Hospedaria das estrelas
* Por
Dinah Silveira de Queiroz
Caminhava-se através de
pequeninas casas que se apoiavam umas às outras e em breve se chegava a um
retiro de caravanas. Mas naquele dia, junto a uma aguada no centro, o número de
forasteiros, que ali haviam chegado, era enorme. Faziam pequenos círculos nessa
hospedaria a céu aberto, sob a luz das estrelas; muitos cantavam alto sua
ascendência, no encarreiramento de nomes ressoantes, como se afiassem a língua
para, no dia seguinte, diante de um copista e do rolo de pele de carneiro,
tornarem presentes suas linhagens de Davi. Havia cameleiros encostados a
enormes animais indormidos que bafejavam o ar com seu hálito quente. Burricos
relinchavam; eram presos junto a seus donos, que se envolviam em mantos e
tentavam dormir a céu aberto. Perto da entrada um velho solitário cruzava as
pernas encostando-se ao muro e repetindo orações, imóvel e meio desfalecido.
Agarrava-se às preces, quando soavam os gritos alegres das gentes nômades que
ralhavam por motivos de cargas. Lá atrás, havia outros pequenos espaços murados,
feitos de pedra mas também a céu aberto. Comprimiam-se pessoas ali dentro, sob
mantos, carga humana mais rica. Estas divisões agora custavam bom dinheiro e
quase só as mulheres as haviam ocupado, enquanto os maridos, irmãos ou pais
ficavam lá foram no envolvimento daquela noite ruidosa, em que uns se roçavam a
outros, em que seria possível até morrer, agonizando aos gritos, como poderia
ser o fim do velho em preces, e talvez não houvesse ouvidos, pela grande
confusão entre as vozes humanas e a dos animais, a chegada de novas carroças, a
oferta orgulhosa de ricos comerciantes que tomavam as câmaras - se é que assim
se podia dizer daquelas separações em pedra - para as suas famílias, no tinir
da moeda mais cara.
Maria esperava, olhando
com curiosidade ferida, todas as vezes que o largo portão se abria, para aquela
gente ali amontoada, cheirando à banha de carneiro e acendendo suas pequeninas
fogueiras nos quatro cantos dos muros. Depressa voltou José amargurado, mas
escondendo os cuidados:
- Se quiseres, encontramos
algum lugar, lá no fundo, depois dos cameleiros.
- Mas já vejo que para
mim seria difícil.
Sim, José via que a
face assustada de Maria agora parecia anunciar para breve um acontecimento que
não deveria ocorrer naquela promíscua hospedaria a céu aberto. Lembrou-se de um
seu parente que possuía duas casas, Gessel. Uma delas ele a conservava sempre
pronta para receber amigos ou alguém da numerosa parentela. Era um mercador
rico. Quando os cascos do burrinho rasparam as pedras do pórtico e o relinchar alegre
soou diante da casa, ele já estava, o parente mercador, às voltas com um homem
que exigia fosse hospedado por uma noite, ali em sua mesma casa e, à guisa de
pagamento, empurrava-lhe desde já peças de cobre, panos de linho, murmurando
agradecimentos antecipados e consternando o dono da casa. Ele notou a chegada
de José, deixou de lado o mercador e sua face se abriu numa alegria intensa.
- Eis o filho pródigo
que volta a Belém!... com outros.
Mas antes que pai José
fizesse descer Maria, ele mesmo foi afetuosamente saudá-la:
- Que bela esposa tu
encontraste! Para nós, seria grande orgulho tê-la em nossa casa; mas desde
ontem fomos quase assaltados por pessoas que nos forçaram a abrir a porta e lá
estão apinhadas e tão prontas a trocar o teto pela má palavra, que, estou
pensando, vou dormir fora de casa pois a noite está limpa.
Vendo o cansaço e a
desolação de Maria, não teve senão uma pequena oferta cortês para fazer-lhes:
- Dentro de quatro dias
a cidade ficará vazia, e então serão convidados para vir morar aqui ou na
segunda casa, além desta ladeira. Ela é um pouco retirada da cidade mas, livre
de tantos malcheirosos, poderá ser até agradável.
