Epopéia para
materializar uma idéia
A produção do romance “1984”
exigiu tamanho esforço de George Orwell, seu autor, que se diz, em muitos
círculos (e sou induzido a concordar com essa afirmação), que o livro “matou” o
escritor. Não literalmente, óbvio. “Mas como?!”, perguntará, atônito, o leitor
(como eu perguntei um dia), achando a afirmação exagerada. Bem, reitero, ela
não deve ser interpretada literalmente. Exageros a parte, uma coisa não se pode
negar: a redação dessa obra levou o autor a se descuidar da saúde, já bastante
fragilizada (ele tinha tuberculose em estado adiantado) e a não buscar o devido
tratamento. E esse descuido... custou-lhe a vida. Foi, por isso, uma epopéia
para a materialização de uma idéia. Essa história, que poucos conhecem, é
contada, em detalhes, em um primoroso texto do editor do semanário britânico “The
Observer”, Robert McCrum, publicado no Brasil pela revista “Bula”, com tradução
de Amanda Gorski.
Os comentários que me
proponho a fazer a propósito baseiam-se em informações colhidas nesse magnífico
ensaio. O livro “1984” foi escrito em 1946, na fazenda do editor David Astor,
que a emprestou a George Orwell, para que ele tivesse o desejável isolamento
para escrever em paz, sem que fosse interrompido por ninguém. Ocorre que essa
propriedade ficava em uma ilha isolada da Escócia, chamada Jura, de clima
inclemente, impróprio, portanto, para uma pessoa saudável, imaginem para um
portador de tuberculose, e ainda por cima em estágio avançado! Para complicar,
o inverno de 1946/1947 foi dos mais rigorosos do século XX na Europa.
McCrum observa a
propósito: “Ali estava um escritor inglês, desesperadamente doente, lutando
sozinho contra os demônios de sua imaginação em uma casa escocesa localizada em
meio aos resquícios da Segunda Guerra”. Bem, para escrever o local até que
poderia ser considerado apropriado, desde que nada faltasse ao solitário
hóspede. E que este seguisse, à risca, as recomendações médicas. Mas como fazer
que isso ocorresse se não havia quem o “controlasse”? Sim, como? Ou quem o
servisse? Ou quem lhe fizesse companhia nos raros momentos em que não estivesse
escrevendo?
McCrum informa que o
hóspede, naquela casa distante, em uma ilha tão remota, e gelada, não tinha,
sequer, o essencial para uma vida razoavelmente confortável. Escreve: “Orwell,
um cavalheiro, não apegado às coisas mundanas, chegou apenas com um saco de
dormir, uma mesa, um par de cadeiras e alguns potes e panelas”. Não somente não
tinha o básico para uma vida – se não confortável, pelo menos razoavelmente “decente”
– como não contava com o mínimo de
equipamentos, hoje imprescindíveis a qualquer escritor, para realizar a tarefa
a que se propôs.
Não levou consigo nem
arquivos, nem anotações, nem livros para consulta e nem, sequer, um reles
dicionário, para dirimir eventuais dúvidas semânticas, dessas que todos temos
vez ou outra, em momentos de apuro, Já nem penso nas facilidades modernas,
essas que hoje não conseguimos mais dispensar e muito menos prescindir, como um
computador pessoal, por exemplo. Essa maquininha genial, aliás, na época sequer
existia. Portanto, não havia internet, Google, Wikipédia e tudo o mais que
viabiliza hoje qualquer idéia que venhamos a ter, por mais complexa que possa
ser, à disposição de Orwell. Tinha, apenas, como o “máximo de modernidade”, uma
máquina de escrever, que já nem era tão nova assim, e nada mais. Você, leitor,
que eventualmente seja, também, escritor, conseguiria produzir um livro, pelo
menos aceitável, naquelas circunstâncias? E, ainda mais: teria capacidade de
escrever uma obra-prima, como “1984”? E mais ainda: conseguiria essa façanha
tendo que trabalhar com febre e tossindo a não mais poder? Eu jamais
conseguiria!!!
David Astor, dono do “The
Observer”, fora patrão de Orwell, que havia trabalhado nesse jornal desde 1942.
Primeiro, atuou como revisor de livros e depois, como correspondente de guerra.
O editor tinha grande apreço e imensa admiração por seu ex-funcionário e estava
disposto a fazer de tudo para que este, finalmente, escrevesse o tal livro que
sempre dizia que “tinha na cabeça há tempos”, desde 1944. Aliás, até antes
disso: desde a guerra civil espanhola em que lutou, engajado na Brigada
Internacional em defesa dos republicanos.
O título, originalmente
pensado para a obra, não era “1984” e nem nada parecido; Era “O último homem da
Europa”. Robert McCrum observa, a respeito da concepção da história: “Esse
romance, que tem algo da ficção distópica de Yevgeny Zamyatin, provavelmente
começou a adquirir uma forma definitiva durante o período de 1943 e 1944, tempo
no qual ele e sua esposa Eileen adotaram seu único filho, Richard”. E aduz: “O
próprio Orwell alegou ter se inspirado com a reunião dos líderes dos Aliados na
Conferência de Teerã, em 1944”. E por que, especificamente, esse encontro o
inspirou e não outro fato qualquer da Segunda Guerra Mundial? O escritor Isaac
Deutscher, grande amigo do autor de “1984”, explica melhor o motivo. Afirma que
Orwell estava “convencido de que Stalin, Churchill e Roosevelt,
conscientemente, traçaram o mapa para dividir o mundo” nessa Conferência de
Teerã.
Muito se especula sobre
qual ditador inspirou o personagem “Big Brother”. Li várias especulações
assegurando que foi o soviético Josef Stalin. Orwell, todavia, nunca confirmou
essa hipótese. Deu a entender que essa figura assustadora e terrível, que “ninguém
nunca viu”, tinha um pouco de todos os tiranos do mundo, quer de esquerda, quer
de direita. Era um pouco Hitler, outro tanto Mussolini com traços aqui e ali de
inúmeros outros ditadores de tantos lugares e tempos. E tinha muito de Stalin
também, óbvio. Para mim, a história de como nasceu “1984” rivaliza, se não
supera, o próprio enredo dessa obra-prima do século XX. Merece, portanto, ser
contada.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
De fato uma façanha monstruosa, um feito e tanto.
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