imbigo, comer era
o mesmo que bolo de feijão e farinha amassado e beijado pelas mãos de sua mãe.
Sempre assim, a infância era os átomos, ou melhor, lhe dava vontade de sorrir,
com aquele sorriso que aprendera, de sorrir para o ridículo da tragédia: a
infância era subelétrons de felicidade. Algo assim como uma nuvem fugidia, ou,
em momentos de crise, uma ausência de
domínio em um corpo concreto em convulsão. Mas como nuvem não era
indeterminada. Se o instante não era
exato, tampouco era indeterminado.
Então lhe vinham os
minutos do menino bonito que fora. Ah, partículas particularíssimas
subatômicas. Grãos de pó que cresciam pela intensidade como se fossem
bombardeio de nadas, porque eram invisíveis, mas estrelas poderosas fulgurantes
no sentimento. Ah estrelas que são um sorriso, infinitésimos do íntimo que se
guarda na gente, esses momentos passavam todos por Maria. Por que era assim?
Nos anos de juventude clandestina, sob a leitura dos manuais simplificadores do
marxismo, ele dizia que tal coisa era resultado do conflito subjetivo versus
objetivo. Mas isso era apenas uma fórmula de apagar incompreensão, o que
apagava também o entendimento. Pois a incompreensão não se resolve enquanto a
gente não a encare. Esses momentos de beleza, que passavam pelo curto tempo em
que estivera com Maria, eram uma felicidade que estava nela, nele e em seu
breve encontro. E lhe chegavam duas ou três rosas para a memória seletiva. Uma
para aquele dia em que desenhou do modo mais tosco e primitivo um avião, ou um
projeto de infância para um avião, aproveitando o papel mais barato que havia
na casa - uma casa, de resto,
constituída de todas as coisas baratas -, um papel de cor de goiaba apagada,
áspero e crespo que embrulhava pão. O lápis tentara alguma coisa semelhante a
um avião, com duas asas sem perspectiva ligadas a um cilindro com nariz. Aquilo
para dona Maria foi uma descoberta. O quê? então o filho era um artista. Então
o seu filho era um desenhista, um pintor, e com tais revelações saiu a mostrar
às vizinhas o rascunho do que poderia ser um avião. Com que júbilo a senhora
gorda e baixinha exibia o fruto do seu fruto. As senhoras vizinhas, as mais
piedosas, tentavam ser agradáveis no comentário “é um bom começo, não é?”. As
mais sinceras, que nisso possuíam também a qualidade de ser “verdadeiras”,
distinção que as pessoas do povo dão às grosseiras, apontavam a falta de rabo
no avião, uma asa mais estreita e menor que a outra, o nariz pouco curvo, e
diziam “ele tem que aprender a copiar”. A essas, para não ser igualmente
grosseira como as comadres de Molière, que se diziam “verdades” em verdadeiros
insultos, a essas dona Maria arrancava-lhes das mãos a obra do filho e passava
para outra casinha, onde encontrasse admiradoras mais solidárias.
Tão calorosa, sanguínea
ela era que, aos 30 anos de idade chorava de alegria, ou de raiva, ou de
tristeza com freqüência. Ele jamais soube se aquilo não era também um sinal da
sua curta vida, uma antecipação de sentimentos e emoções que fazem chorar com
facilidade as pessoas de mais de 50 anos. Não sabia. As pessoas então, com seu
português rude, diriam que aquilo em dona Maria era “instinto”, coisa
intestina. E com isso queriam dizer alma, espírito, qualidades e fenômenos
muito além das tripas. Mas ainda assim, com esse intestino, um nome precário
cuja poesia remete a baço, fígado e demais vísceras, ainda assim elas queriam
dizer algo que sendo íntimo também era intuição, um modo de ser que não se
explica em razões concatenadas. Então,
por intestino e espírito, dona Maria chorava ao exibir calorosa o desenho do
filho. Isso,que ele viu, a tomada de sua primitiva obra para divulgação entre
as vizinhas, foi um momento permanente de felicidade. Isso veio de Maria, veio
dele, veio do tempo e do papel de embrulho de pão. Isso era o resultado da
dialética do subjetivo e objetivo, que ele repete em 1970, sem se dar conta que
na pura vida estava, era o fenômeno, sem que desse tal explicação. A vida não
era conceito. Ela sempre pulava, pula, no tempo de clandestinidade ele não
podia adivinhar, a vida sempre pula do conceito, a vida é mais magnífica e
surpreendente que o maior e melhor enquadramento dialético.
Se pudesse pintar dona
Maria a carvão, a bico de pena de carvão, com um carvão pontiagudo, grosso e
agudo, sem que apagasse a pintura adiante, pois não seria fácil apagá-la,
diria:
“Acho que somente pude
vê-la como a minha mãe depois da sua morte. Antes, ela era uma pessoa amiga,
amiga mais velha, íntima, que havia me dado de mamar até os cinco anos. Sei que
ela era de baixa estatura, sei porque outros disseram, sei que ela era bonita,
sei porque restou dela uma foto, aquela última imagem que os pobres guardam
para o retrato da sala. ‘A foto da falecida’, diziam ao apontá-la, e para mim,
mesmo depois de tê-la visto no caixão, ela era ‘a falecida’. E no entanto era
Maria, dona Maria, a minha mãe, de quem tive a felicidade de ser filho até os
oito anos, mas a quem não dei a felicidade, ou pelo menos uma compensação,
alguma coisa de arremedo de feliz, de fazê-la saber que eu fiz um desenho dela
a carvão, depois de ela ter me falado no cemitério em 2011. Isso ela não soube,
não pôde saber de experiência viva. Mas deve ter desconfiado pelo avião que um
dia fiz, pelas letras a carvão garatujadas lá na frente do mercado público,
pelos desenhos que eu fazia na areia do beco, copiados dos de Euclides, um
soldado de polícia, débil, que
sobrevivera a um AVC. Pois essa Maria, gorda, baixinha e bonita, era mulher de
coragem, de sangue nas veias, como se dizia então, de sair com o filho de casa
sem nada, por não suportar o mando arbitrário do marido.
Era mulher pobre e sem
vergonha de ser pobre, que pelo exemplo ensinou a não ter vergonha de nossa
condição”. E assim foi, nas primeiras páginas, o seu desenho a carvão de
mulheres como uma certa Maria.
(Texto do romance
inédito “O filho renegado de Deus” e premiado no Festival Internacional de
Direitos Humanos).
*
Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da
redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações
Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife” e
“Dicionário amoroso de Recife”. Tem
inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.
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