José agradeceu o
oferecimento:
- Irmão, disse-lhe,
carregando no tratamento: Ainda, quem sabe, habitaremos tua casa, ofertada de
boa vontade, pois creio que ficaremos algum tempo mais em Belém.
Retornaram a andar, e o
que se via agora eram pessoas dormindo fora de casa, acampadas nos currais, ou
então, como eles, vagando de cima a baixo pelas vielas à procura de um lugar.
De tempos em tempos, pai José olhava Maria, assim percebendo sua ansiedade.
- Devias ter ficado em
casa de teu pai.
Ela se fazia forte até
mesmo sabendo que o nascimento não ia demorar muito, pois o peso do menino
parecia cada vez maior e conhecia que o filho estava pronto a dela
desprender-se. Pai José mediu as colinas e se lembrou de quando menino bem se
ocultava da chuva em cavernas abertas para guardar ovelhas, em outras cavas que
eram depósitos de mantimentos. Novamente o burrinho, desta vez dificilmente
tirado de uma touceira de ervas, foi movimentado. As casas iam ficando para
trás. Sentia-se vivo o odor das plantações. Um pequeno caminho apareceu por
entre os campos, onde os pastores amedrontados com a quantidade de forasteiros
e suas fomes vigiavam os rebanhos e se chamavam pelas escuridões, tendo muito
bem amarrado as ovelhas, com suas vozes quentes e roucas, ou até troando
pequenos sons que eram imediatamente respondidos em flautas de ossos de
animais.
- Não, vamos mais
longe, mais longe... - pedia minha mãe.
Caminhavam agora na
direção de uma gruta escondida. Esta deveria estar lá, pai José bem o sentia:
no alto dela havia um abrigo para pastores, embaixo, lugar para as ovelhas.
O Senhor fosse louvado,
lá estava ela, sim, completamente vazia, tendo os pastores aproveitado a noite
mais seca e a convivência de outros, para juntos guardarem os rebanhos, em dias
de tantos estrangeiros e visitantes. Lá estava ela, como quando a conhecera e
passava tardes vendo, de sua altura, o céu corar e a noite acender as estrelas.
Lá estava ela, bendito fosse o Senhor: o lugar onde Maria podia, sem ser ferida
por aquela gente ruidosa, em seu acanhamento, tomar o descanso de uma noite,
enquanto ele providenciaria hospedagem própria.
Na primeira parte da
caverna havia a manjedoura e palhas no chão; em cima, mais alguns passos na
rocha, e eles poderiam deitar-se e esperar o dia, para que pai José se
inscrevesse e obtivesse o lugar desejado. Mas enquanto José dormia, na parte
alta da gruta, Maria deslizava e, acendendo um archote que haviam trazido,
iluminava o pequeno cocho; tomou do chão as palhas, cobriu-o e escorregou
mansamente ao lado dele, o archote iluminando seu rosto angustiado. Principiou
a chorar baixinho. "É assim que tu vens, Senhor meu filho?"
O tempo se havia
cumprido.
Lá bem longe, o canto
dos pastores vindo ao vento, chamava uns aos outros. Então eu gritei à Vida. Eu
me havia separado da doçura e da bondade do seio de minha mãe e gritava e
chorava, uma criança ferida pela aspereza de viver, porque o ar dói em nosso
peito e começar a vida será sempre, para todos os pequenos, também começar a
gritar, chorar muito diante do desconforto: as criancinhas logo sabem de sua
dor e de sua áspera condição. Eu gritava todo o choro, eu clamava como clamam
os bem pequeninos. Maria cuidava de mim. Tirava de seu ombro o manto de linho,
enrolava-me nele. "E tu, Belém Efrata?"
(Memorial de Cristo I,
Eu venho, 1977.)
*
Escritora, membro da Academia Brasileira de Letras
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